sexta-feira, novembro 26, 2021
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Encontrou camisinha na vagina: mulheres relatam estupro após serem dopadas

Maria*, de 22 anos, tomou cerveja de um copo oferecido por um conhecido durante uma festa no Rio de Janeiro. Depois, conta, não se lembra de mais nada, só de acordar no outro dia em casa. Sentiu incômodos na vagina e teve um sangramento, mas só se deu conta de que foi vítima de estupro após receber um vídeo em que aparecia sendo violentada por um homem. O caso ocorreu em 2019, e ela pede para não ser identificada porque quer esquecer o que ocorreu e “normalizar” a vida.

Em uma reunião de amigos em Brasília, Joana*, de 25 anos, bebeu um drinque oferecido por uma das pessoas que estavam na festa. Foi encontrada por uma amiga, no dia seguinte, no banheiro da casa, sem saber o que havia acontecido. Ela só se deu conta de que havia sido abusada sexualmente após encontrar uma camisinha em sua vagina, como contou para sua advogada na época. Decidiu não denunciar porque não tinha nenhuma lembrança.

Essas são duas histórias estarrecedoras de um tipo de crime que aparenta ser uma lenda urbana, no estilo “Boa noite, Cinderela”, mas que acontece com frequência, segundo advogadas e médicas ouvidas por Universa. Embora haja uma tipificação penal para o crime — considerado estupro de vulnerável, já que a mulher não pode oferecer resistência —, não há dados que especifiquem quantos desses casos ocorrem por ano, pois se misturam na mesma categoria as ocorrências contra menores de 14 anos, pessoas bêbadas ou com deficiência.

Segundo a advogada Gabriela Souza, do escritório Advocacia para Mulheres, de Porto Alegre, o impacto na vida das vítimas é devastador, pois o sentimento de culpa fica ainda mais exacerbado do que no caso de serem violentadas com consciência. “Elas se sentem culpadas por terem confiado na pessoa que ofereceu a bebida. Têm ideação suicida. Relatam que estavam em festas e que a última coisa de que se recordam, muitas vezes, é conversar com o agressor, mas sofrem uma espécie de apagão”, diz.

Souza lida, atualmente, com um caso em que a vítima foi dopada, estuprada e filmada. O vídeo chegou até a mulher no dia seguinte, pela manhã, por WhatsApp. “Tive que ver as imagens, são horríveis. Ela está completamente desacordada. E, durante a audiência, o estuprador teve a coragem de dizer que ela quis ter relações com ele durante a festa em que estavam.”

“Casos aumentaram nos últimos dois anos”, diz médica que atende vítimas de violência sexual

À frente do Nuavidas (Núcleo de Atenção Integral a Vítimas de Agressão Sexual), da UFU (Universidade Federal de Uberlândia), a ginecologista e obstetra Helena Paro trabalha no atendimento de mulheres que foram violentadas sexualmente e afirma que, nos últimos dois anos, vem notando um aumento de casos de estupro de vulnerável nessas circunstâncias.

Paro, responsável pelo atendimento de vítimas que desejam interromper a gravidez após uma violência sexual, diz que algumas não se lembram de nada e, de repente, se veem grávidas sem ter tido qualquer relação sexual consentida.

“O caso que mais me marcou foi de uma menina de 13 anos atendida durante a pandemia. Ela achava que era virgem e ficou desesperada ao descobrir a gravidez. Contou para a mãe e teve o atendimento por telemedicina”, conta a médica.

A jovem conta que estava em um churrasco com amigos e foi encontrada desacordada em um dos cômodos da casa. Mesmo sem se lembrar do que havia acontecido, fez um teste de gravidez após a menstruação atrasar e deu positivo. Decidiu interromper a gravidez e afirmou ter ficado “aliviada”.

“Drogas do estupro são inodoras, incolores e podem não ser identificadas em exames”, diz especialista

Segundo a médica Rita de Cassia Bomfim Leitão Higa, legista aposentada do IML (Instituto Médico Legal) e professora de Toxicologia e Medicina Legal da Unoeste (Universidade do Oeste Paulista), as chamadas “drogas do estupro” são inodoras e incolores, o que torna impossível para a vítima perceber que a bebida foi adulterada.

“Os laboratórios de toxicologia forense têm procedimentos para verificar a presença de muitas dessas drogas. No entanto, sempre surgem novas. E é importante ressaltar que, com o tempo, cerca de horas, essas substâncias são eliminadas e podem não estar presentes nas amostras analisadas”, explica. A médica salienta que há drogas de fácil acesso, podendo ser adquiridas até em farmácias.

“As substâncias empregadas para dopar pessoas fazem com que elas fiquem confusas, com sua capacidade de discernimento e julgamento alteradas, também apresentando dificuldade de autodefesa e em recordar dos fatos ocorridos. A duração dos efeitos depende de uma série de fatores, como associação com outros compostos, quantidade utilizada, susceptibilidade pessoal, entre outros.”

Por que é importante denunciar mesmo sem lembrar o que aconteceu

Como explica a advogada Andressa Cardoso, especialista em direitos das mulheres, é recomendável que a vítima denuncie o que aconteceu, mesmo que não consiga se lembrar dos fatos.

“Pode ser, por exemplo, que outras tenham sido vítimas de um mesmo agressor e, em conjunto com aquelas notícias de crime, as autoridades consigam cruzar informações e chegar nele”, diz a advogada, que atendeu três casos desses em dois anos.

“Mas, infelizmente, muitas deixam de efetuar a denúncia, pois o desgaste que traz é imenso, além da própria dor que sentem.”

Como conseguir ajuda

Mulheres vítimas de estupro podem buscar os hospitais de referência em atendimento para violência sexual, para tomar medicação de prevenção de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), ter atendimento psicológico e fazer interrupção da gestação legalmente.

Também é possível conseguir ajuda ligando para o número 180, a Central de Atendimento à Mulher. Funciona em todo o país e no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita. O serviço recebe denúncias, dá orientação de especialistas para serem procurados e faz encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. O contato também pode ser feito pelo WhatsApp no número (61) 99656-5008.

*Os nomes foram alterados para manter o anonimato das vítimas.

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