domingo, março 26, 2023
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Healing America: O Compromisso de um Financiador com a Equidade Racial

A Fundação W. K. Kellogg lançou uma iniciativa agressiva desde o final da década de 80 até o início da década de 90, a fim de aumentar os índices de adoção e ajudar as comunidades a encontrarem lares permanentes para as crianças vulneráveis dentro do sistema social de assistência à infância. O programa foi um sucesso. Milhares de crianças encontraram famílias amorosas e permanentes. O trabalho pode ter ajudado a moldar as políticas e práticas nacionais e estaduais nessa área, porém, ao serem reavaliadas através da lente racial, fica claro que o programa não foi bom para as crianças de cor. Apesar de sua constante apresentação ao sistema de adoção, poucas crianças de cor foram adotadas, por mais constrangedor que isto seja. A lição hoje ficou bastante clara: sem uma intenção clara e sem  estratégias criativas para influenciar as percepções e também os preconceitos raciais inconscientes e as estruturas de oportunidades, as disparidades e os abismos nunca deixarão de existir. Não basta celebrar a diversidade e administrar com uma lente inclusiva ou multicultural. As estruturas de privilégios e oportunidades raciais invadem todas as políticas e sistemas sociais desta nação, inclusive o sistema de saúde, as empresas, a educação, a justiça, os sistemas alimentares, a mídia e a assistência à infância.

Por Dr. Gail C. Christopher, DN

A visão que norteia o trabalho da Fundação W. K. Kellogg é clara: nós idealizamos uma nação que orienta seus recursos a fim de assegurar que todas as crianças se desenvolvam. O que pode não ser tão evidente para alguns é a forma perniciosa e auto-perpetuante como o racismo impede que muitas crianças tenham oportunidades. Hoje, uma série de fatores – altíssimas taxas de encarceramento entre os jovens de cor do sexo masculino, segregação racial persistente, pobreza concentrada, altos índices de reprovação escolar e desemprego extremo entre um número desproporcional de comunidades de cor – se combinam para criar um sistema grosseiro de castas raciais/sociais nos Estados Unidos. Se isto não for corrigido, as futuras gerações de crianças enfrentarão barreiras insuperáveis para a equidade de oportunidades. Em vez de E pluribus unum (dentre muitos, um) as atuais previsões sociais e econômicas mostram que nos tornaremos uma nação onde os muitos serão cada vez mais separados dos poucos através de um abismo de desigualdade.

O divisor se baseia grandemente em características físicas superficiais que foram e continuam sendo usadas em um esforço desorientado para categorizar os indivíduos de acordo com a raça. Porém, enquanto a evidência científica estabelece claramente que as categorias raciais são um construto artificial, as conseqüências sociais do racismo são reais, profundas e de grande alcance. Numa nação onde muitos professam não ter preconceito de cor, mais da metade de todas as crianças negras, pardas, afro-americanas, latinas (hispânicas) e indígenas vivem hoje em famílias de baixa renda. Comparando os padrões demográficos das 100 maiores regiões metropolitanas dos Estados Unidos, os pesquisadores de Harvard Delores Acevedo Garcia e David Williams descobriram que mais de uma entre cada cinco crianças latinas (20,5%) vivem em famílias pobres e também em bairros pobres. Em torno de uma em cada seis (16,8%) crianças afro-americanas enfrenta o mesmo dilema. Para as crianças brancas, esse número está pouco acima de uma em cada cem (1,2%).

Ao declarar seu mandato para a Fundação Kellogg – “Façam o que quiserem com o dinheiro, desde que ele ajude as crianças” – Will Keith Kellogg não fez distinção de cor. Na verdade, ele reconheceu que a própria pobreza torna as crianças vulneráveis. É por este motivo que, como uma nação predominantemente branca, com base meramente em números, a maioria das crianças pobres nos EUA são brancas. E é por isto que a Fundação Kellogg financia e apóia grupos que ajudam as crianças.

Mas ao considerar além de uma simples contagem de pessoas e analisar o forte contraste entre as oportunidades de sucesso enfrentadas pelos diversos grupos raciais do país, a diretoria da fundação descobriu não ser possível ignorar as conseqüências do preconceito racial arraigado e do racismo estrutural. Graças à combinação sem precedentes da elevação dos índices de natalidade  e dos padrões de imigração das últimas décadas, as tendências demográficas indicam que, até 2013, a maioria das crianças deste país serão de cor. A Diretoria da Fundação Kellogg reconheceu que, nessas condições, a pobreza de base racial é perpetuada e os obstáculos ao sucesso não são meramente problemas sociais, mas ameaças mensuráveis à viabilidade e à segurança econômica de nossa nação. Para termos sucesso como nação em um mundo cada vez mais competitivo, é preciso alavancar e maximizar todosos nossos recursos de forma eficaz. Não poderemos fazê-lo e não podemos esperar que as forças armadas ou o sistema de seguridade social funcionem corretamente, se a maioria de nossas crianças e jovens não tiver boa educação ou bons empregos. Isto faz com que a identificação e a remoção das barreiras sociais às oportunidades iguais se tornem o desafio mais significativo enfrentado por nosso país neste século.

Para tratar desse desafio de forma eficaz, precisamos curar de forma coletiva o legado do racismo em nossa nação.

Além do projeto do genoma humano ter apregoado a nova era da ciência e da medicina genômica, ele refutou também o mito da diferença racial biológica. A evidência científica não deixa espaço para ambigüidades: toda a humanidade descende de um conjunto comum de ancestrais, o que nos torna membros de uma única família global. As características físicas superficiais de pigmentação, estrutura facial e/ou textura de cabelo são todas adaptações ao meio-ambiente e ao clima em que nossos ancestrais evoluíram. No nível mais elementar, o nível do genoma – a informação que orienta a reprodução celular e os processos vitais – somos todos 99,9% os mesmos.

Entretanto, embora a ciência tenha desacreditado totalmente o mito da diferença racial biológica, a antiga estrutura de oportunidades que distribui os privilégios com base naquela mitologia continua solidamente enraizada em nossa cultura. Na verdade, isso está tão arraigado que acaba afetando as nossas instituições e nosso modo de pensar de forma totalmente inconsciente.  Como demonstra Peggy McIntosh em seu artigo clássico – “White Privilege: Unpacking the Invisible Knapsack” (“Privilégios dos Brancos: Desfazendo a mochila invisível” ), o próprio campo da filantropia, por exemplo, é, em grande parte, o resultado desse sistema de mitologia racial. O acesso aos privilégios e aos seus sistemas de oportunidades ajudou a criar as grandes fortunas dos brancos que acabaram gerando as maiores entidades filantrópicas de nosso país. Hoje, a vergonha em relação aos erros do passado e alguns esforços hercúleos para desfazer as consequências de nossa ignorância coletiva sobre as questões raciais (inclusive a Guerra Civil e o movimento dos direitos civis) nos levam a clamar por uma sociedade que não faça distinção de cor. A sensação de deixar para trás a história e afirmar que tudo ficou no passado é muito melhor. Existe uma necessidade muito humana e compreensível de “declarar a vitória” e de deixar para trás as questões raciais. Afinal, temos o nosso primeiro presidente afro-americano.  Essa não seria a evidência mais clara imaginável de que estamos vivendo em uma América pós-racial?

A realidade é que não estamos. É verdade inegável que já fizemos muito progresso e que não somos tão divididos racialmente como éramos. Mas continua sendo igualmente verdadeiro que um número assustador de crianças e de famílias de cor continua enfrentando obstáculos enormes e desproporcionais. Vamos considerar o seguinte:

§  Entre os países desenvolvidos, os EUA possuem uma das maiores desigualdades de renda e os mais elevados índices de segregação racial e econômica. Entre os países membros da OECD, apenas a Turquia e o México possuem níveis mais altos de desigualdade de renda.

§   Embora a maioria dos usuários e traficantes de drogas ilegais em todo o mundo seja de brancos, ¾ de todos os presos por envolvimento com drogas são negros ou latinos. Os EUA enviam para as prisões um percentual maior de sua população negra do que a África do Sul enviava no ápice do apartheid. Em Washington D.C., capital de nosso país, estima-se que 3 entre cada 4 homens jovens negros do sexo masculino (e quase todos os que vivem em bairros pobres) podem esperar passar algum tempo na prisão. Índices de encarceramento semelhantes podem ser encontrados nas comunidades negras em todo o país.

§  Mais de 50 anos após o caso Brown X Junta de Educação, as escolas públicas americanas são mais segregadas hoje do que em 1960.

§  As pessoas de cor e os pobres vivem em ambientes mais poluídos do que o restante da nação. Por exemplo, os afro-americanos tem 79% a mais de chance do que os brancos de viverem em bairros onde a poluição industrial causa os maiores riscos à saúde.

§  As comunidades de cor continuam carregando um fardo desproporcional de desigualdade racial em termos de mortalidade infantil, obesidade na infância, diabetes e mortes entre adolescentes devido a violência com armas e homicídios.

Claramente, não estamos vivendo em uma América pós-racial e não podemos continuar vivendo essa ignorância (e arrogância) de nos comportar como se não fizéssemos distinção de cor. Nossas estruturas sociais e de oportunidades racializadas geraram e continuam a gerar dois resultados amplos: privilégios para alguns e obstáculos, dor e sofrimento para os demais. Onde existe sofrimento é necessário que haja cura emocional e física. E para que essa cura aconteça, precisamos ver mais claramente, como jamais vimos, que não é mais possível viver com essas estruturas sociais raciais tão arraigadas em nosso ethos nacional. Precisamos superar a negação e encarar as conseqüências, implicações e sentimentos – inclusive, para muitos, o extremo desconforto – que acompanha o árduo trabalho de reconhecer as experiências dolorosas e o impacto destrutivo de nossas feridas raciais nacionais, individuais e coletivas.

Este é o início do processo de cura. Ele reflete o referencial que serviu de base para nosso o pedido de propostas de iniciativas de cura racial baseadas na comunidade. A Fundação Kellogg recebeu quase mil propostas de todos os estados norte-americanos – exceto o Wyoming – com estratégias diversas, como reescrever o currículo escolar de história, incluir a contribuição positiva dos indígenas americanos e treinar promotores distritais sobre o papel central do racismo nas práticas legais históricas e contemporâneas. Entre as iniciativas de cura (healing) racial baseadas na comunidade, encontram-se:

§  Iniciativas de base comunitária para mitigar os efeitos da discriminação e do racismo estrutural através de coalizões e/ou parcerias multi-setoriais com alvos claramente estabelecidos e resultados projetados de forma a afetar a vida das crianças marginalizadas.

§  Trabalho para eliminar o racismo institucional e estrutural através da conscientização, educação, disseminação da informação e de abordagens criativas à mídia.

§  Avaliação dos recursos e oportunidades da comunidade ou estratégias de mapeamento.

§  Treinamento em debates e experiências de aprendizado para a cura dentro de grupos raciais/étnicos.

§  Narrativas e/ou exposições históricas ligadas à história racial.

§  Educação sobre relações raciais e direitos humanos e projetos assistenciais.

§  Iniciativas de comunicação e impacto sobre as questões raciais.

§  Projetos curriculares escolares e organizacionais.

§  Iniciativas ligadas a políticas regulatórias locais, como reforma escolar, reforma da saúde, iniciativas sobre desigualdade ou engajamento cidadão.

A iniciativa “America Healing”de 75 milhões de dólares e cinco anos de duração, complementa outros trabalhos maiores dentro da fundação com foco em educação, alimentação e bem estar e segurança econômica da família. A fundação distribui aproximadamente 300 milhões de dólares a cada ano para as crianças e famílias vulneráveis. A experiência tem nos ensinado que, sem não formos explícitos em relação à cura (dentro das comunidades e indivíduos) das cicatrizes de séculos de privilégios e oportunidades racializadas, nossas estratégias de financiamento mais amplas não vão conseguir reduzir as diferenças entre os resultados, nem eliminar as desigualdades raciais. A motivação sustentada e o compromisso com a mudança dos sistemas sociais e de oportunidades, bem como a dinâmica do poder nos EUA, exigem  uma profunda compreensão, compaixão e vontade de mudar. Isto acontece apenas quando a visão e a intenção são claras. Portanto, as percepções, os corações e mentes podem mudar e, muitas vezes, mudam de fato. Ao desafiar a Fundação Kellogg a se tornar uma organização anti-racista mais eficaz, o Conselho  Diretor reconhece os benefícios implícitos do privilégio dos brancos e a obrigação da fundação em responder às necessidades produzidas por séculos de racismo estrutural.

É por este motivo que estamos fazendo o maior investimento de toda a vida da fundação para apoiar aquilo que esperamos venha a ser um esforço catalisador. A América precisa de cura. Essa cura pode ser descrita operacionalmente como a experiência pessoal da transcendência do sofrimento. O privilégio estrutural e a injustiça social produziram uma dor e um sofrimento imensuráveis, que continuam silentes e invisíveis. Precisamos ter coragem para enxergar e tratar esta questão. A cura também já foi definida como “o processo de reunir os aspectos de um ser – corpo, mente-espírito e níveis mais profundos de conhecimento interior – em busca da integração e do equilíbrio, cada aspecto com igual importância e valor” (Dossey et al., 2005). Embora essa definição faça referência ao nível individual ou pessoal de experiência, quando se trata das questões de reconciliação e cura racial, ela pode ser ampliada para a comunidade e, esperamos que também à nação.

A nossa declaração de missão nos chama a apoiar “crianças, famílias e comunidades, à medida que elas se fortalecem e criam condições que levem as crianças vulneráveis a se desenvolverem como indivíduos e a contribuírem com sua comunidade e sociedade.”  Acreditamos que as comunidades saudáveis onde as pessoas possam se ver como conectadas, como parte de um todo – trabalhando por todas as crianças – serão fortes catalisadores para o cumprimento desta missão.

Dr. Gail C. Christopher, DN (médica naturopata), é vice-presidente de Programação da Fundação W.K. Kellogg.

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