quarta-feira, setembro 28, 2022

Estátua e tabu

no brasil, há quem defenda que as estátuas de genocidas, escravizadores e invasores de terras alheias permaneçam de pé, mesmo que elas estejam a ser arrancadas mundo afora.
um tabu injustificável.
me parece que estão a mitificar quem deveria ser demonizado, confundindo uma estátua com um totem; tem sua razão de ser.
explico.
o título dessa crônica faz uma referência ao livro seminal de freud, de 1913 (totem e tabu), mas deixo claro que os etnólogos frazer, malinowiski, boas ou mesmo o durkheim, fizeram um estudo bem mais interessante sobre a questão totêmica do que o notável fumador de charutos de viena.
digo isso porque me lembro de ter lido um artigo de ricardo latcham, onde ele mostra que freud vacilou um pouco na sua interpretação sobre os totens.

e concordo em parte com o etnólogo chileno.

o fato é que a antropologia cultural nos descreve que um totem, elemento anímico que serve como vetor de coesão de um clã, cujos membros, pela irmandade, se veem obrigados a se defender mutuamente, não pode, jamais, ser destruído.

embora isso não tenha impedido os espanhóis comedores de ouro de botarem abaixo os chemamulls e os kemu-kemus mapuches e mandá-los à fogueira.

preferiam erguer, à sua vez, estátuas de seus ídolos horrendos e desumanos.

percebem a simbologia?

por falar em totens, malinowski fez um estudo aprofundado e comparativo entre 62 tribos e ele nos conta, do alto desse conhecimento analítico, que só na europa esse fenômeno de culto totêmico não se realiza.

discordo de bronislaw, que muito admiro, as estátuas, de certa forma, têm desempenhado esse papel, tanto na metrópole, quanto nas colônias.

não digo apenas as estátuas de andor, chamadas de imagens, mas também as de homens de cara amarrada.

os símbolos heráldicos, os brasões familiares, caindo em desuso, deram lugar a essas esculturas que imortalizam uns sujeitos que representam a “grande família” de invasores e pilhadores.

borba gato, por exemplo, é a representação do clã dos paes leme.

leio que o jornalista laurentino gomes disse ser contra a derrubada da estátua do bandeirante bandeiroso porque ela, a estátua, nos ajuda a compreender a história.

ora, ora, ora; mas que conversa mole.

eu, pessoalmente, nunca precisei ver a estátua do velho borba pra saber que ele foi um grandissíssimo canalha; olhar para a efígie daquele ladrão só serviria para me dar engulhos.

pra você ter uma ideia, eu nem preciso ver uma foto ou uma estátua de laurentino para saber que se trata de um macho branco.

elementar.

talvez gomes não perceba, anti empático, que aquilo é um abjeto objeto de culto à personalidade, a efígie daquele sujeito é uma afronta ao povo negro, em particular, e às pessoas razoáveis, de um modo geral.

sou a favor que gato seja morto a pauladas ou a golpes de marreta.

defender esses bonecos anímicos me parece uma forma de proteger o próprio pescoço.

e digo mais, a bíblia nos conta que deus puniu a mulher do patriarca ló transformando-a numa estátua de si mesma.

ao contrário de laurentino gomes, deus, que sabe de tudo, já havia sacado o poder simbólico que esse elemento exerce, não foi à toa que ele mandou derreter aquele bezerro de ouro.

quando os barbudos mercenários do daesh implodiram a estátua gigante do buda, eles sabiam que estavam a atacar não uma figura de pedra, mas tudo aquilo que ela significa e dignifica.

e buda representa a bondade, a tolerância, o ascetismo e a amor ao próximo, nada mais distante do que pregam aqueles camaradas pagos pelos falcões estadunidenses.

erguer ou derrubar estátuas não é um gesto despropositado.

uma coisa é o monumento da renascença africana, erguida em dakar, no senegal, ou mesmo a escultura do libertador thomas sankara, em burkina fasso (cujo primeiro rascunho, por tosco, foi rejeitado pelo povo), elas fazem referência à liberdade; outra coisa é venerar cristóvão colombo.

é isso, erigem-se umas, erodem-se outras e segue o baile.

quando mussolini foi deposto, a moçada tratou logo de esmagar a estátua dele, não ficou um grão de granito pra contar a história.

uma pulga me coça a orelha: o que diria o nosso bondoso laurentino?

e tem mais, a história nunca precisou de uma estátua de hitler para que conheçamos e condenemos seus horrores.

o mais curioso é que os belgas, por gerações, passaram noites e dias pela estátua altiva do carniceiro leopoldo segundo sem nunca cuspirem nela, me parece que até os pombos belgas se recusavam a cagar na cabeça do ídolo.

até que, finalmente, se deram conta de que aquela imagem falava mais sobre os belgas do que sobre aquele desgraçado.

destruir imagens de genocidas não é tentar apagar a história, e fazer história, é mostrar que um novo tempo chegou e que não mais será tolerado que as cidades esfreguem em nossas caras esses caras que tanto mal fizeram a nossa gente.

dito isto, digo mais, está aberta a temporada de caça:

abaixo todos os bezerros de ouro!

palavra da salvação.


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