“Ele está chegando, eu vou morrer”

Mãe, lembra quando eu fiz 2 anos e te mostrei aquela dancinha?

Por Luara Colpa Do Negro Belchior

Ele estava lá:

“-Se não segurar esse menino, vai virar bichinha”.

Em cada ocasião de encontro familiar, alguém sentia a necessidade de relembrar o que era “normal” e “anormal”, em tom mais alto pra que eu pudesse escutar.

A partir de determinado momento percebi que, nos encontros familiares, os “falsos cristãos” pregavam o Evangelho, justamente para me provocar no tocante a “Deus criou o homem e a mulher…” e mesmo quem nunca havia pisado numa Igreja, nestes encontros, se portava como grande conhecedor de Leis Divinas.

Eu era uma criança, eu também queria ser elogiado por ser inteligente, saudável, estudioso. Mas nenhum elogio vinha, todos cuidavam em tentar erradicar o que saltava aos olhos.

As pessoas se incomodavam muito, né? Na escola eu apanhei calado. Aquele colega não suportou e suicidou. Lembra? Disseram que era depressão..

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Mãe, ele estava lá: Nas piadas, nos descasos, nas comparações.

Lembra quando o Tio Marcos pagou por uma prostituta pra mim e para os meninos lá no Rancho?

Eu não queria, aliás, nenhum menino queria, sabe? A gente não tava preparado, a gente não teve o direito de escolher…

Eles não entendem. A gente também tem nosso tempo, nossas escolhas. Mas as pessoas… Ah! o mundo quer impor uma conduta…

Aquela moça… a prostituta, foi a primeira pessoa que eu me abri. Sentei e falei: “Não me leva a mal não, mas isso é coisa do meu tio.”

A moça sorriu, mãe. Ela me compreendia. Ela não era minha parente, mas ela sentiu uma coisa que chamou de “Empatia”. Ela disse que também não achava legal os outros meninos serem submetidos precocemente à vontade dos tios ali naquele momento, e que isso era o machismo se propagando, que era bem comum e triste. Ela não me julgou, ela foi um anjo, mãe.

Eu saí de lá e os tios bêbados, drogados, nos esperavam. Os mesmos que se apegavam a trechos de Bíblia para me impor regras, descumpriam ali o compromisso com a monogamia jurada perante seu Deus.

Eu não queria ser nenhum deles. Eu achava que eu poderia ser melhor que aquilo. Eles me deram tapas nas costas, derrubaram uísque na minha camisa, comemoraram aliviados!

Eu não disse uma palavra, mas ele estava lá neste dia também.

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Depois eu peguei birra daquele grupo de compadres, de suas comemorações, de tanta hipocrisia. Eu me afastei um pouco, eu trabalhava, às vezes comprava os perfumes do meu gosto, tecidos indianos. Até que o papai me pegou experimentando uma de suas saias. A primeira surra.

Ele não podia entender, né, mãe? Com toda aquela família… Eu devia ser um peso pra ele.

Mas me lembro também do banho de água morninha que a Senhora me deu depois. Tinha até um óleo calmante que pegou com a vizinha, e rimos do frasco engraçado e a Senhora derrubou um pouco no chão e ficou escorregadio!

As lágrimas chegavam quase a cair, mas eu segurava, só de pensar que saindo daquele banheiro não estaria mais em segurança, e que ele com certeza estaria ali.

Foram muitos os momentos de medo e clausura. O mundo lá fora me dizia que o “normal“ era ser um canalha que bate na companheira.

Mãe será possível que Deus não olha pra isso? Será que era eu mesmo a “aberração da família”?

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Eu resolvi enfrentar aquilo tudo, desconstruir todo aquele sentimento de culpa por ser “diferente”. Eu resolvi me aceitar. Eu que só vivi tristeza até os vinte e poucos anos, eu que não conseguia emprego pelo meu visual, eu “saí do armário” e não tinha volta.

Eu me organizei, uma comunidade inteira me abraçou. E tive o direito a ser um pouco feliz também! Fazíamos planos, tínhamos projetos, sonhávamos em adotar crianças abandonadas por heterossexuais, e junto nos fortalecíamos.

Mãe, sabe o que parecia? Parecia aquele banho morno que a Senhora me deu. Todo mundo dava um banho morno no coração do outro. Todo mundo saía um pouco curado de um abraço.

Só que, assim como aquele banho, a felicidade também teria tempo para acabar, e logo à frente eu teria que encarar meu algoz.

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Triste. Triste são as estatísticas: A senhora sabia que a expectativa de vida de uma Travesti no seu país é 35 anos? E que cada 28hs um LGBTT é assassinado?

Todos os dias a gente esteve em risco, só por sermos quem somos.

“Mãe, ligue pra polícia, agora!

Ele está vindo

Mãe, eu vou morrer.”

telefone-atentado-terroristaMina Justice mostra o sms enviado pelo filho minutos antes de ser assassinado no atentado de Orlano EUA.  Foto: Courtesia de Mina Justice via AP

Ele me perseguiu a vida toda.

Ele não é um maluco, não é a exceção.

Meu assassino tem nome, mãe: É O PRECONCEITO.

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¹ Última mensagem de um dos assassinados no Massacre em Orlando/EUA no último sábado (11) na boate LGBTT de nome “Pulse”. Cinquenta pessoas foram assassinadas e mais de cinquenta estão hospitalizadas.

“O autor dos disparos é norte americano, nascido e criado nos EUA, com cidadania americana, cursou as escolas “modelo” norte americanas (tipo Escola sem Partido defendida por muitos no Brasil). Seus pais são afegãos fugidos da intolerância talibã financiada pelos EUA nos anos 80, e depois combatida e demonizada pelos EUA nos anos 2000, e armados novamente pela mesma indústria bélica americana.

Ele é, estritamente, culturalmente, geograficamente, um produto da cultura e da política bélica americana, da tolerância ao discurso de ódio religioso, homofobia, nacionalismo. 134 tiroteios com vítimas de civis em 2016, 9 atentados (8 não tinha ligações com os Estado Islâmico)… (…) Ele escolheu uma boate com homossexuais descendente de imigrantes.

O país mais militarizado do mundo, com maior quantidade de armas, com maior número de população carcerária, com menor idade penal, com o maior número de juízes e advogados.

Este é o modelo de sociedade defendido pela direita no Brasil: A intolerância religiosa, o discurso de ódio e a violência gratuita.” (Via Sociedade sem Prisões)

 

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