A resolução aprovada na 21ª sessão do Fórum das Nações Unidas sobre Florestas, realizada entre os dias 11 e 15 de maio, em Nova York, representa um movimento importante de ampliação da agenda florestal internacional para além das dimensões estritamente ambientais, por incorporar de maneira mais explícita as questões sociais, territoriais e raciais. Embora o tema dos afrodescendentes apareça no texto de forma pontual, sua inclusão possui forte densidade política e simbólica no contexto das negociações multilaterais.
O Fórum das Nações Unidas sobre Florestas é uma comissão funcional do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), junto ao qual o Geledés – Instituto da Mulher Negra possui status consultivo. Desde sua criação, em 2000, o fórum consolidou importantes marcos da governança florestal multilateral, entre eles o primeiro Instrumento Florestal das Nações Unidas, em 2007; a criação da Rede Global de Facilitação do Financiamento Florestal (GFFFN), em 2015; e a adoção, em 2017, do primeiro Plano Estratégico das Nações Unidas para as Florestas 2030, acompanhado de seus seis Objetivos Globais para as Florestas.
Para Geledés, a resolução revela uma mudança relevante na forma em como a governança ambiental global começa a reconhecer os impactos racializados da crise climática e da destruição ambiental. “O resultado da vigésima primeira sessão do Fórum das Nações Unidas sobre Florestas representa um marco político importante porque rompe, ainda que de forma inicial, com a invisibilidade histórica das populações afrodescendentes na governança ambiental global”, afirma Mariana Belmont, assessora de clima e racismo ambiental do instituto. Segundo ela, “a resolução menciona pessoas afrodescendentes em dois momentos distintos: o primeiro, ao reconhecer a necessidade de fortalecer capacidades, meios de vida e participação de mulheres, juventudes, povos indígenas, comunidades locais e pessoas de ascendência africana nos processos ligados à restauração florestal e à bioeconomia; e, o segundo, ao reforçar a importância de uma governança florestal mais inclusiva e baseada em justiça social”. Em um sistema internacional historicamente marcado por abordagens conservacionistas dissociadas das desigualdades estruturais, Belmont observa que “essa linguagem tem peso simbólico e político”. Ela afirma ainda que “os afrodescendentes são sujeitos centrais na proteção dos territórios, da biodiversidade e das florestas”.
O reconhecimento ganha ainda mais relevância diante do avanço da agenda internacional de justiça climática e reparação histórica. Ao inserir afrodescendentes no debate sobre manejo florestal sustentável, financiamento climático e restauração de ecossistemas, a resolução aproxima a governança ambiental das discussões conduzidas no âmbito da ONU sobre racismo ambiental, direitos territoriais e inclusão racial nos processos multilaterais. Em regiões como América Latina e Caribe — onde comunidades quilombolas, afrodescendentes e ribeirinhas exercem papel estratégico na preservação de biomas —, o texto reforça a percepção de que os afrodescendentes não podem mais ser tratados apenas como grupos vulnerabilizados, mas sim como protagonistas da proteção ambiental e da construção de modelos sustentáveis de desenvolvimento.
Neste contexto, Belmont destaca que essa inclusão “reflete anos de incidência política de organizações negras, socioambientais e por direitos humanos”, e ressalta que o resultado do fórum “vem na esteira de decisões recentes da COP16 da Biodiversidade, em 2024 na Colômbia, e no resultado da COP30, em 2025 na Amazônia brasileira, que também passaram a incorporar referências explícitas à população afrodescendente nos acordos multilaterais”. Ela acrescenta ainda que o processo também dialoga “com a Declaração de combate ao racismo ambiental na Cúpula dos Líderes da COP30”.
Ao mesmo tempo, a resolução evidencia os limites ainda existentes na institucionalização dessa abordagem racial dentro da governança florestal global. Apesar do avanço político representado pela inclusão explícita de afrodescendentes no texto, o documento não estabelece mecanismos concretos de financiamento, participação vinculante ou indicadores específicos que permitam monitorar a implementação dessas diretrizes. A ausência desses instrumentos operacionais demonstra que a inclusão racial permanece, em certa medida, situada no plano discursivo e declaratório. Ainda assim, o reconhecimento formal abre espaço para que países do Sul Global, organizações da sociedade civil e movimentos negros transnacionais ampliem a pressão por uma governança climática mais democrática, inclusiva e racialmente consciente, especialmente no contexto das negociações internacionais sobre bioeconomia, financiamento climático, combate ao desmatamento e implementação das metas globais florestais até 2030.