sexta-feira, julho 1, 2022
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Em Negra Calada não Entra Mosca

Esse texto poderia se chamar “Negra Ousada Ataca Novamente”. E não seria diferente dos anúncios de jornais das negras rebeldes e fujonas a serem capturadas.

Helena Vitorino, do As Mina na História

Uma negra que se posiciona politicamente é tão assustador que mais parece um ataque à comunidade. Fosse ela uma ligeira que arredou o pé da senzala com corrente e tudo, ou uma cantora influente questionando racismo estrutural na música, o conceito precede o ser: negras ousadas são um perigo. Um terror.

Felicidade

Mas, se por “cantora influente” você linkou na hora a Beyoncé, não está errado – mas meio incompleto. Só Nina Simone é que sabe o sabor do chamado “pão-que-o-diabo-amassou” que engoliu por protestar carnal e vivamente o quanto o racismo nos Estados Unidos assassina diariamente o povo negro, ainda hoje. Quando o John Lennon fez ‘paz-e-amor’ e compôs “Imagine” pregando contra o extermínio de americanos e vietnamitas, o ovacionamento foi garantidíssimo. Mas quando Nina Simone inventou de exaltar a negritude e compor “Revolution”, ah meu irmão… aí não.

A negra é bem vinda no palco para entreter.
Mas que não ouse uma postura política.

 

Em termos rápidos, Nina Simone pagou com a carreira, que era sua vida. A música e expressão, sua essência vital, foi à derrocada conforme ela abraçou os direitos civis nos Estados Unidos e trouxe o questionamento pro ambiente artístico. Aquela negra bocuda que convocava os jovens para confrontarem sua realidade de abandono social foi calando. Deixou de receber convites para tocar. Nina Simone virou estigma. Virou pecado. Ninguém queria uma negra consciente da sua influência e do poder do seu discurso para união do povo negro. Para a época, bastava uma negra arrumadinha, quiçá sapateando e sorrindo num tablado, e a diversão era garantida.

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Jazz singer Nina Simone pictured in 1978, the year she recorded and released the song “Baltimore.”

Boicote à Beyoncé? É isso mesmo gente?

Na Terra da Liberdade você pode ir à televisão nos Estados Unidos e insultar em rede nacional uma pessoa portadora de deficiência física – e ainda concorrer à presidência. Você pode fazer apologias à escravização sexual da mulher nas músicas e ainda concorrer à disco de platina. Mas é pré-requisito que você seja branco. E preferencialmente, homem.

 

Loucamente, o boicote à Beyoncé não me surpreende mas me espanta, e me espanta pelos argumentos. Numa infeliz vez que pesquisei a hashtag #boycottbeyonce, um dos argumentos foi de que uma pessoa que usa escolta da polícia não pode questionar a atuação desta com a população. (?!) Uma mulher negra agachada sobre uma viatura submersa causa mais distúrbio do que um adolescente de capuz alvejado por comprar candys numa loja de conveniência. Capuzes que soam o alarde da insanidade, e depois ecoam no silêncio. Mas… você notou na viatura?

Beyoncee

Polícia de Nova Orleans

A bela New Orleans, cidade majoritariamente negra, que ficou ÀS MOSCAS muitos anos depois do Furacão Katrina. É. A cidade que mais demorou para ser reconstruída depois do furacão, porque as autoridades estavam discutindo se era melhor reconstruir tudo, ou vender pra iniciativa privada. A discussão levou pelo menos uns bons anos, ali mesmo, no meio da lama, enquanto a garotada comia barro com água suja. Então a polícia e o governo de Nova Orleans submersos é essa m* toda do furacão que nós estamos devolvendo pra vocês. (Para leitura, recomendo A Doutrina do Choque).

 

Muitos artistas negros sofreram represálias por se posicionarem politicamente contra a segregação racial, a favor dos direitos civis, pela conscientização da população negra sobre sua situação de encarceramento mental nos Estados Unidos. E no Brasil, faça-me o favor. QUEM É TAÍS ARAÚJO OU ISABEL FILLARDIS pra falar alguma coisa, não é verdade?

Abandonando a ironia um pouco – porque desgraça pouca (ou muita!) não é bobagem, quando chegar no seu prédio dá uma bela olhada para as câmeras de segurança e lembre da historinha da Titia Marie Von Brown, que era uma negra ESGOTADA de saber que o seu bairro, a abandonada e pobre periferia do Bronx, tinha todos os dias um jovem negro esfaqueado sem qualquer atuação da polícia. Ela então desenvolveu e patenteou o sistema de vigilância doméstica que conhecemos hoje – as câmeras das casas, dos apartamentos e pequenos comércios – adaptando versões de grandes empresas para monitoramento via controle remoto, dentro dos lares. Além dos controles, ela também desenvolveu o deslizamento de câmeras, o que facilitou a ampliação do campo de filmagem dos crimes que ocorriam na região.

Marie-Von

Essa foi a lição de hoje, amados! Quando a mulher negra fala, até as moscas se espantam! E é bom que seja assim, porque seja na música, na política, na tecnologia ou arrebentando correntes, a postura política da mulher negra vai abalar as cadeiras solenes em que essa gente podre se sustenta. Se as hashtags são sua munição, preparem os teclados! Vai faltar botão para tantos lacres quando Formation, Revolution tomarem as avenidas da sua cidade. Se der muito medinho, você pode acompanhar pelas câmeras do seu apê. As câmeras de segurança. Que foram desenvolvidas por uma negra. E pobre. E inteligente.

 

Oh, shit.

 

Links que vão te ajudar a ser feliz:

http://asminanahistoria.com.br/8-coisas-do-nosso-dia-a-dia-que-foram-inventadas-por-mulheres/

http://www.imdb.com/title/tt4284010/

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160210_gch_trump_conviccoes_fn

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2015-11-26/donald-trump-e-repudiado-ao-imitar-jornalista-deficiente-em-comicio-nos-eua.html

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