Nesta terça-feira (28), Geledés – Instituto da Mulher Negra realizou um painel sobre cinema negro com as convidadas Urânia Munzanzu, cineasta e CEO da produtora Acarajé Filmes, Letícia Leobet, coordenadora adjunta da área internacional de Geledés, e Bi Sevciuc, membro-fundadora da Rede de Mulheres Eu Mais Velha.
A mesa “Diálogos em Geledés – Narrativas de mulheres negras no audiovisual brasileiro” foi mediada por Natália Carneiro, coordenadora de Comunicação Institucional de Geledés. “Para nós, mulheres negras, comunicar foi, muitas vezes, atravessado por um não dito várias vezes. E, ainda assim, conseguimos nos expressar de diferentes formas. Fazer audiovisual sendo mulher negra não é só criar. É disputar narrativa, imagem e memória”, afirmou na abertura.
O encontro contou com a exibição de dois curtas-metragens dirigidos pelas convidadas. A obra Na Volta Eu Te Encontro (2024), com direção de Urânia Munzanzu, retrata a tradição da “Volta da Cabocla”, que integra as celebrações da Festa da Independência da Bahia, no dia 2 de julho. No evento em questão, as figuras do Caboclo e da Cabocla retornam ao bairro da Lapinha, em Salvador (BA), no encerramento dos festejos. A produção conquistou o Prêmio Canal Brasil no 53° Festival de Cinema de Gramado.
Já o filme Pé de Rosa (2025) registra a trajetória de Dona Rosa, mulher negra e benzedeira que mobiliza saberes ancestrais para curar pessoas e equilibrar as energias deste mundo. Ao acompanhar sua prática, a produção evidencia a força espiritual, política e afetiva dos conhecimentos das mais velhas. Ao mesmo tempo, retrata a relação entre Dona Rosa e sua sobrinha-neta, Letícia Leobet, em um processo íntimo de reencontro com a ancestralidade. A obra é dirigida por Letícia Leobet, Laís Melo e Bi Sevciuc.
Cinema e ancestralidade
Durante a conversa, Urânia contou como se deu a roteirização do curta Na Volta Eu Te Encontro. Seu objetivo na obra era apresentar a tradição da Volta da Cabocla de maneira que o espectador captasse a energia dessa manifestação popular. Por isso, optou por iniciar o roteiro com uma cena que simula uma conversa entre dois moradores, e em seguida, mostrar o cortejo da tradição acontecendo. “Entendi que precisava levar as pessoas que não conheciam essa história para dentro da minha comunidade”, disse.
A cineasta compartilhou o fato de ter gravado o curta durante um período delicado de sua vida pessoal. “Eu estava despedaçada e esse filme me colocou inteira de novo em alguma dimensão da minha existência, me conectou com o que eu sou, com a minha fé, meu povo, com o lugar em que eu nasci e me criei”.
Urânia falou também sobre outro projeto de sua carreira, o documentário “Mulheres Negras em Rotas de Liberdade”, que celebra a ancestralidade e a luta das mulheres negras brasileiras em conexão com a África. A obra conta com gravações em Senegal, Benin, Nigéria e Cabo Verde. Além disso, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Erica Malunguinho, Luedji Luna, Mirtes Renata, Carla Akotirene e a própria Urânia protagonizam o longa.
A diretora contou que a ideia para o filme começou a ser gestada em 2009 e, desde então, vem se dedicando a esse projeto com o tempo e o cuidado necessários. A previsão para o lançamento é o ano de 2027. “A minha carreira inteira valeria esse filme. A minha vida inteira valeria esse filme”, afirmou.
Audiovisual e memória
Emocionada, Leticia Leobet compartilhou o processo de realização do curta Pé de Rosa e o zelo com o tempo que foi preciso para gravar a sua tia avó, na época com 97 anos de idade. Dona Rosa faleceu pouco tempo depois da finalização da obra.
“Conseguimos mostrar o filme para ela. Ela se emocionou, gostou muito. Fizemos o lançamento do filme na mostra Eu Mais Velha e a tia Rosa fez a passagem duas semanas depois. É muito simbólico, me sinto honrada de ter conseguido prestar essa homenagem para ela e, de alguma forma, registrar essa nossa conexão que me deu tudo, no sentido de conseguir, em alguma medida, interromper o apagamento que o racismo provoca no que diz respeito ao nosso direito de ser e pertencer”, disse.
Bi Sevciuc, por sua vez, relatou sobre a possibilidade de registrar as mulheres mais velhas com o objetivo de manter seus legados permaneçam vivos. Essa motivação é o que move o projeto Rede de Mulheres Eu Mais Velha, liderado por ela. A iniciativa realiza ações em conjunto com mulheres guardiãs da biodiversidade e das tecnologias ancestrais de cuidado
“Os desafios são relacionados com a captação de recursos e o acesso aos espaços. Então, o trabalho do Eu Mais Velha é justamente para que essas janelas de amplificação e protagonismo dessas mulheres existam”, pontuou.
Ao longo da conversa, Letícia Leobet discorreu sobre o uso do audiovisual para produzir memórias. “Tive o desejo de compartilhar essa história com a ideia de que meninas negras que não tiveram acesso a sua ancestralidade e as suas mais velhas possam usar essa produção como uma oportunidade de acessar isso”.
Fotos: Isabela Gaidis