Geledés na avenida: detalhes do enredo que marcou a estreia da MUM no Grupo Especial

16/02/26
Por Beatriz de Oliveira
Escola desfilou na sexta-feira (13) com o enredo GÈLÈDÉS- Agbara Obinrin, que exalta o poder feminino negro

No dia 13 de fevereiro, o poder feminino negro e o legado de Geledés tomaram conta do Sambodromo Anhembi, em São Paulo. Com o enredo “GÈLÈDÉS- Agbara Obinrin”, a Mocidade Unida da Mooca foi a primeira escola a desfilar na noite de sexta-feira, marcando sua estreia no Grupo Especial. 

Com quatro carros alegóricos e 18 alas, o desfile fez uma jornada por sociedades secretas africanas, pelas lutas do feminismo negro e por nomes de mulheres negras que marcam a história do Brasil. Além disso, personalidades como Conceição Evaristo, Rosana Paulino, Lúcia Xavier e Helena Theodoro participaram do cortejo. 

Para a enredista Thayssa Menezes, contar a história de existência e resistência de mulheres negras no Brasil, por meio de Geledés, faz parte de um compromisso de caráter educativo caro às escolas de samba, colaborando para o fim do apagamento e silenciamento das lutas negras. 

“Contar essa história a partir de Geledés e das bandeiras que o instituto movimenta no nosso país é muito importante. Estamos falando da força do coletivo, a história do povo preto é uma luta coletiva. [O enredo] é uma forma de reconhecimento e reparação histórica com essas mulheres que construíram tudo que entendemos como Brasil, é uma forma de coroá-las”, diz. 

Já o carnavalesco Renan Ribeiro pontua que “o Instituto garante o não retrocesso da pauta, é uma ferramenta de garantia de futuro e honra o trabalho construído por mulheres negras que lutaram para a participação feminina negra no debate público, na política social, antirracista e no futuro de modo geral”. 

As histórias contadas com carros, alas e fantasias 

“Nosso carro abre-alas remonta a energia das mulheres africanas através dos cultos iorubanos, de onde provém o culto Geledè. A segunda alegoria propõe um retorno conceitual das mulheres para África atravessando o atlântico. A terceira faz um levante político em prol da insurgência feminina negra. A quarta alegoria celebra as mulheres fundadoras e o próprio Instituto Geledés”, conta Renan. 

As alas e as fantasias buscaram contar fragmentos e pautas da luta feminista negra, antirracista e antisexista no pais. O último setor fez uma homenagem direta à Geledés e a projetos desenvolvidos pelo instituto, como é o caso da Revista Pode Crê, criada a partir do Projeto Rappers

Entre as fantasias, vale destacar as da comissão de frente, que representaram a criação do mundo pelas mãos de uma mulher negra. Já o casal de mestre sala e porta-bandeira foi caracterizado pelo culto Géledè – cerimônia que presta homenagem às mães e anciãs entre os povos Iorubás, no sudoeste da Nigéria e no Benin. 

“Fomos muito cuidadosos ao pensar nesse enredo, queríamos retratar toda a força, a potência e a energia que emana das mulheres negras, a partir de um viés respeitoso com a luta dessas mulheres, uma luta que é histórica e muito dura”, pontua Thayssa. 

Essa dureza do ativismo foi representada, por exemplo, na pauta pelo direito ao futuro da juventude negra e com a dor de mulheres que perderam seus filhos pela violência de Estado. “Retratamos isso de forma respeitosa com essa dor e com a história dessas mulheres, mostrando também como Geledés atua nessas frentes de luta”, diz Thayssa. 

Em tom aguerrido, o samba-enredo também abarcou as potências e os enfrentamentos travados pelas mulheres negras. “Esse samba tem poder e força, recebemos muitas respostas positivas de sambistas e a comunidade abraçou o samba. Em seu refrão, ele traz uma mensagem muito forte, de convocar toda uma sociedade a acolher as dores e as lutas das mulheres negras”, afirma a enredista. 

O refrão à que Thayssa se refere diz assim: “Quero ver, Casa-Grande vai tremer/No meu 

Quilombo é noite de Xirê!/A Mooca faz revolução/É Guèledés: A libertação!”. 

O Brasil pelas mãos e mentes das mulheres negras 

A elaboração do enredo contou com a pesquisa a acerca dos ensinamentos, escritos e obras de mulheres negras que são referência na luta por direitos e na valorização do povo negro, como Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo e Rosana Paulino. 

A ideia foi abarcar as atuações desde “mulheres negras que tiveram acesso à universidade até aquelas que não tiveram, mas travam essa luta cotidianamente, dentro dos seus espaços, seus trabalhos e suas casas”, afirma a enredista. 

Segundo Thayssa, a pesquisa teve o objetivo de consolidar uma narrativa que partisse do culto Geledè em África até a materialização do instituto Geledés. “O Brasil que cantamos a partir desse enredo é um país onde as mulheres negras sempre se fazem presentes de uma maneira efetiva, pautando suas lutas, falando por si só em primeira pessoa”, destaca. 

Pensando no país que a MUM sonha, a partir desse enredo, Renan afirma: “o Brasil que queremos é de uma mulher negra no poder, cuidando de nosso país como mulheres cuidam de suas famílias, de seus arredores e de seus axés. Queremos um país onde possamos crescer de maneira segura, justa e igualitária”. 

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