Engenheira negra conta que recebeu muitos ‘nãos’ até se tornar responsável pela proteção do sistema elétrico de Goiás

Carla Sena relata que muitas pessoas não acreditavam que uma jovem mulher negra pudesse desempenhar bem o trabalho em um setor dominado por homens: ‘Inteligência e habilidade não têm cor ou gênero’.

Por Vanessa Martins, Do G1 GO

 

Carla Sena, mulher negra de cabelo cacheado, sorrindo.
Engenheira eletricista Carla Sena, responsável pela proteção do sistema elétrico em Goiás — Foto: Matheus Vitorino/Enel

Responsável pela área de proteção do sistema elétrico em Goiás, a engenheira eletricista Carla Sena, de 41 anos, pode dizer que passou por cima do preconceito de muita gente para conseguir mostrar do que é capaz. Desde que escolheu a profissão, ela disse que vem lutando para mostrar que mulheres negras e jovens, como ela, têm muito a acrescentar a qualquer setor.

“Temos muito a contribuir nesse mercado. As pessoas têm que lembrar que inteligência e habilidade não têm cor e não têm gênero. Temos que nos colocar dispostas a ignorar as provocações diárias, qualquer fala depreciativa, e nos mostrarmos capazes”, disse.

Vendo o pai empreiteiro de obras, Carla começou a pegar gosto e se permitir investigar o mundo da construção. Ao mesmo tempo, ela conta que era fascinada por descobrir as novidades tecnológicas do ramo.

“O detalhe é que o setor elétrico valoriza muito quem tem mais idade, mais experiência. Acredita-se ainda que é um setor de carga mais pesada. Eu tinha o perfil contrário do normal do setor elétrico. Foi demorado para conseguir começar a trabalhar na área”, lembrou.

Carla Sena, mulher negra de cabelo cacheado, sentada em frente ao computador.
Engenheira eletricista Carla Sena, responsável pela proteção do sistema elétrico em Goiás — Foto: Matheus Vitorino/Enel

Segundo a engenheira, o primeiro trabalho veio quando ela foi selecionada em um processo de trainee para trabalhar em uma indústria. “Fui vendo que não tem nada a ver com força física. É um limite que colocam para a gente e muitas nem chegam a conhecer o mercado por causa desse limite”, comentou.

Já no mercado, Carla disse que teve serviços negados por pessoas que nem conheciam o trabalho dela ainda. Mesmo com experiência, sempre ligada em fazer cursos para se atualizar e mostrando o seu potencial, ela disse que não se via reconhecida.

“Na época que eu trabalhava com automação, tive cliente que negou meu serviço porque achava que eu não tinha perfil. Tive gerentes que se recusavam a me dar espaço. Por muito tempo tive remuneração abaixo dos meus colegas homens que faziam o mesmo trabalho que eu”, afirmou.

Em jornada dupla, a engenheira estudava para passar em um concurso público. Mesmo depois de aprovada, ela conta que não deixou de se atualizar no mercado, que apresenta novidades toda semana. Carla acredita que foi assim que conquistou o espaço para mostrar o seu potencial, mas não deixa de enfrentar preconceito todos os dias.

“Isso é presente o tempo todo na profissão. É uma autoafirmação constante. […] O que eu tento ao máximo é ignorar os comentários para seguir em frente. Eu não posso me deter por causa disso. Eu tenho um trabalho a realizar, eu tenho um propósito e é nisso que está o meu foco”, disse, determinada.

Carla Sena, mulher negra de cabelo cacheado, sentada em frente a um computador junto de um homem, negro de óculos
Carla Sena coordenando a rede de proteção do sistema elétrico em Goiás — Foto: Matheus Vitorino/Enel

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