Em meio às obras do Metrô, grupos se mobilizam pela memória do Bixiga

Arqueólogos, urbanistas e movimentos sociais reivindicam que a chegada do Metrô ao tradicional bairro paulistano não apague a história de um dos maiores e mais antigos quilombos urbanos de São Paulo

Córrego do Saracura, região da atual Praça 14 Bis - Foto: Vincenzo Pastore / Instituto Moreira Salles - Domínio Público

Na última sexta-feira, 12, a Câmara Municipal de São Paulo realizou a primeira audiência pública para tratar do sítio arqueológico Saracura, no bairro da Bela Vista – mais conhecido como Bixiga – na região central de São Paulo. No local, durante escavações para a construção da nova Estação 14 Bis do Metrô, foram encontrados vestígios arqueológicos considerados de alta relevância para a memória do Quilombo do Saracura, que se formou em 1889 às margens do córrego de mesmo nome. A estação pertencerá à Linha 6–Laranja, ligando o bairro de Vila Brasilândia, na Zona Norte, à Estação São Joaquim, da Linha 1-Azul. 

Na audiência, promovida pela Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo, representantes do coletivo Saracura Vai-Vai questionaram a falta de transparência do poder público sobre o andamento das obras do Metrô no território onde se situava o Quilombo do Saracura, entre os séculos 19 e 20. O coletivo também critica a desqualificação do movimento, que diz ter formalizado as reivindicações em 22 de junho, em reunião com o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, o Conpresp. Um representante da Secretaria Estadual dos Transportes Metropolitanos, que participaria remotamente, não conseguiu conectar o áudio e não se manifestou. 

“O debate com a comunidade é fundamental, porque a população de Higienópolis foi ouvida quando não queria o Metrô em seu entorno. A comunidade japonesa foi ouvida quando a Estação Liberdade mudaria de nome”, lembrou a jornalista Luciana Araújo, representante do coletivo ouvida na audiência. Ela salientou que os moradores do local querem o Metrô. “O que não queremos é que sigam passando por cima da história negra e da resistência à escravidão na cidade”, disse. Gisele Brito, mestra em planejamento urbano e integrante do movimento, cobrou que a pesquisa arqueológica das obras tenha “referências negras” para estudar o território e os achados a partir da forma de viver das populações que habitavam o local. Ela integrou um grupo de representantes do coletivo Saracura Vai-Vai que visitou os primeiros achados arqueológicos encontrados nas obras do Metrô. Os materiais – garrafas, louças, pedaços de couro, ossos de animais – estão abrigados na sede da empresa A Lasca, contratada pela concessionária do Metrô para realizar o monitoramento arqueológico. “Tinha muitos livros lá sobre cerâmicas europeias e nenhum sobre rituais de candomblé. Não é possível identificar e vincular objetos daquele território sem abrir para outras referências. É preciso que, no programa arqueológico formal, a hipótese do quilombo seja consolidada como uma hipótese real de busca, dentro de uma cosmologia negra”, afirmou Gisele.

Detalhe de louça encontrada nas escavações do Metrô, típica do século 20 – Foto: A Lasca Arqueologia / Iphan

Em meio às atuações do movimento, que tem como demanda principal a valorização da memória do povo negro e quilombola, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, participou, no dia 31 de julho, da inauguração de um memorial de preservação “de Dom Orione, a história de Nossa Senhora Achiropita e da comunidade do Bixiga”, informa o site da prefeitura. “Além das obras sociais da comunidade do Bixiga, agora a parte cultural também terá este memorial para apresentar a todos as riquezas culturais do bairro”, disse o prefeito.

“Apesar da narrativa oficial associar o Bixiga à imigração italiana, existiu e existe uma forte presença da população negra na região”, explicou Raquel Rolnik em artigo no site do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade), o qual coordena. No texto, a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e prefeita do campus USP da Capital afirma que o Quilombo do Saracura é “uma das maiores aglomerações urbanas de resistência do povo negro e que ocupou a região por volta do século 19”.

O LabCidade e o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP são representativos de uma importante interface do ensino superior. Por meio de estudantes e pesquisadores, a Universidade tem estendido suas atuações, potencializando o conhecimento acadêmico a partir do interesse social e do saber público. Além de assinarem o manifesto do coletivo Saracura Vai-Vai, pedindo a preservação da memória do Bixiga, institutos e coletivos ligados à Universidade também participaram de uma aula pública realizada na escadaria do Bixiga sobre a importância dos achados para a história do bairro.  No dia 31 de agosto, como parte da programação da Jornada do Patrimônio 2022, o Centro de Preservação Cultural da USP – Casa de Dona Yayá – realizará o Encontro pelo Saracura: memória negra no Bixiga. O evento acontece das 18 às 21 horas neste órgão da USP que fica em pleno bairro do Bixiga.

Contra-laudo

“Dada a qualificação de cada um do movimento, tanto os repertórios profissionais quanto a atuação em movimentos sociais, começamos a nos organizar em grupos de trabalho. Logo de cara, montamos um grupo com dois arqueólogos e dois arquitetos, com a ideia de produzir um contra-laudo”, conta a arqueóloga e doutoranda do MAE Marília Calazans, ao Jornal da USP, referindo-se ao laudo produzido pela A Lasca. A empresa foi contratada pelo grupo Acciona, responsável pelas obras de construção da linha 6 do Metrô, para a pesquisa arqueológica no terreno – etapa obrigatória do processo de licenciamento ambiental. Com financiamento de R$ 6,9 bi do BNDES, a obra é considerada a maior parceria público-privada de infraestrutura em andamento na América Latina.

Após a identificação do Quilombo Saracura, a A Lasca enviou um projeto de resgate arqueológico ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que concedeu autorização para a pesquisa no local. De acordo com Marília, o grupo de trabalho do Saracura Vai-Vai considera que o monitoramento arqueológico está sendo bem conduzido. No entanto, acredita que a relação com a empresa seja frágil. “O trabalho de arqueologia prevê que a empresa faça projetos de educação patrimonial, mas quando não há uma comunidade envolvida, é a empresa que decide como isso vai ser”, diz a pesquisadora. Em nota, a empresa informou que ainda não foram encontrados vestígios materiais que pudessem ser diretamente relacionados ao quilombo, e sim aos aterros, “com sedimentos provenientes de outras partes da cidade”. Mas salientou: “Não significa que o material histórico identificado não possa estar vinculado ao cotidiano de seus ocupantes e descendentes, já no século 20”.

Coordenadora do monitoramento, a arqueóloga Lúcia Juliani participou da audiência pública na Câmara Municipal e disse que os achados estavam entre 1,80 metro (m) e 2 m de profundidade, em um solo que corresponde ao aterramento do córrego Saracura. “Ainda temos uma amostra muito pequena do que há ali, soterrado”, disse. Na audiência, Lúcia, que é mestra em Arqueologia pelo MAE e sócia-diretora da A Lasca, garantiu que a empresa acompanha a obra em dois turnos, “para que não aconteça nada fortuitamente ao sítio”. De acordo com ela, a equipe deverá ser composta de três arqueólogos negros, entre os quatro previstos para a escavação arqueológica, que deve começar até o próximo mês.

“Todo mundo sabia, inclusive a equipe de arqueólogos, que o local é um sítio histórico; é compatível com a documentação e a memória oral. Também sabíamos que ia ter uma camada de aterro, porque ali é um fundo de vale. Mas quando começou a escavação em profundidade, dali saiu uma vidraria compatível com os séculos 19 e 20, que é a data de ocupação do quilombo”, afirma Marília. Ela explica que o trabalho de pesquisa arqueológica está na fase de prospecção ainda, e que somente após a recuperação controlada das evidências arqueológicas é que serão feitas análises para relacionar os objetos e o contexto histórico. “Por outro lado, não está errado associar tudo isso ao Quilombo Saracura. Mesmo o aterro, está contando a história do quilombo, da expulsão das pessoas de lá. O Bixiga, o Metrô, tudo está passando em um território quilombola e essa é uma evidência arqueológica de como a cidade tratou as comunidades negras”, afirma a pesquisadora, que investigou a história das pesquisas arqueológicas do século 19 em sambaquis no Brasil, em seu mestrado na USP.

Quilombo vivo

“Quem nunca viu o samba amanhecer
Vai no Bexiga pra ver, vai no Bexiga
Lembrança eu tenho da Saracura
Saudade tenho do nosso cordão
Bexiga hoje é só arranha-céu

Geraldo Filme

Nascido em 1927, o cantor e compositor Geraldo Filme utilizou o samba e a poesia para lamentar a perda de espaço do samba para o progresso. O cantor foi contemporâneo do Cordão Carnavalesco e Esportivo Vae-Vae, que deu origem à escola de samba Vai-Vai, nascida na região do córrego Saracura. Em suas letras, Geraldo Filme retrata a história do bairro e sua resistência cultural. “O povo não é burro. O povo sabe o que é progresso e o quanto ele custa”, diz José Adão de Oliveira, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado e integrante do coletivo Saracura Vai-Vai. Adão acredita que sem uma comunidade atenta, os achados arqueológicos não viriam a público ou seriam deslocados do território, como aconteceu com o Grêmio Recreativo Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai . A sede da escola de samba foi dividida em dois diferentes endereços da capital, após 57 anos na Rua São Vicente, cedendo espaço para as obras da Estação 14 Bis do Metrô. “Queremos um memorial, para que as pessoas conheçam a história do bairro que se construiu em torno do quilombo e para que os moradores vejam [a estação] como um bem público, e não a simples intervenção privada prestando um serviço”, disse ao Jornal da USP.

Adão acompanhou a reportagem nas ruas do bairro até o Museu Memória do Bixiga. Abrindo as portas do casarão na Rua dos Ingleses, Tim Ernani, atual diretor executivo do museu, relata que tem feito este mesmo gesto para abrigar diversas iniciativas culturais e sociais do bairro, inclusive para a Vai-Vai. “Aqui se usa mais para as reuniões menores, mas a obra assistencial da escola está nômade”, conta. Para ele, a chegada do Metrô é esperada há muito tempo pela comunidade local, mas ela deve atender a uma demanda para além do uso do transporte. “Por exemplo, o nome que se dá à estação, ’14 Bis’, ou que se propõe, já demonstra. Qual é a relação que eles querem ter com essa memória?”, questiona. Ernani acredita que Santos Dumont e seu avião já estejam bem representados e homenageados no bairro, com a Praça 14 Bis, também na Bela Vista. “Aquele território é negro, da população quilombola que está aqui no Bixiga 160 anos antes dos italianos chegarem”, afirma o diretor do museu. Apesar disso, ele diz que não há rivalidades. “Pelo contrário. O Bixiga é um bairro que se dá na rua. E todo mundo sempre conviveu. A origem do bairro é, no mínimo, afro-ítalo-nordestina.”

Considerado um patrimônio imaterial do bairro, o jornalista e carnavalesco Candinho Neto, fundador da Banda do Candinho, subia a rua falando ao telefone, mas parou para falar com o Jornal da USP. Candinho já era assunto da entrevista, uma vez que o jornalista tem defendido a mudança do nome de outra estação da mesma linha, a futura Estação Bela Vista. “Não tem como falar nas festas do Bixiga e vir uma estação sem o nome Bixiga”, diz enfaticamente. 

Ele acredita que o nome original não era economicamente atrativo. “E nós queremos preservar, primeiro porque é verdade, e também porque Bela Vista tem em Goiânia, em Catanduva. Mas se tiver contestação, que seja ao menos Bixiga-Bela Vista”, diz.

Tim, Candinho e José Adão discutiram os preparativos para o próximo aniversário do Bixiga, comemorado no dia 1º de outubro, quando o bairro completará 144 anos.

Memórias do futuro

Representando a Vai-Vai na audiência pública da Câmara Municipal, o secretário executivo do Centro de Equidade Racial do governo de São Paulo, Ivan Lima, disse que o reconhecimento do território é fundamental para reescrever a história negra do Brasil. “Seja o nome da estação, seja o encontro dessa história viva que vemos continuando no quilombo urbano da Vai-Vai, que possamos ampliar essa luta.” Lima afirmou que o contexto do Bixiga é uma oportunidade de resgatar o protagonismo negro na história do País, neste ano em que será comemorado o bicentenário da Independência. 

Na mesma audiência, tanto representantes do Iphan, quanto do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo, disseram que não vão medir esforços para preservar os achados e dar visibilidade para a história do povo negro paulistano. 

A questão que ecoa do Bixiga para o futuro foi feita pela moradora do bairro Rose Almeida, durante a audiência pública: haverá políticas públicas para garantir que os moradores permaneçam no território de seus antepassados? “Sabemos como foi a saída de tantos moradores para Cidade Tiradentes. Vai se repetir! Isto é estrutura racista”, disse. 

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