Filho de Elza Soares contesta imagem ‘bobinha’ de Garrincha em livro

Lançado nas últimas semanas, o livro “De pernas para o ar – Minhas memórias com Garrincha” se esforça para desconstruir uma das imagens mais consagradas a respeito do melhor jogador da Copa de 1962. A obra assinada Gerson Suares, filho de Elza Soares, estrela da MPB e grande amor da vida do atacante, retrata um Mané distante da mera figura de um tipo popular e ingênuo.

Gerson conviveu intensamente com o padrasto Garrincha dos nove aos 24 anos, enquanto durou a relação do ídolo com a cantora Elza, e até um pouco além disso. O autor apresenta na obra um retrato do homem Manuel Francisco dos Santos que não é exatamente aquele habitualmente pintado em registros históricos, de uma pessoa ingênua e por vezes desligada da realidade.

“Este desejo de escrever sobre o Garrincha vem há quase 20 anos, pela saudade desse lado, do padrasto, saudades do homem, antes do jogador. Vem também por ler matérias mais equivocadas, que descrevem ele só como um matuto, como um caipira, sempre estigmatizando. Ele era um homem inteligentíssimo, antenado”, diz o enteado de Mané, bacharel em Ciências Físicas, Químicas e Biológicas e antigo dono de um espaço de crônicas no Jornal dos Sports.

“Jamais vi Garrincha lendo, mas também nunca vi cometer nenhuma gafe diante de um microfone. Existe uma genialidade nele. Homens como Einstein ou Thomas Edison transformavam a genialidade em fórmulas de ciência. Beethoven e Villa-Lobos, em música. O Garrincha é o gênio da cinética, do movimento, assim como Fred Astaire ou Ana Botafogo, um artista do corpo. Poucas pessoas observam isso. Para ser um gênio você não precisa fazer contas matemáticas, saber quem é Balzac”, argumenta o autor.

O folclore sobre a personalidade ingênua de Garrincha se construiu através de casos (ou mitos) como a crítica ao formato da Copa (“só tem um torno”) ou como o desabafo após a compra de um rádio no Mundial de 1958 (“ele só fala em sueco”). Também integrou esse quadro o hábito de tratar seus marcadores sempre pela alcunha de “João”, fossem eles do Madureira ou da seleção soviética.

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O ALCOOLISMO E O AMOR POR ELZA

A parte final do livro de Gerson Suares se debruça sobre a batalha de Garrincha contra o alcoolismo, mais uma vez na direção de contestar uma imagem mais comumente difundida sobre o ídolo. Em sua linha, o enteado faz questão de registrar que jamais viu o padrasto em cenas vexatórias clássicas de dependentes da bebida.

“Jamais vi o Garrincha bêbado em casa, cambaleando como alcoólatra compulsivo. Ele nunca deixou de beber. Às vezes cheirava um pouquinho a conhaque, quando bebia com os amigos, mas nada de chegar trôpego em casa. A coisa ficou complicada mesmo quando ele largou a Elza, aí perdeu o norte, porque amava ela realmente. Aí a doença já havia o tomado”, declara Gerson.

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Entre os causos testemunhados no convívio com o mito de Botafogo e seleção brasileira, o autor destaca um episódio de devoção popular. Gerson conta que, durante uma viagem de carro com Garrincha, viu um trem parar, e os passageiros descerem para aclamar o atacante conhecido como “a alegria do povo”.

“Nosso carro foi cercado por uma multidão. Depois o maquinista recuou o trem para ele poder passar. O Mané ficou com os olhos marejados, sabia que era adorado”, relata.

O autor afirma que contou com a aprovação da mãe sobre a obra. Gerson diz que Elza Soares inclusive tem atuado informalmente no processo de divulgação do livro.

“Ela gostou muito, saiu pelo Brasil me ajudando, fazendo lobby. Até porque o livro fala muito pouco dela. Foi graças a ela que ele (Garrincha) viveu até os 49 anos, senão havia morrido antes. Ela está muito orgulhosa, é um livro muito leve”, diz.

RESPOSTA DE UNIVERSITÁRIOS DO SILVIO SANTOS MOTIVOU LIVRO

O autor Gerson Suares conta que o desejo de levar as memórias com Garrincha às páginas de um livro ganhou força no dia em que viu o padrasto citado em um programa de televisão. Segundo o enteado de Mané, os participantes de uma famosa atração de Silvio Santos no SBT se atrapalharam ao responder sobre o ídolo da seleção.

No programa, o candidato submetido a perguntas poderia requisitar a ajuda de uma bancada de estudantes universitários, caso sentisse dúvida diante de uma questão mais espinhosa. No desafio em particular, Silvio Santos perguntou em que cidade Garrincha havia nascido. Quem conhece um pouco da biografia de Mané sabe que a resposta é Pau Grande, hoje um distrito de Magé, no Rio de Janeiro. Mas na ocasião ninguém acertou.

“Um dos universitários ficou com a opção Ubá. Todos os outros escolheram Três Corações [pegadinha com a cidade natal de Pelé]. Pensei na hora que os estudantes no mínimo precisam estudar. Pensei: vou escrever, vou correr atrás. Acredito no que o João Saldanha dizia: ‘por 500 anos ainda vai se falar em Garrincha'”, relata o autor.

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Fonte: UOL

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