quarta-feira, maio 25, 2022

Eu, professora

Após uma vida escolar bastante conturbada, em que até pela Educação de Jovens e Adultos eu passei, escolhi ser professora de História. Eu adorava ler e escrever e ensinar não era uma ideia absurda para mim. Eu acreditava que lecionando poderia ajudar outras pessoas da mesma forma que fui ajudada. Minha relação com os professores sempre foi de muita admiração, e quando penso nos que me serviram de inspiração, a maioria dos rostos que me recordo são daqueles que sujavam suas mãos com giz.

Por Vitória Fox, do Imprensa Feminista

Durante o tempo em que estive na graduação pude aproveitar bastante. Fui descobrindo novas áreas do saber histórico, me apaixonei por História da Igreja e por História do Brasil República. Foi lá também que tive meu primeiro contato com o Feminismo e escolhi a área de Estudos de Gênero para seguir profissionalmente. Contudo, também fui descobrindo que ser professora no Brasil era mais difícil do que eu imaginava. Eu via minhas colegas reclamando do ambiente educacional, dos baixos salários, do descaso do Estado e das famílias dos estudantes. Tive amiga que chegou a dar aula em colégio particular para ganhar um salário de R$850,00! Durante esse tempo vi que se eu quisesse viver dignamente fazendo o que gosto só havia uma saída: a Universidade. E então investi meu tempo me preparando para entrar no Mestrado. Hoje, quando vejo o que aconteceu no Paraná, concluo que fiz a coisa certa. Poderia ser eu levando mordida de Pit Bull, bala de borracha na barriga e ainda ser alvo do ódio vingativo das classes altas do país, que iriam comemorar a minha desgraça. Desde o início desse novo mandato, o (des)governo de Beto Richa (PSDB) tem dado provas de sua irresponsabilidade, propondo mexer até mesmo no fundo previdenciário do estado para tapar buracos, prejudicando assim os servidores públicos. A péssima gestão não afetou somente a educação básica, mas também as Universidades Estaduais do Paraná, que já ameaçaram fechar as portas.

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Desisti de ser professor do Estado

Já escrevi aqui sobre a feminização do magistério e como o fato de a categoria contar com os piores salários não é nenhuma coincidência. Pelas fotos do protesto de ontem é possível identificar o grande número de mulheres presente. Discutir o salário, as condições de trabalho e o reconhecimento da profissão também deve passar pelo recorte de gênero, uma vez que o magistério é uma profissão tradicionalmente feminina. Por diversas vezes já ouvi que ser professora é um sacerdócio, como se devêssemos aceitar todas as condições hostis para ensinar a juventude. Nossa função é confundida com as responsabilidades da família e sobre as nossas costas são colocadas demandas que vão muito além de ensinar um conteúdo previamente apontado em um programa. Até hoje muitos pais pensam que é nossa responsabilidade ensinar boas maneiras, ética e as formas certas de se tratar o coleguinha. Isso nada mais é do que a cultura machista se manifestando, comparando o nosso ofício com a maternidade.

A violência da polícia do estado é um exemplo perfeito para ilustrar a forma como a nossa categoria é tratada. Em outros momentos e lugares, tivemos que engolir declaraçõescomo a do ex-ministro da Educação, Cid Gomes, que disse que “Quem quer dar aula faz isso por gosto, e não pelo salário. Se quer ganhar melhor, pede demissão e vai para o ensino privado”, quando era governador do Ceará. Ou então do Geraldo Alckmin, eterno governador de São Paulo, que indicou amor, fé e acupuntura para erradicar o alto índice de depressão no professorado.

A desvalorização da profissão atua na vida material de forma preocupante. O número de profissionais formados está diminuindo – em 2013 esse número diminuiu em 10% segundo o Ministério da Educação. O desmantelamento dos cursos de licenciatura já pode ser testemunhado. O próprio curso em que me formei está acabando. Também notei uma queda na qualidade das licenciaturas, mas digo isso com base nas minhas observações. Se o cenário continuar o mesmo, dentro de alguns anos não existirão mais pessoas para ensinar as futuras gerações. Talvez só assim para a nossa profissão ser valorizada.

Nossa categoria é majoritariamente feminina, portanto lutar pelo nosso reconhecimento é também lutar contra o machismo que nos sujeita às péssimas condições de trabalho, salários ridículos e a naturalização de que nosso ofício é um sacerdócio. Não é sacerdócio não, parça! É um trabalho merecedor de reconhecimento como qualquer outro.

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