Nesta segunda-feira (27), Geledés – Instituto da Mulher Negra promoveu o lançamento da coleção “Incidência Internacional de Geledés”, obra com dez volumes sobre a atuação exitosa da organização no âmbito das discussões globais. O instituto tem atuado para a promoção do empoderamento econômico da população negra e da justiça racial.
O conjunto de livros reúne transcrições dos principais eventos realizados pelo instituto entre os anos de 2023 e 2025. As atividades aconteceram paralelamente a conferências, fóruns e negociações no contexto das Nações Unidas e da Organização dos Estados Americanos. O lançamento fez parte da série de atividades em celebração aos 38 anos da organização.
“A coleção marca nossa trajetória política no debate sobre justiça racial no âmbito global, pois, enquanto Geledés, defendemos este como um campo estratégico no enfrentamento ao racismo e na construção de possibilidades de transformação. Isso é importante porque, em geral, esses espaços [ONU e OEA] pouco estiveram abertos para a atuação da sociedade civil, sobretudo do movimento negro, e se demonstravam reservados às burocracias estatais e a diplomacia”, pontuou Sueli Carneiro, coordenadora de Memória e Reparação, durante a abertura do evento.
Dessa forma, as publicações têm o intuito de compartilhar caminhos, estratégias e disputas que têm permitido Geledés tensionar estruturas globais e inserir a agenda de justiça racial nos principais processos multilaterais. A obra completa está disponível na Biblioteca Digital da organização.
“Essa coleção não é o registro do que Geledés pensa ou teria a dizer, é o registro de quase 50 pessoas que falaram em 11 eventos. São 50 cabeças que pensaram a questão racial a nível global e que trouxeram propostas sobre o que significa a emancipação econômica da população afrodescendente”, afirmou Iradj Eghari, consultor Internacional de Geledés.
Como forma de dialogar sobre o tema da coleção, o evento foi centrado no painel Raça, Gênero e Território no Sistema Multilateral, mediado por Leticia Leobet, coordenadora adjunta da área internacional de Geledés. A mesa contou com a participação de Luciana Servo, presidenta do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Silvio Albuquerque, embaixador do Brasil em Bruxelas, Jamil Chade, jornalista e analista internacional, Maira Junqueira, diretora de programa na Fundação Ford, Renata Braga, gerente de programas na Open Society Foundations, e Maria José Menezes, representante da Coalizão Negra Por Direitos.

Leticia Leobet pontuou que as publicações versam sobre memória, análise e intervenção.“Num contexto internacional marcado por uma conjuntura que nos obriga a pensar em retrocessos, sobretudo em respeito aos direitos humanos, esse lançamento nos convida a refletir sobre qual é o lugar da sociedade civil afrodescendente nas formulações das respostas globais e como nós, mulheres negras, estamos reivindicando, incansavelmente, o direito de exercermos o nosso lugar como sujeitas centrais na formulação de saídas para as crises do presente”, disse.
Desafios e conquistas
Em sua fala, Silvio Albuquerque, embaixador do Brasil em Bruxelas, abordou o momento desafiador no contexto internacional. “Esse é um momento de profunda ameaça a todas as políticas que foram construídas ao longo das décadas no campo da democracia, da luta contra o racismo e nos avanços dos direitos das mulheres negras”, afirmou. Nesse sentido, ressaltou que Geledés tem desempenhado um papel fundamental para a diplomacia brasileira em momentos recentes do multilateralismo.
“Para mim, o lançamento da coleção Incidência Internacional de Geledés, não é apenas uma memória institucional. Eu vejo nessa publicação um testemunho vivo de como a organização tem sido capaz de transformar agendas, deslocar paradigmas e construir de uma maneira diferente o papel do Estado na luta contra a discriminação racial”, destacou Silvio
Luciana Servo, presidenta do IPEA, por sua vez, enalteceu as formações realizadas por Geledés no campo da incidência internacional. “Esse processo é o que faz a diferença para termos uma recomendação sobre reparação, uma discussão sobre processo de empoderamento econômico, participação no stakeholder group, e fazermos, de fato, a diferença na incidência internacional”.
Em seguida, o jornalista Jamil Chade discorreu sobre o alarmante cenário global de retrocesso de direitos. “A constatação é de que, para além das fronteiras dos Estados Unidos, a base mais radical do trumpismo tem construído uma infraestrutura global para a expansão da sua ideologia. (…) As proteções aos direitos humanos estão sendo substituídas por doutrinas religiosas, a promoção da democracia está sendo substituída pela defesa da ‘família natural’, a assistência humanitária está sendo substituída por uma conformidade ideológica”, disse.
E acrescentou: “a reação precisa ser coordenada, estratégica, ambiciosa e todos vão precisar estar envolvidos. Estou convencido de que vocês [Geledés] são absolutamente fundamentais nessa resposta democrática e humanista”.
Em sua oportunidade de fala, Maria Junqueira, diretora de programa na Fundação Ford, deu ênfase à cooperação de Geledés junto à outras organizações para a construção de uma nova governança global baseada na justiça racial. “Na lógica internacional são necessários atores que tragam a luta antirracista para a construção dessa nova governança global. Vemos Geledés como um dos atores centrais na sociedade brasileira para ter essa atuação”.
Já Renata Braga salientou o potencial da coleção de publicações em se consolidar como um marco teórico, prático e metodológico do que é o desenvolvimento justo. “Esses 10 volumes montam uma agenda sobre qual é o projeto de país, de desenvolvimento internacional e de sociedade que imaginamos. Uma sociedade justa e igualitária, em que a transição energética olhe para os impactos nas populações negras e nas mulheres”.
Maria José Menezes, representante da Coalizão Negra Por Direitos, abordou como a atuação de organizações negras tem sido decisiva no multilateralismo. “Uma incidência e uma pauta importante que Geledés e as organizações negras fazem é atuar nesses mecanismos internacionais levando a questão racial como ponto fundamental para que se discuta a qualidade e as mudanças que o mundo precisa para se tornar algo viável. As agendas globais são tangenciadas pela questão racial”.
No encerramento do evento, Sueli Carneiro se disse feliz com a atuação que a área internacional de Geledés tem desenvolvido nos últimos anos. A filósofa evidenciou o propósito central deste trabalho: “a instância internacional é um ponto estratégico para pressionarmos a instância nacional a avançar em agendas fundamentais para a emancipação da nossa gente”. E complementou: “toda essa estratégia desemboca num grande programa de desenvolvimento econômico, social, cultural e ambiental da população negra. Uma coisa que nomeei como 14 de maio de 1888, o projeto destinado a realizar tudo aquilo que não foi feito no dia seguinte da abolição”.
Fotos: Isabela Gaidis e Tatiana Pereira
Acesse os dez volumes da coleção “Incidência Internacional de Geledés”:
2. Instrumentalização do racismo pelos movimentos de extrema direita global
3. Estratégias de combate ao racismo global
4. Abordando o racismo como uma questão central na agenda global para o futuro
5. Os desafios atuais dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais – Descas no Brasil
6. Não há desenvolvimento sustentável sem enfrentar o racismo
7. Mulheres negras no centro do desenvolvimento: propostas para justiça econômica e social
8. Justiça de gênero e racial no contexto do retrocesso democrático
9. Fortalecimento do papel dos major groups e outros stakeholders no combate ao racismo global
10. O papel do financiamento para o desenvolvimento no empoderamento econômico das mulheres