Estilista do Benin atrai brasileiros em SP com estampas africanas

“Pode jogar tudo no chão, fique à vontade”, diz Abbé Tossa à cliente na pequena sala em um edifício na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, repleta de tecidos estampados de cores vivas, típicos da África.

por Flávia Mantovani no Yahoo!

Imagem – Yahoo!

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A auxiliar de produção Andreia Soares, 36, veio de Sorocaba, interior de São Paulo, para comprar dois presentes. Animou-se a percorrer os 100 quilômetros entre as duas cidades após ficar satisfeita com sua primeira aquisição, um tecido para um vestido de casamento. “Escolhi a estampa pela internet e fui muito elogiada. Antes eu não costumava usar roupas africanas, mas agora dá vontade de vestir assim sempre. É muito lindo”, diz.

Natural do Benin, na região ocidental da África, Abbé, 28, chegou ao Brasil em 2012. Veio para estudar —está terminando o curso de Ciências Biológicas— e, há um ano e meio, começou a desenhar roupas feitas com os tecidos estampados que sempre usou em seu país.

“Cresci usando essas roupas. Minha mãe está nessa área há 40 anos, eu me sinto bem trabalhando com moda”, conta Abbé, que batizou sua marca com o nome dela: Kuavi.

O beninense é estilista autodidata e não tem formação em moda. O feitio das peças —camisas, calças, vestidos, turbantes, conjuntos e blazers— fica a cargo de dois costureiros também imigrantes, naturais de Burkina Fasso. “Começo a imaginar a roupa na minha cabeça, penso no caimento do tecido, se coloco o zíper de um lado ou do outro, aí faço o esboço e converso com o costureiro.”

A maioria de seus clientes são brasileiros, e as vendas são feitas principalmente pela internet. Em suas páginas nas redes sociais, ele recebe encomendas de vários estados. “Acabam de chegar fotos de uma cliente de Rondônia”, conta, mostrando o celular.

Suas peças também foram descobertas por artistas famosos: a atriz Adriana Lessa, os atores Ailton Graça e Érico Brás e o músico e ator Seu Jorge fazem parte da clientela.

O beninense trabalha principalmente com roupas sob medida. “É algo raro no Brasil, mas eu gosto porque assim o cliente se sente especial”, afirma. Os clientes que compram pela internet enviam suas medidas para que ele confeccione a roupa a distância.

Alguns modelos passaram por adaptações para agradar aos brasileiros: mais fendas e recortes, por exemplo. “As africanas gostam de usar roupas mais sóbrias, que tampem tudo. Já o brasileiro preferem roupas que deixem mais à vontade, com decote maior, mais soltas”, compara.

Enquanto mostra os tecidos, chamados de ankara, ele vai contando histórias sobre as estampas. “Essa é muito conhecida e se chama dashiki ou Miriam Makeba, em homenagem a uma cantora sul-africana que mundializou essa estampa. Essa de figuras geométricas se chama samakaka e vem de Angola. Cada desenho tem um nome”, diz.

Segundo Abbé, alguns desenhos são mensagens codificadas, usadas no passado por mulheres africanas para se comunicar. Ele mostra um tecido vermelho e preto com pombas levando uma mensagem no bico: é chamado “mensageiro” e era usado como um convite à paz em momentos de conflito entre tribos. “Quando minha mãe fala das estampas, você arrepia. Para cada uma, ela sabe dizer de qual cidade é, de qual povo, qual o significado”, completa.

Para o estilista, a tendência é que esses tecidos sejam cada vez mais utilizados no continente africano. “Você vê pessoas que trabalham na área administrativa e usam roupas coloridas no trabalho, presidentes, diplomatas usando. São cores vivas, são lindas, é algo muito forte para a gente, cultural mesmo.”

Um exemplo é o presidente de Gana, Nana Akufo-Addo, que tomou posse vestido com uma túnica colorida e costuma usar camisas com tecidos africanos em encontros da ONU (Organização das Nações Unidas). O jogador de futebol marfinense Didier Drogba também chamou a atenção da imprensa ao se casar em Mônaco vestido com um tecido típico do seu país.

Abbé vê também um aumento do interesse dos brasileiros, acompanhando a maior imigração africana nos últimos anos, e lembra que a ankara caiu no gosto de celebridades internacionais como Beyoncé.

“Todo mundo pode usar. As pessoas me perguntam: ‘eu sou branco, posso usar?’ Claro, é moda. Tem muito branco que compra comigo. Aqui existe essa questão da apropriação cultural, a galera não sabe brincar, é meio complicado”, afirma.

O beninense começou a ficar mais conhecido após atuar como tradutor durante uma visita de um dos reis do Benin ao Brasil, no início de 2018. A propaganda boca a boca é o que costuma atrair novos clientes.

“Tento fazer o meu melhor e, quando você faz um bom trabalho, você não precisa fazer barulho. As pessoas te procuram. Estou aqui em cima [a sala fica no subsolo], não tenho loja embaixo, mas a galera vem.”

No mesmo local, que ele sonha em transformar em um espaço cultural, funcionam aulas de francês, inglês e iorubá —língua falada em países da África ocidental, principalmente na Nigéria.

Trazido para o Brasil na época da escravidão, o iorubá tornou-se base de cânticos do candomblé e da umbanda. Quase todos os alunos do idioma são adeptos dessas religiões, conta Abbé. “A demanda é maior do que eu imaginava. Tenho turmas com 15 pessoas”, diz.

Com as aulas e as roupas, Abbé diz que espera motivar outros imigrantes a empreender, além de expor aspectos positivos da África aos brasileiros. “A África não é só guerra. A gente tem coisas maravilhosas para mostrar.”

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