Ex-morador de rua, jovem de PE faz vaquinha para cursar medicina no Canadá

Aos 17 anos, Denis José da Silva tem uma história marcada por superar desafios. O primeiro deles foi sobreviver à infância, quando a família vivia nas ruas de Ribeirão (a 88 km do Recife). Denis venceu esse desafio e, no 2º ano do ensino médio, deu um salto largo para o futuro: foi selecionado para estudar medicina na Universidade de Manitoba, no Canadá. Mas para chegar lá ele precisa vencer o desafio que sempre o perseguiu: a falta de dinheiro. Por isso, ele fez uma vaquinha online.

Por Carlos Madeiro, do UOL

Denis vive hoje com cinco familiares em uma pequena casa. Aos 75 anos, o pai é aposentado e recebe salário mínimo (R$ 880 atualmente). A mãe, de 50 anos, recebe Bolsa Família e raras vezes faz bico de faxineira. É com essa renda que a família consegue, hoje, pagar um aluguel. “Mas muitas é preciso pedir para não passar fome”, diz o jovem.

Para chegar ao Canadá, Denis pretende arrecadar R$ 8 mil. O prazo final para dar o “ok” e garantir a vaga é setembro. Na corrida contra o tempo, começou uma campanha na cidade, onde já arrecadou R$ 1.000.

Graças à dica de um amigo, ele criou, no domingo (26) uma vaquinha virtual em um site, na qual pretende contar com colaborações de desconhecidos para angariar mais R$ 6 mil e realizar o sonho. “O dinheiro servirá para pagar as passagens, comida durante a viagem, transporte e, se sobrar, alguma roupa de frio. Ainda tenho algumas que comprei quando tava no Canadá e que ganhei de presente das pessoas que ficaram comigo lá. Também recebi doações de roupa aqui”, disse.

Começo do sonho

O sonho de estudar fora do país começou a ser realizado no ano passado, quando foi selecionado no programa de intercâmbio Ganhe o Mundo, do governo de Pernambuco. Ele foi o único da escola e passou cinco meses (entre setembro de 2015 e início de fevereiro de 2016) na cidade de Killarney, no Canadá, para estudar inglês. As despesas foram custeadas pela Secretaria de Educação do Estado. Foi no país que ele se candidatou a uma vaga na universidade.

“Em janeiro, teve uma feira de universidades na escola. Os estudantes podiam se inscrever em duas, e eu me inscrevi na Brandon University e na Manitoba University. Entrei no site e apliquei o teste online. Daí eles me mandaram um e-mail pedindo boletim, carta de recomendação, etc. Eu passei tudo e, logo depois, eles me mandaram o e-mail de aprovação”, conta o jovem.

O e-mail com a notícia da aprovação chegou dia 15 de junho. Além do curso, ele terá direito a dormitório e alimentação no refeitório da instituição. Para se manter lá, porém, ele pretende trabalhar. “Minha host grandmother [que é a tutora do estudante durante o intercâmbio] é dona de um hotel e um restaurante próximos à universidade. Já falei com ela e posso trabalhar aos fins de semana, basta conseguir um visto de estudo/trabalho”, explicou.

Vocação e ajuda

A escolha do curso de medicina veio como um casamento do útil ao agradável, ou melhor, do seu desejo pessoal com a chance de melhorar a vida da sua família. “Sempre fui apaixonado pela medicina, não consigo pensar em outra profissão que me faria mais feliz. Mas dizer que é só por vocação seria mentira. Também penso em dar uma vida melhor para minha família. Não penso muito em mim, penso neles. Não gosto de ver eles sofrendo nessa situação miserável”, contou.

Denis tem 11 irmãos, sendo três somente por parte de pai e oito filhos dos pais. Ele mora numa casa de apenas um quarto com três dos irmãos. Sem um quarto para ele, dorme no sofá. Dois de seus irmãos dormem em colchões no chão. O único que tem direito a cama é o irmão mais novo, de 7 anos, que divide a cama com os pais.

“A gente já viveu debaixo de ponte, em quadras abandonadas. Hoje vivemos de aluguel, mas a situação da casa, dos móveis, não é boa, mas é melhor que a rua”, lembra.

Denis está cursando o terceiro ano do ensino médio na escola pública Padre Américo Novais. Sempre com boas notas, ele se destaca em biologia. Mas para poder cursar medicina no Canadá, a partir do final de setembro, ele terá de se esforçar ainda mais e tirar notas excelentes em todas as disciplinas — já que terá de ter a média seis para ser aprovado antecipadamente.

“Se eu tirar 10 no primeiro bimestre, 10 no segundo e 8 no terceiro, fico com média final 7 e passo de ano. Isso em cada matéria. Daí eu não precisaria fazer o 4º bimestre”, explica, citando que já tem um acerto com a escola para a saída mais cedo do ano letivo.

+ sobre o tema

MEC abre edital para inscrição de tecnologias educacionais para zona rural

O  Ministério da Educação recebe, até 12 de março, inscrições...

Índios entregam Projeto de Lei que cria carreira de professor indígena

Etnias querem estruturação do magistério nas aldeias DO Portal do Meio...

PLANO DE EDUCAÇÃO DA CIDADE DE SÃO PAULO

Por: Suelaine Carneiro         ETAPA 2 - Plenárias por Subprefeituras   Prezadas/os companheiras/os...

SISU: Ainda desconhecida, 2ª edição de seleção via Enem começa amanhã

5 instituições aderiram ao Sisu, das quais 8 novas;...

para lembrar

Em SP, só aluno do 1º ano terá aula de espanhol

O governo de SP anunciou ontem que apenas alunos...

Desmoralizaram os professores

Apenas 2% dos estudantes do ensino médio querem ser...

MEC edita dois livros sobre questões étnico-raciais

O Ministério da Educação, por meio da Secretaria de...

Sobram mais de 7 mil vagas no Sisu, aponta balanço do MEC

O Mistério da Educação (MEC) divulgou nesta quarta-feira um...
spot_imgspot_img

Por que as altas desigualdades persistem?

Com o fim da escravidão, nutria-se a esperança de que a liberdade proporcionaria uma gradual convergência nos indicadores socioeconômicos entre brancos e negros. Porém essa...

Juventude negra, ciência e educação

Mesmo com os avanços já promovidos pela lei 12.711/2012, que nacionalizou o sistema de cotas nas universidades federais, o percentual da população brasileira com 25 anos...

Ser menina na escola: estamos atentos às violências de gênero?

Apesar de toda a luta feminista, leis de proteção às mulheres, divulgação de livros, sites, materiais sobre a valorização do feminino, ainda há muito...
-+=