Geledés lança livro sobre comunicação antirracista e reafirma sua atuação com a juventude negra 

30/04/26
Por Beatriz de Oliveira
O lançamento do livro “Práticas Multimídias para uma Comunicação Antirracista” fez parte da programação de celebração de 38 anos da organização

Nesta terça-feira (28), em evento realizado no Sesc Avenida Paulista, Geledés – Instituto da Mulher Negra lançou o livro “Práticas Multimídias para uma Comunicação Antirracista”. A obra reúne métodos, reflexões e ensinamentos que amparam a criação de conteúdos e produtos de comunicação baseados em recortes de gênero e raça. 

A publicação é fruto dos conhecimentos disseminados no Curso de Multimídia, formação promovida pela área de Comunicação Institucional de Geledés entre os anos de 2022 e 2023. As aulas combinaram teoria e prática com o objetivo de formar jovens negros e negras da cidade de São Paulo para se inserirem no mercado de trabalho a partir da comunicação antirracista. 

Organizado por Natália Carneiro e Isabela Gaidis, com publicação da Oralituras Editora, o livro sistematiza os ensinamentos obtidos durante a formação e abrange diferentes eixos da comunicação. Na abertura do evento, Natália Carneiro, coordenadora de Comunicação Institucional de Geledés, pontuou que o lançamento da obra marca um momento de celebração e fechamento do Curso de Multimídia, um exitoso projeto. Compartilhou ainda que a obra e o curso rompem com a ideia de que não existem profissionais negros qualificados para atuar na área da multimídia. 

“Fomos procurar esses profissionais negros para fazer o Curso de Multimídia e não tivemos dificuldade em encontrar profissionais qualificados, premiados ereconhecidos. Profissionais da cidade de São Paulo e fora dela, com uma diversidade de gênero e com todas as paletas de cores da nossa negritude”, disse. 

Sueli Carneiro, coordenadora de Memória e Reparação de Geledés, também fez uma fala no início do evento. “O lançamento dessa publicação é um momento de muita emoção para nós. Vejo esse projeto como continuidade das nossas experiências em trabalhar com a juventude. Realizamos durante anos o Projeto Rappers, que foi exemplar no sentido de trazer a juventude negra para dentro da nossa instituição. Esse projeto, que hoje a Natália Carneiro encabeça, vem na esteira dessa tradição, mas atualizando esse legado, dialogando com as novas linguagens”, pontuou. 

Também presente no encontro, Maria Sylvia, coordenadora de Gênero, Raça e Equidade, afirmou: “o lançamento dessa obra sobre comunicação antirracista configura-se num marco muito simbólico desses 38 anos de atuação de Geledés. É mais do que um ato pedagógico e simbólico, é um ato político inserido no campo das disputas por narrativas e pela democratização da comunicação”. 

A noite foi marcada por mesas de conversa com orientadores, jovens e integrantes da organização, além da distribuição gratuita da obra, que soma 591 páginas. 

A abertura do lançamento foi seguida por uma momento de visibilidade para o desaparecimento de Helber Alves, um dos alunos do curso. Aos 26 anos, o jovem desapareceu na noite de 23 de dezembro, após sair da casa da irmã Kelly Alves, no bairro Engenho Novo, em Barueri, na Grande São Paulo. Naquele dia, ele vestia bermuda clara, camiseta branca e tênis Air Force. Caso tenha informações sobre ele, ligue para o Disque Denúncia 181.

Fotos: Cacau Brandão

Juventude de Geledés

A primeira mesa, intitulada “Juventude de Geledés”, foi mediada por Natália Carneiro e contou com a participação de Arielly Tombô, educadora e pesquisadora; Caio Vinícius, criativo digital; Lucas Santos, diretor criativo, roteirista, fotógrafo e videomaker; e Grazielle Salgado, fotógrafa, documentarista e realizadora audiovisual. 

Durante a conversa, os jovens relataram suas experiências no Curso de Multimídia e como a realização do curso contribuiu para suas trajetórias. Além disso, compartilharam como as vivências em Geledés amplificaram sonhos e a  autoconfiança dos participantes. 

Lucas, por exemplo, destacou o acolhimento recebido na organização, que disponibilizava café da manhã, almoço e café da tarde durante os sábados de formação. “Isso já quebrou uma miséria que eu tinha dentro de mim de me contentar com pouco. Participar do curso me fez sonhar com muitas coisas”, disse. 

Já Grazielle considera que seu contato com o instituto foi um divisor de águas em sua carreira profissional. “Estar em Geledés foi nutritivo, vi mulheres negras em espaços de autoridade. Foi ali que me descobri fazendo fotografia de eventos e fiquei mais maravilhada ainda pela preta. Meus olhos brilham e têm sede de registrar pele preta. Eu amo ver pessoas negras sorrindo”. 

Ao fim da conversa foi exibido um vídeo com depoimentos de alunos que participaram do curso, mas não puderam presenciar o lançamento. 

Comunicação antirracista

“A construção de uma comunicação antirracista” foi o tema da segunda mesa, focada nas falas de integrantes de Geledés que participaram da construção do Curso de Multimídia e de jovens que passaram pela formação e, atualmente,  fazem parte da equipe de comunicação da organização. 

Participaram do painel Beatriz de Oliveira, jornalista; Tatiana Pereira, assistente de projetos; e Wini Calaça, arquivista. A mediação ficou a cargo de Isabela Gaidis, assistente de projetos em Geledés. 

As participantes versaram sobre os aprendizados no curso e ao integrarem a equipe da organização. “Fazer parte do curso me permitiu entrar em um espaço que tem uma força muito grande. Conhecer e aprender com mulheres negras que atuam pela nossa dignidade e pelos nossos direitos tem sido muito importante para a minha  trajetória”, afirmou Beatriz. 

Wini, por sua vez, relatou como o livro pode colaborar com a formação de jovens que querem atuar no campo da comunicação, mas não tiveram a oportunidade de participar do Curso de Multimídia. “Esse livro é uma referência para nós e permite a continuação dessa formação, perpetuando todos os aprendizados que os jovens tiveram no curso”. 

Ao fim da mesa, foi exibido um vídeo em homenagem à cineasta Joyce Prado, que faleceu no dia 10 de dezembro de 2025. A profissional foi uma das orientadoras do Curso de Multimídia.  

Gênero, raça e comunicação

A celebração foi encerrada com um diálogo direcionado a analisar como o mercado lida com os dilemas de “Gênero, raça e comunicação”, desafio que nomeou o painel. A reflexão ficou por conta de orientadores que ministraram aulas ou palestras para os alunos. 

Mediado por Semayat Oliveira, editora do Portal Geledés, o painel foi composto por Crica Monteiro, artista multifacetada e designer de interface digital; Maitê Freitas, jornalista, escritora e coordenadora da Oralituras Editora; e Rodrigo Portela, fundador e diretor da Terra Preta Produções. 

Crica compartilhou seus objetivos nas aulas que ministrou. “Eu fiz um mix de tudo que vivenciei na minha trajetória até aqui enquanto artista. Queria que entendessem a potência deles e que,através do conhecimento, poderiam mudar suas trajetórias de vida”, disse. 

Já Maitê Freitas, responsável pela elaboração e a publicação do livro “Práticas Multimídias para uma Comunicação Antirracista”, contou detalhes do processo. “ Espero que o livro seja adotado nas emendas dos cursos de comunicação, por educadores em seu cotidiano e para a prática de pensar uma comunicação que, de fato, seja antirracista, progressista e futurista”, disse. 

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