Geledés – Instituto da Mulher Negra assinou, junto a mais de 70 organizações da sociedade civil, a Carta de Posicionamento frente ao Super El Niño e seus impactos no Brasil, elaborada pela Rede por Adaptação Antirracista e pelo Observatório do Clima. O documento foi encaminhado à Casa Civil da Presidência da República e aos Ministérios da Integração e do Desenvolvimento Regional, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e das Cidades.
A carta parte de um dado urgente: a NOAA (agência climática dos Estados Unidos) e o Cemaden alertam para a possível chegada de um El Niño de alta intensidade com proporções que não se viam desde 1870, trazendo riscos severos de enchentes, deslizamentos, secas prolongadas, insegurança alimentar e incêndios florestais. Diante desse cenário, as organizações signatárias exigem do poder público transparência, planejamento preventivo e priorização das populações que historicamente estão na linha de frente dos desastres climáticos, e são as últimas a receber atenção e informação qualificada.
Um dos eixos centrais da carta é a denúncia de um padrão que se repete nos desastres brasileiros: o Estado age apenas depois que o desastre acontece, e suas respostas emergenciais tendem a privilegiar áreas centrais e economicamente valorizadas das cidades. Enquanto isso, periferias, territórios quilombolas, comunidades tradicionais e zonas de risco ocupadas por populações negras e pobres seguem desassistidas, como evidenciado em estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Paraíba, Amazonas e Rondônia.
Entre os nós críticos apontados pelas organizações estão: a ausência de dados desagregados por raça e gênero nos planos de ação climática e nos monitoramentos de riscos realizados pelas instituições e órgãos de governo; a execução violenta de políticas de remoções sem participação comunitária; a falta de planejamento intersetorial prévio para assistência às populações vulnerabilizadas; a ineficiência dos planos diretores municipais diante da crise climática; e a fragmentação das políticas de drenagem e segurança hídrica nas regiões mais vulneráveis do país.
A carta defende que a adaptação climática precisa ser transformacional, corrigindo desigualdades estruturais e reconhecendo as comunidades periféricas, especialmente aquelas lideradas por mulheres negras, indígenas e quilombolas, como protagonistas legítimas das soluções, e não apenas como beneficiárias passivas das políticas públicas. Também são cobrados orçamentos específicos para prevenção, planos comunitários de gestão de riscos com financiamento adequado e o uso do programa Minha Casa Minha Vida para realocar com dignidade às famílias afetadas.
A força da carta está expressa em suas assinaturas: são mais de 70 organizações nacionais, entre institutos, coletivos, movimentos sociais, universidades e entidades ambientais, que somam suas vozes para exigir que o governo federal aja antes que os desastres se instalem, com prioridade para quem mais precisa.
Para Geledés, apoiar esta articulação é reafirmar que justiça climática e combate ao racismo ambiental são inseparáveis. Cada morte evitável de uma pessoa negra, periférica, quilombola ou indígena em um desastre climático demonstra o despreparo intencional para produzir reparação aos corpos e territórios marcados pelas desigualdades estruturais.