Eleições: Lula, Kassab e Eduardo Campos saem vitoriosos, diz professor da UnB

Se há partidos e personas vitoriosas, Leonardo Barreto vê também alguns possíveis perdedores – e ousa ao apontar o senador mineiro Aécio Neves, do PSDB, como um deles

Por: Tadeu Breda

O PT de Lula, o PSD de Gilberto Kassab e o PSB de Eduardo Campos devem chegar à noite de domingo (28) como os grandes vencedores das eleições de 2012. Quem garante é Leonardo Barreto, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), que fez àRBA um pequeno balanço do pleito que acaba neste fim de semana. Se há partidos e personas vitoriosas, o professor vê também alguns possíveis perdedores – e ousa ao apontar o senador mineiro Aécio Neves, do PSDB, como um deles.

Apesar das derrotas em Belo Horizonte, Recife e, possivelmente, Manaus, Leonardo Barreto avalia que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguirá eleger seus candidatos e confirmar suas habilidades políticas. “Lula mostra novamente sua capacidade, talvez nem tanto de transferir votos, mas de entender os cenários políticos e fazer os movimentos certos”, avalia o professor da UnB, lembrando que a maior aposta do ex-presidente para 2012 foi a candidatura de Fernando Haddad em São Paulo – que, de acordo com as pesquisas, tem grandes chances de se transformar no novo prefeito da cidade.

Se as previsões se confirmarem, o atual prefeito paulistano também deve sair bem no filme. Apesar de estar apoiando José Serra (PSDB), Gilberto Kassab conseguiu obter bons resultados eleitorais com seu recém-criado PSD: elegeu 493 prefeitos no primeiro turno, e outros cinco disputam a segunda votação. Outro vitorioso, continua o cientista político, será Eduardo Campos. O governador de Pernambuco viu seu partido aumentar em 50% o número de prefeituras, confirmar a hegemonia em Belo Horizonte e arrebatar Recife do PT. Confira a entrevista.

Que partidos o senhor acredita que vão sair mais fortalecidos do processo eleitoral?

A gente tem de destacar três. O primeiro é o PT, que atingiu a liderança em número de votos recebidos, que era do PMDB. É uma vitória muito significativa e há possibilidades reais de que essa vitória se una à conquista da prefeitura de uma cidade que simbolicamente é muito importante para os petistas: São Paulo. Outro partido é o PSD, que havia sido criado de uma maneira artificial, com 50 e tantos deputados federais, e se transformou em uma sigla real. Teve bom desempenho eleitoral, conseguindo um número de prefeituras adequado ao tamanho que tem na Câmara Federal. Tanto o partido como seu presidente, Gilberto Kassab, são hoje atores políticos nacionais. O terceiro é o PSB, que cresceu bastante em algumas capitais e aumentou seu cacife político para a eleição de 2014. Acredito que esses três são os partidos que merecem uma estrelinha, um destaque positivo na avaliação final dessas eleições.

O senhor acredita que existe algum personagem político, alguma figura que saia destacada desse processo?

Para ser coerente com essa análise anterior, três também. O Lula, que elegeu seus “postes”. Sua grande aposta para 2012 era Fernando Haddad, e parece que isso tem tudo para se realizar. Isso sem falar na possível eleição do Márcio Pochmann em Campinas e no grande número que o partido vai fazer no ABC paulista e na região metropolitana de São Paulo. Então, Lula de novo mostra a sua capacidade, talvez nem tanto de transferir votos, mas de entender os cenários políticos e fazer os movimentos certos. Lula percebeu que em São Paulo era necessário uma renovação, que esse seria o debate, e aí enterrou a candidatura da Marta Suplicy, que não teria condições de falar em renovação, e apostou num nome novo. O PSDB, que, pelo contrário, queria fazer uma renovação por meio da disputa de poder, vacilou, deu um passo atrás, lançou um nome antigo, José Serra, muito ligado à atual administração, que teve uma reprovação alta, e estão aí os problemas.

Outra figura é Gilberto Kassab, derrotado em São Paulo, mas vitorioso no Brasil. Se tivesse continuado no DEM, talvez tivesse se transformado num novo cacique político, mas ele teve a capacidade de criar um novo partido, ganhar força e, hoje, apesar de sair pela porta dos fundos da prefeitura de São Paulo, é um ator nacional. Está aqui em Brasília negociando ministérios, por exemplo. Por fim, Eduardo Campos é tido como um político que tem a capacidade de estabilizar a correlação de forças nacionais existentes no Brasil. Se ele dá um passo rumo ao PSDB, não tenha dúvidas de que ele cria uma situação nova na corrida presidencial de 2014. Se ele fica com o PT, praticamente enterra as chances da oposição. Ele sai dessa eleição como grande fiel da balança, e vem com bastante força – pelo menos força simbólica. E os passos que ele der vão ser acompanhados com muita atenção por todo mundo.

Desses três partidos e figuras que o senhor elencou, há duas siglas – o PSD e PSB – que têm a facilidade de se aliar com qualquer lado do espectro político, tanto com a esquerda, como com a direita, tanto com governo como com a oposição. Isso é uma tendência?

É uma estratégia, que pode ser alimentada enquanto você não estiver no primeiro plano da política nacional. É uma estratégia que o PMDB consagrou. O PSD e o PSB hoje são concorrentes diretos do PMDB, pois disputam os mesmos nichos, as mesmas casas políticas. Dançar conforme a música em cada cidade, estado ou esfera de poder dá muito certo, mas só é permitido até o momento em que você não é um partido de primeira linha na política nacional, enquanto você não tem acesso à Presidência. No caso do PT, por exemplo, isso é mais difícil de fazer. Se as políticas que ele adota destoarem do discurso oficial, principalmente nas cidades médias e nas grandes, acabam sendo proibidas, vetadas pela direção nacional. No caso do PSDB, isso também acontece.

O PSDB tem de manter algum tipo de coerência com sua política de alianças. Nesses partidos que atuam como coadjuvantes, oferecendo vices e depois ministros a qualquer governo, seja qual for, eles têm a liberdade de fazer isso. O preço é que o PMDB não consegue lançar um candidato viável à Presidência há muito tempo. Acho que se o PSB quiser ter um voo próprio, com o Eduardo Campos, por exemplo, vai ter de repensar essa política de coligações. O PSD não tem um projeto presidencial no curto prazo, então vai sobreviver ainda nessa política de botar o pé em duas canoas, enquanto ele puder, porque essa é a estratégia mais eficiente – haja vista o número de prefeituras que o PMDB historicamente consegue.

Falamos dos que saíram vitoriosos, mas dá para enumerar algum partido ou personagem que saiu derrotado, ou melhor, que saiu menor do que entrou nesse processo eleitoral?

Acho que Aécio Neves (PSDB) saiu menor do que entrou. Em grande medida, por uma jogada importante, estratégica da presidente Dilma. Ele tinha uma eleição por aclamação em Belo Horizonte do Marcio Lacerda (PSB) e, num ato de excesso de confiança, expulsou o PT da coligação no último segundo, acreditando que o partido não ia formar uma chapa competitiva – e acontece que formou. E com pessoal competente, com o Patrus Ananias (PT) colocando o Aécio e Marcio Lacerda na retaguarda. Por que isso foi importante, mesmo considerando que o Patrus tenha perdido? Porque na verdade a chapa competitiva em Belo Horizonte segurou o Aécio em Minas.

Ele tinha como planos aproveitar essas eleições municipais para começar um exercício de exportação do nome dele para fora de Minas. O plano era aparecer o máximo possível. Ao segurá-lo em Minas, a Dilma diminuiu o ímpeto desse processo. Aécio só conseguiu sair de BH quando as pessoas já acreditavam que Marcio Lacerda venceria no primeiro turno, aí ele conseguiu dar um giro, mas mesmo assim numa dimensão muito menor do que ele planejava. Então, Aécio não conseguiu difundir sua imagem nacionalmente, não conseguiu consolidar a hegemonia do seu partido em Minas, pois o prefeito de BH é do PSB, e ainda apareceu uma alternativa ao seu nome para as eleições de 2014: Eduardo Campos. Hoje, Aécio continua sendo uma alternativa ao PT, mas não mais exclusiva. Hoje, temos o Campos como outra alternativa.

O PSDB também? Ou o senhor separa Aécio do partido?

O PSDB, apesar de ter mantido o número de prefeituras mais ou menos igual, o que é um fato notável pra um partido que está há 12 anos na oposição, vai ter como sua vitória mais expressiva a prefeitura de Manaus. É claro que houve uma diminuição do PSDB, me parece muito claro isso. E aí você tem peças importantes do PSDB tendo problemas muito sérios. O Beto Richa, no Paraná, que não conseguiu fazer o seu sucessor na prefeitura de Curitiba. Foi uma derrota do Beto Richa, inclusive suscitando críticas muito agressivas do senador Álvaro Dias quanto à condução da política lá dentro. E São Paulo, claro. É o grande ninho tucano. A perda da prefeitura e de boa parte das eleições na Região Metropolitana coloca em risco a fragilidade do projeto estadual em 2014.

Que futuro o senhor vê para José Serra, caso ele perca essa eleição? Sendo uma figura antiga, tendo essa rejeição tão grande, e que perdeu dois pleitos presidenciais…

O protagonismo dele acabou. Se confirmada a derrota dele, Serra dificilmente vai disputar outra eleição desse nível, uma eleição presidencial, para capital paulista ou mesmo até para governo do estado. Até porque daqui a seis anos, quando o Alckmin provavelmente poderia sair, e ele poderia se apresentar como seu sucessor, já vai estar muito perto de 80 anos. A grande questão é a seguinte: estamos vivendo no Brasil uma mudança geracional. O Serra e o Lula são os últimos representantes daquela  geração de 1989, a geração da abertura democrática, da consolidação democrática, uma geração que venceu, também por causa da idade. Quase todos da geração deles estão aposentados. Eles são os últimos remanescentes. A tendência dele é que ocupe um cargo consultivo, que tenha um papel diferente na política, parecido com o que FHC tem, e que o Lula terá.

 

 

Fonte: Rede Brasil Atual

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