Historiadores negros promovem jornada sobre os 170 anos do fim do tráfico transatlântico de africanos escravizados

Há 170 anos, o fim do tráfico transatlântico de africanos escravizados passou a ser uma prioridade para o Estado brasileiro, que passou a tomar medidas concretas para interrompê-lo. Assim, a promulgação da Lei n. 581, em 4 de setembro de 1850, também conhecida como Lei Eusébio de Queirós, foi um evento crucial na formação e na história da nação brasileira, por razões que vão além da atuação do então ministro cujo nome batizou a lei.

Em mais de três séculos, o Brasil se tornou o destino de aproximadamente 5,3 milhões de homens, mulheres e crianças, que foram arrancados da África e submetidos à escravidão em minas e plantações de açúcar, algodão e café, nos serviços domésticos e diversas atividades urbanas. Desse total, 4,8 milhões de pessoas sobreviveram à travessia. Ou seja, cerca de 500 mil vidas humanas foram perdidas em quase 10 mil viagens através do Atlântico. Em termos gerais, o Brasil foi a nação que mais recebeu africanos escravizados nas Américas – em torno de 45%, segundo as estatísticas mais recentes.

Em meados do século XIX, o fim do tráfico já havia sido objeto de tratados internacionais assumidos em décadas anteriores, que resultaram, especialmente, na Lei de 7 de novembro de 1831, apelidada de “Lei para inglês ver”. Em 1850, portanto, o Estado brasileiro decretou a segunda lei de abolição do tráfico negreiro, novamente sob pressão inglesa. Nesses dezenove anos que separam uma lei da outra, aproximadamente 800 mil vítimas – uma média de 40 mil pessoas por ano – foram introduzidas no sistema escravista brasileiro, quando essa prática já era
oficialmente um crime.

Quais as consequências do fim do tráfico escravista para a sociedade brasileira como um todo, e em particular para a população negra? Quais os impactos do tráfico nas várias regiões da África devastadas por guerras e mecanismos de escravização que destruíram padrões preexistentes de  organização socioeconômica e política? Como entender a luta contra o tráfico a partir do reconhecimento do papel histórico dos próprios escravizados no combate ao infame comércio? Como refletir sobre a memória do tráfico num contexto caracterizado pelo racismo estrutural, a supremacia branca e o genocídio da população negra brasileira?

De 31 de agosto ao 4 de setembro, sempre a partir das 15h, a Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros promoverá, em seu perfil do Instagram (@historiadorxsnegrxs), uma série de lives sobre temas como: A África, o Brasil e o tráfico de escravizados; A repressão e a agência africana; Retornos, conexões e circularidades; e As visões e a memória do tráfico de escravizados. A programação é composta por dezesseis historiadoras e historiadores negros atuantes no Brasil, nos EUA, na França, e com experiência de pesquisa em diversos países africanos.

PROGRAMAÇÃO

Jornada “A Abolição do Tráfico Transatlântico de Africanos Escravizados: os 170 Anos da Lei Euzébio de Queirós”

31 de agosto de 2020 – Segunda-Feira
15 horas-18 horas

Reprodução/Instagram

 

Live 1: A África e o Tráfico de Escravizados
Mediação: Aderivaldo Ramos de Santana (Universidade Bordeaux-Montaigne)

Guerra e poder na África Central: os reinos do Congo e Dongo e o tráfico transatlântico – séc XVII – Guilherme Oliveira da Silva (Unicamp)

O fim do tráfico e os trabalhadores africanos: “engagés à temps” no Senegal e os “africanos livres” no Brasil – Juliana Barreto Farias (Unilab/Universidade Cheikh Anta Diop)

Contrapontos africanos: Angola e Congo na era do abolicionismo global – Roquinaldo Ferreira (Universidade da Pensilvânia)

1º de setembro de 2020 – Terça-Feira
15 horas-18 horas

 

Reprodução/Instagram

Live 2: O Brasil e o Tráfico de Escravizados
Mediação: Gustavo Bronze (PUC – São Paulo)

Para além da lida no Atlântico – vida familiar de um capitão negreiro na Cidade da Bahia
setecentista – Raiza C. Canuta da Hora (UFBA/UNEB)

Dinâmicas escravistas numa cidade negra: o Rio de Janeiro após a proibição do Tráfico – Ynaê Lopes dos Santos (UFF)

Os “africanos livres” na Bahia – Isabel Cristina F. dos Reis (UFRB)

 

2 de setembro de 2020
15 horas-18 horas

Reprodução/Instagram

Live 3: A Repressão e a Agência Africana
Mediação: Najara Gonçalves (UNEB-Alagoinhas)

Apreensões, ultimatos, prejuízos e liberdade: as ações britânicas contra o comércio negreiro e os primeiros impactos sobre a praça da Bahia 1810-1812 – Paulo de Jesus (UFRB)

O caso do Clementina, navio negreiro francês, capturado na província de Pernambuco em 1831 e o combate ao tráfico transatlântico de africanos escravizados no Brasil – Aderivaldo Ramos de Santana (Universidade Bordeaux-Montaigne)

Memórias do tráfico: comércio ilegal e experiências cativas nas ações de liberdade de Pernambuco entre os anos de 1880 e 1888 – Maria Emília Vasconcelos (UFRPE)

3 de setembro de 2020
15 horas-19 horas

Reprodução/Instagram

Live 4: Retornos, Conexões e Circularidades Mediação: Maria Emília Vasconcelos (UFRPE)

O comércio de escravizados entre a Bahia e o Golfo do Benim no século XVIII: uma história global – Carlos da Silva Jr (UEFS)

Revisitando “Os Rosários dos Angolas”: o tráfico e outras conexões (Angola-Bahia, século XVIII) – Lucilene Reginaldo (Unicamp)

Tripulantes da História: os percursos do marinheiro Duarte José Martins da Costa e a rede miúda do comércio de escravizados (Rio de Janeiro – Recife – Benin, século XIX) – Valéria Costa (IFSertão-PE)

Retornos para a África de libertos no Brasil no século dezenove: fases, características e o Rio de Janeiro como local de partida – Mônica Lima (UFRJ)

4 de setembro de 2020
15 horas – 18 horas

Reprodução/Instagram

Live 5: As Visões e a Memória do Tráfico de Escravizados
Mediação: Iracélli da Cruz Alves (UFF)

O tráfico de africanos no Brasil nos jornais estadunidenses: Um olhar diaspórico dos abolicionistas negros – Luciana Brito (UFRB)

O Cemitério dos Pretos novos no contexto do tráfico transatlântico de escravizados, no Rio de Janeiro, da primeira metade do séc. XIX – Júlio César Medeiros (UFF)

As travessias da memória: a patrimonialização das memórias do tráfico e da escravidão no Brasil – Francisco Phelipe Cunha Paz (UnB)

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