quarta-feira, novembro 30, 2022
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FSM: Feministas no Fórum Social Mundial

Lilián Celiberti – Virginia Vargas

 

 

A experiência adquirida desde o primeiro Fórum Social revelou potencialidades para colocar em discussão os principais desafios do mundo, e impulsionou um processo que contribuiu para o enriquecimento das articulações e abriu caminho para a formulação de propostas. Como espaço em construção, o FSM está sujeito a “interpretações e pressões acerca do seu sentido e seu futuro. É um espaço para debate de idéias, propositivo e ao mesmo tempo de mobilização, ação e luta. É um espaço de contestação que manifesta inconformismo. Ali se reúnem os organizados, mas também é um espaço aglutinador de todos os que desejarem fazer parte deste processo, sem precisar identificar-se por organização, filiação ideológica ou partidária. O FSM é um espaço democrático, aglutinador de forças progressistas coletivas e individuais”, como definiu Sérgio Haddad.

“Trata-se de um espaço aonde os protestos juntam-se às esperanças, e o desassossego alia-se à construção de alternativas. No FSM se encontram os integrantes do Movimento dos Sem Terra com os que vivem sem casa para morar, os movimentos indígenas e os afro-descendentes junto com os jovens e economistas, os transexuais e as feministas. No Fórum se encontram os que dão massagens holísticas e os acadêmicos, os que lutam contra os produtos transgênicos e os que são transgênero. Os hindus, muçulmanos, judeus, católicos junto com sindicalistas e pessoas que promovem o esperanto como língua universal”. (Lucy Garrido, 2002) .

Esta diversidade revelará, desde o primeiro momento, que seus alcances não são fáceis de sintetizar, e o que é ainda mais importante: que qualquer pretensão de fazê-lo implica em um risco de empobrecimento e freia seu próprio desenvolvimento. O debate público organizado entre “o Fórum de Davos e o Fórum Social Mundial” expressou, de alguma forma, estas dificuldades.

Para avançar na idéia de processo de confluência, o Comitê Organizador propôs a criação de um Comitê Internacional que “mundialize o Fórum” e as bases para uma Carta de Princípios que estabeleça pautas e fronteiras do espaço a se construir. A “Carta de Princípios” definida no Comitê Internacional do FSM estabelece um marco de pluralidades, diversidades e reconhecimentos como eixo para multiplicar e ampliar o espaço do Fórum. Ao considerar que o FSM não é só um evento, mas também, e principalmente, um processo cujo ganho fundamental é, justamente, ser percebido como processo coletivo de redes, coalizões, campanhas, alianças e movimentos, que coloca no campo social a esperança de construir novas culturas políticas.

Sem caráter decisório, sem maiorias ou minorias, começa a se consolidar um espaço diverso, plural, não governamental, não confessional, descentralizado, mobilizador e sem nenhuma pretensão de representar todas as iniciativas impulsionadas por uma sociedade civil global em formação. “Ninguém estará autorizado a expressar, em qualquer dos encontros, posições que pretendam ser representativas de todos os participantes(…). O Fórum, portanto, não se constitui em uma instância de poder a ser disputado pelos participantes de suas reuniões, nem pretende se constituir na única alternativa de articulação ou ação das entidades e movimentos que nele participam”. A Declaração de Princípios estabelece também um limite para a participação: “Não devem participar do fórum representações partidárias e nem organizações militares”.

Estes princípios constituem um marco fundamental para o desenvolvimento do debate político. Contudo, na medida em que o Fórum cresce como espaço simbólico, a tentação de “capitalizar” _ no sentido mais tradicional do termo _ um tão vasto movimento se expressa principalmente em debates que adquirem uma formulação organizativa, mas que são na realidade o grande debate político do momento atual.

Impacto da globalização nos “sujeitos feministas”

” (Os fundamentos deixam claros…) os esquemas de interpretação que permitem aos indivíduos colocar, perceber, identificar e rotular os acontecimentos na vida cotidiana e num mundo mais amplo. São estes marcos que dão significado a eventos e acontecimentos, dão sentido ao mundo organizando a experiência e orientando as ações individuais e coletivas. Os marcos são as metáforas, representações simbólicas e chaves cognitivas que modelam os comportamentos e ajudam a avaliar os acontecimentos…É claro que estes marcos não são permanentes ou estáveis. Tampouco são fruto do consenso ou únicos” (Jelim, p. 7).

Neste novo contexto, os movimentos se confrontam com tendências ambivalentes. A globalização favorece tendências homogeneizadoras, reestruturando as sociedades e as formas com as quais os indivíduos se relacionam com as mudanças estruturais e subjetivas (Marchand e Sisson, 2001). Produzem-se fragmentações e rearticulações numa nova forma organizativa, o que Castells chamou de “sociedade de redes”, com conexões amplas e cosmopolitas. Este domínio de redes tem uma “…multiplicidade assustadora de combinações de bens tangíveis e intangíveis…que fluem através de uma perspectiva de laços e canais identificáveis que se interconectam aos grupos sociais através de todo o mundo. As interações no domínio das redes abrangem toda classe de organizações…cujas inter-relações criam complexas combinações de redes de redes entrecruzadas, sobrepondo-se umas às outras em constante transformação”. Desta forma, se geram novas conexões, novos canais e novos laços, destruindo os antigos e sofrendo, neste processo, inúmeras mutações e evoluções (Sagasti, p. 21-22).

Neste concerto de conexões e entrecruzamentos, os movimentos sociais vêem modificada a própria existência e se expressam de forma diferente, não como atores unificados e nem só como movimentos de conteúdo plural: expressam-se mais como um “campo de atores” amplo, diverso e em permanente crescimento e transformação (Elizabeth Jellin, 2001). Outras autoras, como Sonia Álvares, reconceitualizam os movimentos sociais (referindo-se aos feminismos) como um campo discursivo, expansivo, heterogêneo, que vai gerando campos de ação de múltiplos centros que se estendem sobre um conjunto distinto de organizações da sociedade civil (Álvarez, em Escobar, p. 6), construindo públicos alternativos que re-significam e confrontam os sentidos políticos culturais dominantes na sociedade.

Neste campo heterogêneo, as formas de resistência variam. Multiplicam-se os pontos de intervenção conectando e coordenando a vontade coletiva de milhares através de intercâmbios eletrônicos. As identidades se tornam “nômades” (Braidotti, em Eschle, 2001 p. 209), porque se mobilizam permanentemente, evitando a fixação em uma só. Salvo nos fundamentalismos, nos quais o medo da exclusão se expressa numa busca permanente de certezas (Melucci, 1999) através do posicionamento de uma única identidade como verdadeira e excludente.

Os feminismos chegam a este processo global também de forma diferente em relação àquela do passado. Ou seja, não partindo de uma identidade única, não de uma hipotética “irmandade feminista global”, que descontextualiza e despolitiza seu presente ao nomear uma forma compartilhada e hegemônica de ser mulher. Nem a uma única forma de se posicionar como feministas. Os marcos simbólicos e discursivos são muito mais amplos e móveis. Nesta realidade, na qual a diversidade e a heterogeneidade são as que primam, talvez não seja tão importante um programa definido e pactuado de transformações políticas, sociais e econômicas, mas sim a explicitação e combinação das agendas a partir de coletivos diversos e de múltiplas autonomias. Qual seria então a forma de unidade coletiva que permite respeitar e incrementar as diferenças? As formas de organização demasiado rígidas e pesadas não respondem à exigência de uma individualidade de perfis abertos. Talvez estejam surgindo novas formas em relação ao coletivo, mais flexíveis, leves e fugazes.

Nesta perspectiva é que podemos analisar as mudanças nas orientações e nas formas de organização das lutas feministas no global. Ainda que as formas de organização dos feminismos como movimento nunca tenham sido demasiado centralizadas e nem hierárquicas, esta tendência começa a se acentuar e a ser um perfil comum dos movimentos sociais por uma globalização alternativa, acentuando mais a falta de estrutura centralizada, para dar lugar a articulações e iniciativas flexíveis que agrupem combinações de redes com múltiplas dinâmicas.

Muitas destas dinâmicas feministas na América Latina começam a se orientar no sentido desta nova realidade. O Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe (o IX num continuum desde 1981) terá como eixo a globalização. Isto é mais do que significativo, na medida em que, neste espaço dos encontros, os feminismos regionais assumem as suas próprias diversidades, avanços, expressam suas descobertas, suas buscas, seus obstáculos e novas subjetividades, ou seja, novos e múltiplos caminhos de reflexão e ação. Ao mesmo tempo, redes globais como DAWN ou AWID, Mulheres vivendo sob leis muçulmanas, vêm convergindo já há algum tempo para esta nova realidade, em articulação também com esta dimensão global que é a região latino-caribenha.

De todas estas novas dinâmicas e espaços, interessa-nos analisar a incidência feminista no Fórum Social Mundial, espaço plural e com propostas para uma globalização alternativa, para onde confluem muitas das novas estratégias e preocupações dos movimentos sociais globalizados, como o feminismo. Trata-se também de um complexo espaço para alianças com outros movimentos cuja orientação visando os feminismos nem sempre é de reconhecimento.

Os feminismos no Fórum Social Mundial

“Outro mundo é possível” é o lema do Fórum Social Mundial. Observando de uma perspectiva feminina a tarefa é muito mais gigantesca do que parece. Sem dúvida, estamos incomodando o pensamento único dominante. Mas, estamos nos incomodando, nós mesmos, com nosso machismo, racismo e outras intolerâncias? A especificidade do FSM é estabelecer o diálogo entre os diversos. Isto dá originalidade e força ao Fórum na construção de uma globalização das cidadanias no planeta Terra. No entanto, o caminho é longo e cheio de obstáculos. Espero que as mulheres nos tornem radicais, atuando como até agora: fazendo cobranças e incomodando”(Cândido Grzybowsky, 2002).

A presença dos feminismos no FSM é um aporte e um desafio. As mudanças nas subjetividades têm surpreendido os feminismos e as suas agendas de transformação, reincorporando a eles as “agendas esquecidas” ou enfraquecidas no longo percurso em direção ao fortalecimento institucional. Agendas que buscam integrar a justiça de gênero com a justiça econômica, recuperando ao mesmo tempo a subversão cultural e a subjetividade como estratégia de transformação de maior alcance.

A esta luta por justiça, os feminismos começam a incorporar a diversidade não só na vida das mulheres, mas também na sua estreita relação com as características multiculturais e pluriétnicas de nossas sociedades, sem abandonar as lutas históricas pela autonomia física, socio-econômica, política e cultural. Estas lutas expressam dois tipos de injustiça: a socio-econômica, enraizada nas estruturas políticas e econômicas da sociedade, e a injustiça cultural ou simbólica, enraizada nos padrões sociais de representação, interpretação e comunicação. Ambas injustiças atingem as mulheres em variadas dimensões como a racial, étnica, sexual, geográfica. Expressas numa desigual distribuição de recursos e na ausência de valorização, se concretizam na luta pela redistribuição e pelo reconhecimento. E ainda que não tenham sido lutas que estivessem sempre interligadas, ambas o estão intrinsecamente, “…porque as normas androcêntricas e sexistas se institucionalizam no estado e na economia, e as desvantagens econômicas das mulheres restringem a “voz” delas, impedindo sua igual participação na criação cultural” ( Fraser, 1997, pp. 33).

Qual seria então a forma de unidade coletiva que permite respeitar e incrementar as diferenças? As formas de organização demasiado rígidas e pesadas não respondem à exigência de uma individualidade de perfis abertos. Talvez estejam surgindo novas formas em relação ao coletivo, mais flexíveis, leves e fugazes.

Os feminismos levam também ao FSM o que tem sido uma prática intrínseca a sua própria existência e desenvolvimento: suas articulações internacionalistas, acumuladas ao longo de trinta anos de existência, na sua segunda onda. Como diz Waterman, não há dúvida de que as pensadoras feministas dos anos 70 e 80 se somam ao movimento de justiça global, tanto pela experiência internacionalista quanto pelo fato de que “muito desta reflexão sobre o novo momento…e comportamento…pode ser identificado desde as práticas feministas internacionais anteriores” (Waterman, 2002, p. 5).

Mas as condições para este internacionalismo têm variado dramaticamente. As lutas pelo reconhecimento foram o eixo articulador deste internacionalismo nas décadas passadas. Não poderia ser de outra forma porque os feminismos deviam sair da invisibilidade e manifestar sua presença e suas propostas. Não se pode perder esta dimensão. Entretanto, são outros os marcos interpretativos para a ação e outros os riscos e oportunidades. Os atores preexistentes e os novos que vão aparecendo têm como desafio se posicionar propositada e articuladamente frente a esta nova realidade, a qual não deixa escolhas: para consolidar o reconhecimento é necessária a redistribuição, e para que esta seja justa e inclusiva é preciso reconhecimento. Como diz Jelin, quem não considerar esta nova realidade “será deixado para trás e perderá o trem da história” .

Nesta tentativa de não ficar fora da História, têm aparecido muitas articulações e iniciativas em torno dos novos desafios trazidos pela justiça econômica e as políticas de reconhecimento, considerando também as novas dinâmicas e formas de existência dos feminismos. Por exemplo, está sendo desenvolvida uma rica reflexão sobre as dinâmicas macroeconômicas, macropolíticas e sobre o próprio processo de globalização, baseada nas mesmas intervenções feministas nestes âmbitos e na interação do global com o local.

Há novas formas de articulação, mais flexíveis e horizontais (Iniciativa Feminista Cartagena e Articulação Feminista Marcosur, para citar duas das mais recentes, que por sua vez agrupam um conjunto de ativas redes e organizações), com maior capacidade de reflexão e de proposta, e que começam a produzir análises mais finas sobre os impactos de gênero destes processos e mega-tendências trazidas pela globalização. Há também outras formas de articulação feminista: globais e inclusivas como a Marcha Mundial de Mulheres, com as quais existe uma interação permanente das demais redes e uma ativa militância de muitas latino-americanas. Além da contribuição de algumas redes históricas, como DAWN, a esta nova realidade. Em todas estas articulações há um conjunto significativo de feministas jovens, diversificando lideranças individuais e coletivas. Estas novas articulações, presentes no FSM, causaram um forte impacto e conseguiram colocar as perspectivas feministas nas agendas centrais do Fórum, com presença feminista nos mais importantes debates (DAWN, 2002).

No entanto, junto com este reforço substancial, há o desafio que este espaço representa para os feminismos. Ao mesmo tempo em que flexibiliza, nos traz as velhas exclusões consigo. Construído a partir de novas perspectivas e sensibilidades, o FSM expressa também os eixos de discriminação e exclusão em relação às mulheres. O FSM representa uma articulação dialética entre o movimento de justiça global e o movimento feminista em particular (Waterman, 2002).

Esta articulação não é fácil, como diz Sonia Correa, porque precisa de uma dupla estratégia: comprometer-se com as lutas coletivas dos movimentos sociais e ao mesmo tempo tentar transformar sua perspectiva em relação ao feminismo, à diferença, ao gênero e aos pensamentos múltiplos (Correa, 2001). Portanto, existem no Fórum processos de articulação e processos de disputa. E isso tem sido claro desde o primeiro e o segundo Fórum: a presença e visibilidade dos feminismos no II Fórum, ainda que não suficiente, foi muito mais visível e marcante que no primeiro, graças à tenacidade da disputa planejada pelos feminismos, assim como ao trabalho incansável dos feminismos brasileiros.

A integração da Articulação Feminista Marcosur ao Comitê Internacional do FSM introduz também uma dinâmica mais concreta de debates, tanto no que diz respeito ao político específico como à dedicação de esforços no sentido da construção do espaço. “Como Articulação Feminista Marcosur, privilegiamos o FSM porque é um espaço político em pelo menos três sentidos que nos são fundamentais: um deles é o de que desejamos que a agenda feminista (subversão simbólico-cultural, os direitos sexuais, a eqüidade…) faça realmente parte da agenda pela justiça econômica e o aprofundamento da democracia; outro é que, para conseguirmos isto, devemos travar batalha no interior mesmo do Fórum, disputando conteúdos e sendo subversivas também nele; e finalmente porque o Fórum é o amplificador de nossos próprios discursos, como foi provado na campanha ‘Tua boca é fundamental contra os fundamentalismos’, que em Porto Alegre foi acompanhada ativamente por outros movimentos e redes de mulheres, por jovens, sindicalistas, etc. E criticada também pelos que diziam que estávamos fazendo o jogo de Bush, que as bocas eram muito eróticas e que, portanto, estávamos usando um símbolo demasiado “light”, ou que materiais dessa qualidade deviam estar sendo financiados pela CIA” (Lucy Garrido, 2002).

Este desafio é lançado também ao movimento feminista, disperso por mil redes e espaços diferentes, com dificuldades para se reconhecer a si próprio, como acontece com todos os movimentos sociais e que precisa também se tornar visível e se reconhecer

O Comitê Internacional também é um cenário da disputa de “interpretações e pressões em torno de seu sentido e de seu futuro”, como assinalou Sérgio Haddad. Para alguns atores, o Fórum Social Mundial é um espaço de confluência da luta antiglobalização, na qual se pode articular uma agenda de mobilizações globais. Para outros, o FSM é um espaço plural para se compartilhar e articular alternativas democráticas e democratizantes. Nós, feministas, estamos aí para participar deste debate? Temos algo específico a acrescentar?

Em algumas discussões organizativas e políticas temos nos expressado contrárias a qualquer iniciativa tendente a criar uma coligação internacional que atua em nome de um amplo e genérico movimento global, algo assim como uma “Internacional com novo signo”. Por trás desta posição há uma acumulação de experiências políticas feministas e uma postura teórica que atribui a um espaço desta natureza a oportunidade para o desenvolvimento de novas culturas políticas que só poderão ser construídas no diálogo entre os diferentes movimentos. Como diz Cândido Grzybowski: “Estamos diante da necessidade de radicalizar a perspectiva dos direitos humanos de todos os humanos como prioridade fundamental para dar conta de uma nova consciência da humanidade. Romper com o divórcio entre economia e sociedade, entre economia e natureza, entre natureza e sociedade são tarefas centrais para a construção de uma agenda global promotora de uma cidadania planetária (…). A especificidade do Fórum Social Mundial reside exatamente na capacidade de construir um espaço de encontro, diálogo e intercâmbio entre redes, movimentos, baseado no respeito e fortalecimento da sua própria diversidade e autonomia”

Este desafio é lançado também ao movimento feminista, disperso por mil redes e espaços diferentes, com dificuldades para se reconhecer a si próprio, como acontece com todos os movimentos sociais e que precisa também se tornar visível e se reconhecer. Em algumas das oficinas onde foram abordados os novos desafios feministas, se destacaram as dificuldades e problemas que ainda persistem nos espaços de articulação entre diferentes movimentos. “As feministas sempre trataram de influenciar na agenda dos movimentos sociais e políticos progressistas para mudar a perspectiva destes movimentos. Contudo, sabemos que resta ainda um longo percurso para que a inclusão da perspectiva feminista seja uma realidade”. “Não queremos que o FSM se torne um assunto dominado pelos homens: é necessária a liderança feminista e a construção de alianças”. Ana Irma Rivera, na mesma oficina, assinala que “As mulheres, em termos gerais, não somos vozes presentes nos temas econômicos e nem de finanças. Entendo que estes temas se identificam como masculinos, não só em termos das vozes mas também dos conteúdos. Ou seja, que o problema das ausências femininas não se resolverá só com a chegada de mais mulheres à discussão dos temas econômicos e de finanças, mas também se faz necessário que estes temas sejam vistos na perspectiva de gênero”.

Para Sylvia Borren, o tema central se situa na necessidade de pensar alternativas globais e potencializar lideranças feministas. “Acho que chegou a hora de muitas de nós (além das que atualmente já o fazemos) tomarmos uma séria responsabilidade para dar forma a nosso mundo nos níveis micro, médio e macro. Em outras palavras, dar um passo a mais no feminismo, no movimento feminista e na liderança feminista; chegou a hora de nos preocuparmos não só pela forma de vida das mulheres, mas também pela qualidade de vida dos homens, mulheres e crianças num sentido mais geral; de nos preocuparmos em achar soluções para as tensões e conflitos no mundo, de assumir a liderança em organizações, de buscar formas de fazer que nossas vidas e nosso mundo sejam mais inclusivos e diversos”.

Um espaço global dos movimentos sociais: desafios e tensões

Para cada pessoa que participou do Fórum, a criatividade, o respeito e a diversidade constituem o patrimônio mais elevado da experiência subjetiva vivida durante esses cinco dias nessa espécie de torre de Babel de línguas, cores, imagens, gestos e símbolos. Por trás destas múltiplas experiências se abre um debate substantivo acerca das estratégias e objetivos do próprio Fórum.

No FSM não existe uma estrutura centralizada. “Pelo contrário, Porto Alegre é uma coligação muito flexível de movimentos transnacionais, nacionais e locais, com múltiplas prioridades unidas em sua oposição à ordem neoliberal. E estes movimentos, em sua maioria, não estão buscando o poder do Estado e, se o estiverem buscando, o fazem partindo de que esta é só uma tática entre outras, mas não a mais importante. Temos dito o suficiente sobre as fortalezas de Porto Alegre. É o momento de destacar as suas fraquezas. As fortalezas do FSM são as suas próprias debilidades. A falta de centralização pode tornar difícil coordenar táticas para as batalhas mais duras que temos pela frente. E teremos que ver também o quanto é grande a tolerância para com todos os interesses que se representam, a tolerância para as prioridades de uns e de outros” (Wallerstein, 2002).

Construir a tolerância e o respeito dos diferentes interesses presentes no FSM é uma das principais estratégias para avançar na formulação de alternativas e é, talvez, o verdadeiramente novo que propõe um espaço como o FSM. Nenhuma centralização organizativa e nenhuma agenda de mobilizações poderá encurtar os caminhos que se devem trilhar para garantir o diálogo entre as diversas prioridades dos movimentos. As fortalezas e fraquezas que se expressam nesta iniciativa e as diferenças explícitas e implícitas que são expressas pelas diferentes correntes de pensamento fazem parte do debate de fundo que o Fórum propõe enquanto espaço de confluência.

Do nosso ponto de vista, o problema central da articulação dos movimentos sociais não é organizativo, mas sim político e conceitual. E o desafio, como defende Boaventura de Souza Santos, “está na capacidade de formular problemas novos para os quais não existe solução, ou ainda não existe solução” (2001, 36).

Construir a tolerância e o respeito dos diferentes interesses presentes no FSM é uma das principais estratégias para avançar na formulação de alternativas e é, talvez, o verdadeiramente novo que propõe um espaço como o FSM.

Pensar “outro mundo possível”

Um desafio que motiva os espaços de articulação é, em primeiro lugar, o reconhecimento de cada um ou cada uma como ator/atriz legítimo/a desta busca. Seria ilusório pensar que este reconhecimento seja um ato imediato e “natural” de nossas “aspirações humanistas”. O reconhecimento do outro/a como ator/atriz da construção de um espaço democrático não está fora das relações hierárquicas de poder construídas socialmente, nem da tensão inerente à definição do “nós – outros”.

A política, diz Chantal Mouffe, “tem que ver com a ação pública e a formação de identidades coletivas. O objetivo desta é a criação de um ‘nós’ num contexto de diversidade e conflito. Mas, para construir um ‘nós’ é necessário diferenciar de um ‘eles’. Por isso, a questão crucial de uma política democrática não é saber como chegar a um consenso sem exclusões ou como criar um ‘nós’ que não tivesse um ‘eles’ como correlato, mas sim como estabelecer esta discriminação nós/eles de uma maneira que seja compatível com a democracia pluralista”.

Neste sentido, “salvaguardar o direito à palavra’ e o da “liberdade dos indivíduos e dos grupos para estabelecer o sentido do que são e do que querem ser” (Melucci, 2001, 57) é a contribuição substancial deste esforço por construir um cenário de atores e atrizes que disputam o significado, as prioridades e os fins da vida em comum.

Em segundo lugar, um espaço de confluência que habilite a tolerância e o desenvolvimento de novas culturas políticas depende também da oportunidade para colocar no debate os esquemas de interpretação e significados que os diferentes atores e atrizes dão às suas utopias e propostas.

O esquema de trabalho e a metodologia de debate proposta para a segunda convocatória do FSM pretendia avançar na aproximação de marcos referenciais entre os diferentes movimentos: uma rede que formularia uma proposta e seria esta a matéria de debate entre os diferentes movimentos. As/os animadoras/es dos painéis deviam promover este debate antes do Fórum, para enriquecer as propostas, detectar as diferenças e carências, resgatar outras perspectivas e enfoques. Esta metodologia teve, no entanto, pobres resultados, precisamente porque gerar uma cultura do debate é uma tarefa de longo alcance, que começa pelo reconhecimento, dos outros e outras como legítimos interlocutores de propostas capazes de questionar ou interpelar as posições de outros. Parece que ainda nos interessa mais “mostrar” ou visibilizar as iniciativas ou propostas de cada uma das redes ou grupos do que abrir efetivamente o debate em torno delas.

Por outro lado, cada painel devia contemplar um equilíbrio, seja entre homens e mulheres, como também entre as diferentes regiões do mundo. Na prática, houve painéis mais “femininos” e mais “masculinos”, e isto também parecia estabelecer hierarquias temáticas. Enquanto o painel dedicado ao “Combate à Discriminação” esteve integrado de forma majoritária por mulheres, o de “Democracia Participativa” não contou com nenhuma. Este exemplo, aparentemente menor, denota que o caminho do reconhecimento das atrizes e atores não deixa de ser um espaço de luta aberto a desafios e tensões cuja construção não depende só das declaradas boas intenções.

A perspectiva de construção de novas identidades políticas democráticas pressupõe o reconhecimento de uma “corrente de equivalência de demandas democráticas”, no dizer de Mouffe (1993, 102).

As propostas emancipatórias impulsionadas pelos diferentes atores sociais se desenvolvem no interior de relações de poder e suas articulações não se dão automaticamente. É possível anunciá-las como um horizonte político democrático, mas construí-las na prática supõe mobilizar conceitualmente as hierarquias de interpretação dos problemas a resolver: economia, política, poder mundial, versus subjetividade, diversidade, discriminação, direitos. Ao abordar os diferentes problemas, parece difícil articular estas perspectivas sem estabelecer uma hierarquia entre os temas. É por isso que muitos intelectuais e políticos homens ainda prescindem da teoria de gênero sem integrar-lá às suas perspectivas de análise.

A partir do feminismo vem sendo acumuladas, nas últimas décadas, importantes contribuições teóricas e esforços intelectuais dirigidos ao estudo dos mecanismos de funcionamento das economias nacional e mundial. Neste sentido, Rosalba Todaro e Regina Rodríguez afirmam que estas iniciativas estão permitindo elaborar novas perspectivas de análise. “Não se trata só de incorporar às mulheres como um ‘tema’ a mais para investigar, mas sim de enriquecer os marcos teóricos e conceituais para conseguir um reconhecimento mais amplo e adequado sobre o funcionamento da economia” (Todaro, Rodríguez, 2001).

No FSM tem se avançado ainda muito pouco na premissa de pensar os problemas globais da humanidade a partir de uma nova perspectiva emancipadora que integre e articule o público e o privado, as subjetividades e poderes, classe, raça, gênero, opção sexual, para formular novas identidades políticas democratizadoras. Intervir neste debate é um desafio político para as diferentes correntes feministas, a partir do ponto de vista teórico e também da prática política cotidiana.

Para Virgínia Vargas, “as mudanças nas subjetividades têm influído também nos feminismos e nas agendas de transformação destes, reincorporando-lhes as ‘agendas esquecidas’ ou enfraquecidas ao longo do caminho para o fortalecimento institucional. Agendas que buscam integrar a justiça de gênero com a justiça econômica, recuperando ao mesmo tempo a subversão cultural e a subjetividade como estratégia de transformação de mais longo alcance. A esta luta pela justiça, os feminismos começam a incorporar a diversidade não só na vida das mulheres, mas também no estreito relacionamento com as características multiculturais e pluriétnicas regionais que se expressam também em nível global . Estas lutas expressam dois tipos de injustiça: a injustiça sócio-econômica, enraizada nas estruturas políticas e econômicas da sociedade e a injustiça cultural ou simbólica com raízes nos padrões sociais de representação, interpretação e comunicação. Ambas afetam as mulheres em variadas dimensões, como a racial, a étnica, sexual, geográfica. Expressas na desigual distribuição de recursos e na ausência de valorização concretizam-se nas lutas por redistribuição e reconhecimento.”

No FSM tem se avançado ainda muito pouco na premissa de pensar os problemas globais da humanidade a partir de uma nova perspectiva emancipadora que integre e articule o público e o privado, as subjetividades e poderes, classe, raça, gênero, opção sexual, para formular novas identidades políticas democratizadoras. Intervir neste debate é um desafio político para as diferentes correntes feministas, a partir do ponto de vista teórico e também da prática política cotidiana.

Por último, um aspecto central traçado pela existência mesma do FSM é a ampliação do conceito de política, o político e o poder. Ao se constituir como um espaço de encontro e ação dos movimentos sociais para pensar os problemas e desafios da organização atual do mundo, se assume um protagonismo político que amplia o cenário dos que estão convocados e convocadas para tomar a palavra neste debate e propor os assuntos que motivam a busca da felicidade. Quais as novas pontes entre a sociedade e as organizações, as demandas e problemas, diversidade e reconhecimento demarcam este espaço para os setores políticos progressistas? Como abrir e conduzir debates entre os movimentos e os partidos sem cooptações ou exclusões? Será possível encurtar a distância entre as cidadanias diversas e plurais e os espaços de representação política? Que processos são necessários para a democratização dos partidos?

Para as diferentes correntes feministas estes desafios adquirem por sua vez uma dimensão específica, tanto no plano organizativo como no plano político. Sem dúvida o movimento feminista está constituído por diversas tendências, tanto nos espaços organizativos como em interesses temáticos e políticos. Parece necessário um maior grau de articulação entre as diferentes orientações para não seguirem presas, segundo as palavras de Marta Lamas, “a rivalidades absurdas, pois a lógica da identidade confronta companheiras com múltiplas coincidências políticas só porque pertencem a redes ou instâncias distintas. Estes tropeços são conseqüências da ‘política de identidade’ que age no sentido de que os grupos alimentem inquietações políticas e vitais sem a necessária separação entre fazer e ser (Bondi), e produzam divagações discursivas, falsas oposições e confrontos personalizados…”.

Para Sylvia Borren, “Necessitamos reconhecer dilemas, contradições, julgamentos difíceis e aprender a negociar entre nós mesmas, aprender a construir alianças onde nossos interesses coincidam, a buscar oportunidades de ganhos reais, a aceitar que podemos ficar de acordo para trabalharmos conjuntamente em planos e metas específicos, sem concordar totalmente em todas as coisas”.

As alianças entre diferentes tendências e agendas feministas poderiam articular-se em torno de como transformar o debate global sobre as alternativas num debate de “equivalências de demandas” e as múltiplas estratégias a implementar para enfrentar três desafios básicos: como evitar o dilema pelo qual as “urgências da crise”, particularmente a financeira, parece colocar num lugar secundário as considerações de gênero e sua estreita relação com a economia? Como fazer da cultura de direitos um campo de práxis política? Como introduzir nos debates atuais a dimensão corporal e sexual da diferença?

As agendas feministas convocam para o desenvolvimento de novos paradigmas, combinando o local, o nacional e o global, a interconexão de múltiplas agendas e a oportunidade de colocar no debate uma dimensão mais profunda da justiça que integre as justiças econômica, social, cultural e simbólica. Mas que também coloque no debate as formas de fazer política dos próprios movimentos sociais presentes no Fórum.

Estas interações múltiplas entre os movimentos sociais poderiam implicar em algo mais que alianças pontuais ou ações de denúncia, com efeitos significativos nas concepções de autonomia dos movimentos. Parece que neste posicionamento em construção começa a se assentar a percepção de que os assuntos das mulheres devem ser colocados como assuntos políticos democráticos de primeira ordem, que importam a mulheres e homens, e que os assuntos das democracias nos níveis cultural, social, econômico e político devem ser assuntos de competência feminista e integrantes das suas agendas nos planos nacional e global .

A esperança, alentada por estas buscas, está de alguma forma respaldada pela presença ativa dos atores e atrizes sociais que, sem que ninguém os possa autorizar ou censurar, decidem participar a partir de seus sonhos, identidades e propostas.

Fonte: Universidade Livre Feminista

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