Futebol vira símbolo da disputa entre liberais e conservadores nos EUA

EUA e Brasil se enfrentam em amistoso em Nova Jersey.
Oposição diz que esporte representa ‘guinada socialista’ do governo Obama.

“Se nós ligássemos para futebol, estaríamos indignados.” A frase em tom de piada foi dita no programa noturno do humorista Jimmy Kimmel na TV dos Estados Unidos, e era uma resposta à polêmica de um gol anulado no segundo jogo do da seleção do país na Copa do Mundo de 2010. Por mais engraçado que possa parecer, e por mais que a ideia geral seja de que os americanos não ligam para o futebol jogado com os pés, a participação do time na Copa, e o amistoso desta terça-feira (10) contra o Brasil, mostram uma situação bem diferente. O futebol atrai cada vez mais atenção nos Estados Unidos e, mais de que mero esporte, se tornou um símbolo político-cultural da disputa entre democratas e republicanos, liberais e conservadores, pelo poder no país.

Os americanos não odeiam futebol, dizia um texto do jornalista Hendrik Hertzberg publicado na prestigiosa revista “New Yorker” na semana em que a Copa chegou ao fim. Isso pode ser explicado pelo fato de que 20 milhões de pessoas no país assistiram pela TV à eliminação da seleção dos Estados Unidos, derrotada por Gana. A audiência foi a maior que um jogo de futebol já teve na televisão do país e bateu a quantidade de gente que assistiu ao World Series (o campeonato de beisebol), ao Kentucky Derby (mais tradicional corrida de cavalos do país), à rodada final do torneio Masters de golfe e à prova de Daytona 500, da Nascar. O futebol já é mais popular que alguns dos esportes que são mais comumente associados aos Estados Unidos.

O auge da atenção dada ao esporte foi também o auge dos ataques ao que ele simboliza. A Copa do Mundo foi o momento mais explorado pelos comentaristas de direita para atacar o esporte, visto como um símbolo do “socialismo” europeu, em oposição ao “capitalismo democrático” dos Estados Unidos, visto por eles no futebol americano.

“Eu odeio tanto, provavelmente porque o resto do mundo gosta tanto dele”, proclamava Glenn Beck, um dos nomes mais radicais da direita americana, em seu programa na rede de TV Fox News. Em contrapartida,a presença do ex-presidente Bill Clinton em jogos da seleção americana na Copa era apontada como uma demonstração do apoio ideológico que os liberais davam ao crescimento do esporte nos Estados Unidos.

Analistas mais conservadores do país escolheram o futebol como representação do que eles odeiam na política dos Estados Unidos – Um esporte não-americano e que simboliza o que vêem como coletivismo, quase socialismo. “Americanos preferem esportes criados em seu país. Gostam de basquete, preferem beisebol a cricket e transformaram o rugby em inglês em futebol americano”, explicou ao G1 o autor do livro “Soccer in a world of Football”, David Wangerin, que estudou a cultura do esporte nos Estados Unidos e no mundo.

O título do livro é uma referência ao nome do esporte nos Estados Unidos, “soccer”, em contraposição ao “football” usado no resto do mundo. Jamie Trecker, chefe da equipe que cobre futebol na rede de TV a cabo americana Fox Sports, explica que o termo, “ao contrário do que as pessoas pensam, não foi inventado nos Estados Unidos ‘Soccer’ foi um termo inventado na mesma época em que o próprio termo football, no Reino Unido, e era usado para distinguir o esporte do rugby, ou chamado de ‘rugger’ por algumas pessoas.” Trecker diz que soccer é o termo preferido nos EUA e na Ásia, e que, naturalmente, isso ocorre para distinguir esse esporte do futebol americano.

Coletivismo
Os americanos em geral rejeitam e têm dificuldade em acompanhar esportes excessivamente coletivos, como o futebol. “Gostamos dos esportes com superestrelas”, explicou ao G1 Steven D. Stark, advogado e consultor jurídico que foi analista de política e cultura da CNN e escreveu o livro “World Cup 2010: The Indispensable Guide to Soccer and Geopolitics” (Copa do Mundo 2010: O guia indispensável para futebol e geopolítica. “Não há ‘quarterbacks’ [principal posição do futebol americano] no futebol. O jogo é estranho para eles, por ser muito coletivo, precisando de uma unidade dos 11 jogadores para fazer alguma coisa. Aqui nos Estados Unidos dá-se muita importância ao individualismo à ideia do jogador mais valioso em cada esporte, como LeBron James e Kobe Bryant disputam no basquete. Americanos gostam de ‘gigantes’ e o futebol, por mais que tenha grandes nomes, não tem jogadores capazes de resolver tudo sozinhos”, disse.

A crítica fazia eco com os ataques dos conservadores às políticas do governo do democrata Barack Obama. Eleito em 2008, ele costuma ser atacado pelos analistas mais radicais do Partido Republicano e frequentemente é chamado de “socialista”. O ataque ao futebol é quase como um ataque ao governo Obama. “Talvez na era do presidente Obama, o futebol finalmente se torne popular nos Estados unidos. Mas eu suspeito que sociabilizar o gosto americano por esportes vai ser mais difícil de que sociabilizar o sistema de saúde do país”, escreveu um colunista do “Washington Post”.

“A ‘soccerphobia’ [medo de futebol] da direita é tribalismo fantasiado de nacionalismo”, diz Hertzberg, que pede um cartão amarelo e até um vermelho para o radicalismo. “O futebol pode nunca ser o ‘esporte americano’, mas os Estados Unidos estão abertos para o futebol.”

Atenção e mercado
A revista “New Yorker” diz que o futebol já é o esporte coletivo mais praticado de forma organizada em ligas infantis pelo país, e cerca de cinco milhões de adultos americanos dizem jogar futebol regularmente. Isso, diz, faz com que o futebol esteja se tornando um esporte tão norte-americano quanto a pizza italiana ou as batatas fritas belgas (mesmo que chamadas de francesas) são comidas americanas.

O problema para o crescimento do esporte está na dificuldade que a mídia americana tem em “mercantilizar” o futebol. “O fluxo contínuo, quase ininterrupto, de ação nega a ele um suprimento estável de intervalos para a propaganda de cervejas e a busca por elas no refrigerador”, diz a revista.

“Temos uma relação diferente com esportes de forma geral”, explicou Trecker. “Somos espectadores. Vamos a um jogo buscando entretenimento, não antagonismo. Nossa relação com esportes sempre foi de entretenimento. Nunca houve antagonismo violento e raramente as pessoas se identificam tribalmente com times. Além disso, ir a um jogo custa dinheiro, e as pessoas criam a expectativa de terem entretenimento a todo instante, sem parar. Isso criou um evento que não tem nada a ver com esportes e que distrai do jogo em si. Os organizadores oferecem um pacote completo de entretenimento, com música, show, festa do começo ao fim, e o que outros torcedores do mundo em geral achariam estranho é completamente normal aqui. É algo que dificulta a entrada do futebol, que não se encaixa neste perfil, e que ao mesmo tempo faz com que o estilo americano de ter esportes seja único.”

Fonte: G1

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