Exposição na Casa França Brasil conta a história do negro no Rio

Mostra reúne 500 peças, como bronzes do Benin, máscaras e relicários africanos, que fazem parte do acervo particular do presidente do Inepac
Peça da exposição “Cartografia da Africanidade Fluminense”, na Casa França Brasil Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Além de diretor-geral do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o historiador Marcus Monteiro é dono de uma coleção de 30 mil peças que vão de mapas a mobiliário antigo. Na segunda-feira, ele abriu na Casa França Brasil, na Praça Quinze, uma exposição com 500 itens dessas raridades, reunidas há 40 anos, para contar a história do negro no Rio de Janeiro.

A mostra “Cartografia da Africanidade Brasileira: lugares, expressões, saberes e celebrações” apresenta um acervo diverso, como esculturas em Bronze do Benin, relicários de quase um metro e utensílios de cozinha e ferramentas de trabalho, para refazer caminhos percorridos pelos africanos, valorizando sua arte, suas habilidades, especialmente na metalurgia, e sua contribuição à cultura do estado, passando até pela culinária.

O “passeio” preparado por Monteiro incluiu até uma cozinha, toda com peças de época, e não excluiu o sofrimento da escravidão: numa sala isolada, o público terá acesso a instrumentos de suplício, incluindo, como adiantou nesta terça-feira o colunista Ancelmo Gois, o machado que esquartejou Tiradentes e que também foi utilizado contra negros no século XVIII. Para livrar os carrascos dos espíritos dos mortos, ele apresenta marcas místicas, como uma estrela de cinco pontas.

Durante a abertura da exposição, nesta terça, o governador Luiz Fernando Pezão assinou o tombamento pelo estado do Cais do Valongo, já declarado pela Unesco Patrimônio da Humanidade.

— A ideia dessa exposição surgiu em função do reconhecimento do Cais do Valongo como Patrimônio da Humanidade e, por outro lado, do pouco movimento em relação a essa importância do negro na história do Rio de Janeiro. São Paulo tem um grande museu, o Afro Brasil, enquanto o Rio não tem nenhum espaço assim — lamenta o diretor-geral do Inepac, que bancou parte da exposição do próprio bolso.

A primeira parte da mostra trata da África como berço da humanidade. Os visitantes terão acesso a mapas do continente, alguns do século XVI ao XVIII, máscaras, bronzes e relicários africanos chamados de nkisi nkondi, que representam a arte religiosa. Essas peças de proteção, ou esculturas mágicas, vêm do Congo e de Angola e chegam a ter mais de 70 centímetros de altura.

— Esse módulo vai mostrar quanto o africano era refinado na sua arte. A própria arte moderna bebeu nessa fonte. O cubismo e Picasso se inspiraram nas máscaras — explica Monteiro.

O segundo módulo vai falar da expansão ultramarina portuguesa: nesse momento, entram os instrumentos de tortura e também peças de engenho, além de mapas e gravuras, presentes durante toda a mostra. O diretor do Inepac explica que nessa parte são encontradas as razões para a implantação do tráfico de negros, que começaram a ser trazidos ao Brasil para servir de mão de obra ao ciclo da cana. O machado usado na execução de Tiradentes, em 1792, faz parte desse momento da mostra e é o único do tipo existente hoje no país, uma herança de família.

Na terceira parte da exposição, entra o que o historiador chama de “Pequena Grande África”:

— A Pequena África é a região do Valongo. Mas vamos tratar na exposição mais que isso: a mostra abrange a cidade do Rio, a Baixada, o Vale do Paraíba. O público poderá ver gravuras do Debret, do Rugendas e mapas raros. Entre estes, estão um manuscrito aquarelado do Morro do Castelo do século XIX e um mapa da Fazenda de Santa Cruz feito pelo Conrado Jacob Niemeyer, cartógrafo e coronel, tio-avô de Oscar Niemeyer, que foi administrador na primeira metade do século XIX da fazenda, onde havia uma escravatura imensa..

A exposição é fechada com uma parte voltada ao trabalho e produção em madeira, barro e metais.

— Vamos montar um carro de boi, muitas crianças nunca viram isso — comenta o historiador,  acrescentando. — É um grande erro achar que os africanos vinham de uma cultura inferior. Eles dominavam as técnicas de metalurgia, a maioria dos ferreiros no Brasil era de negros. Boa parte dos ourives também. E eles trabalhavam a cerâmica e a madeira muito bem. Quero mostrar essa importância da cultura africana e dessa mão de obra na construção do Brasil.

A mostra vai apenas até 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. A entrada é gratuita.

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