Tag: Historiadores negros

Amanda Paranaguá Dória, a baronesa “morena” da abolição

Era aniversário da República naquela tarde de 15 de novembro de 1925, quando a senhora Maria Amanda Lustosa da Cunha Paranaguá Dória, baronesa de Loreto, abriu o portão da residência da sua irmã, Maria Argemira, onde morava, em Botafogo, Rio de Janeiro, para o jornalista Mozart Monteiro, que a procurava para saber mais sobre o falecido imperador Pedro II, por ocasião do seu centenário de nascimento. Ter sido amiga íntima da família imperial e dama de companhia da princesa Isabel a tornou uma autoridade largamente conhecida e recomendada no assunto. “Amandinha”, como os íntimos a chamavam, era acostumada a receber muitos interessados sobre os tempos do império e mostrar-lhes as inúmeras fotografias, postais e cartas que colecionava. Sua morada se constituía como um “lugar de memória”, expressão de Pierre Nora, na medida em que privilegiava a recriação de laços entre o tempo presente e o tempo vivido, materializado e perenizado ...

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Ceilândia – Distrito Federal, território negro na contramão de Brasília

Vinte e um de abril de 2021, dia que marca os 61 anos da inauguração de Brasília. Anunciada como meta e síntese do governo de Juscelino Kubistchek, a cidade foi erguida sobre concepções desenvolvimentistas, modernistas e racionalistas. Ao mesmo tempo, as expectativas acerca da cidade moderna mobilizaram populações de todas as regiões do país, de modo que homens e mulheres vislumbraram na construção da capital a possibilidade de uma melhoria na condição de vida.  Como sinalizado por historiadoras e historiadores, o país onde Brasília foi anunciada como capital da esperança fora fundado numa estrutura escravista e racializada, em que as elites não se ocuparam em promover políticas públicas de garantia de cidadania para a população negra no pré e no pós-abolição. Nesse sentido, Brasília não foi um ponto fora da curva, visto que a população negra que para lá se dirigiu enfrentou diversas tentativas de interdição do exercício de uma ...

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Uma mãe obstinada: maternidade negra no pós-abolição (Recife, 1890)

No habeas corpus aberto em 1890 na cidade do Recife, encontramos a história de Gertrudes Rosario Maria da Conceição, acusada da faina de “pegar crianças”. Gertrudes era uma criada doméstica de 21 anos, ex-escravizada, analfabeta, solteira, africana – pela idade importada ilegalmente para o Brasil – e mãe de Olindina, alvo do litígio.  Em algum período próximo ao 13 de maio de 1888, Gertrudes decidiu ir para Belém. Como tinha uma filha “em tenríssima idade”, precisou deixá-la aos cuidados da família Siqueira, de modo a garantir um teto para a menina enquanto se aventurava nessa empreitada. Anos depois, quando resolveu morar no Ceará, resolveu buscar sua filha. De início, tentou recuperá-la de forma amistosa, mas sem sucesso. A fim de alcançar o seu intento, pediu para sua amiga, Maria de França, uma liberta que tinha conhecido no Pará, que resgatasse a menina da casa dos Siqueira. Elas concordaram em partir ...

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Uma cidade e um complexo industrial sob o mito da democracia racial

A região do Vale do Paraíba, Sul Fluminense do Estado do Rio de Janeiro, foi historicamente ligada à produção de café. Memorialistas locais escreveram sobre fazendas, plantações e famílias importantes (geralmente escravocratas). A cidade de Barra Mansa está nesse circuito e Volta Redonda, que ao final dos anos 1930 possuía menos de 3.000 habitantes, era seu distrito rural. Tudo muda nos anos 1940, pois o governo Vargas, no contexto da Segunda Guerra, em associação com o capital estadunidense constrói a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).  O período de construção da usina (1941-1946) envolveu um processo de migração tamanho que mais de 48.000 trabalhadores chegaram à região. Na década de 1950 a população local cresce, chegando a 56.380 habitantes e em 1954, Volta Redonda se emancipa de Barra Mansa. Nesse cenário, a CSN já era um complexo fabril presente em vários estados.  Quando iniciei minha pesquisa de mestrado (2008), eu procurava os ...

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Judiciário brasileiro em preto e branco: os casos de Juvêncio Serafim e Eduardo Silva no Rio de Janeiro do início do século XX

Não é de hoje que o tratamento desigual no âmbito das instituições prejudica a população negra. O racismo, ao figurar como motor das relações sociais no país, impacta nossas vidas dos mais diversos modos e intensidades. Lembro os casos de dois curandeiros que atuaram no início da República, que trouxe consigo nova legislação. O Código Penal de 1890 é um exemplo disso. Ele criminalizava a manipulação e a prescrição de ervas, chás, a prática do hipnotismo, do magnetismo e do espiritismo, caso fossem praticados por pessoas não diplomadas em medicina. Era muito frequente que africanos e afro-brasileiros que lidavam com suas crenças e tradições fossem enquadrados nesses crimes. Os curandeiros aos quais quero me referir eram Juvêncio Serafim do Nascimento, negro, alfaiate, analfabeto, descendente de africanos escravizados, nascido na Bahia; e Eduardo Silva, branco, engenheiro, europeu, nascido em Gibraltar, território inglês na costa da Espanha. Ambos se envolveram com práticas ...

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Arquivo Pessoal

Mobilizações de professores negros em Salvador na Primeira República

Em 16 dezembro de 1912, a localidade do Politeama, no centro de Salvador estava movimentada com a presença de estudantes, professores, professoras, jornalistas, autoridades e o público em geral que prestigiavam a abertura da exposição anual de trabalhos escolares do ensino primário público da cidade. O intendente municipal (o prefeito daquele tempo) estava presente compondo a tribuna junto com outras autoridades e o professor Vicente Ferreira Café. Vicente Café era um homem negro, um docente influente, que tinha como característica o bom manejo das palavras e sua oratória. Na ocasião, ele figurava como representante do professorado e fora convidado para proferir um discurso que contemplasse aquele momento festivo. Professor Vicente Ferreira Café. Fonte: A Tarde, 19 de junho de 1924, p.1. O professor Café em seu discurso elogiou a iniciativa da intendência, tratou sobre o trabalho desenvolvido pela categoria, lembrando que os professores eram os formadores ...

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Experiências da negritude na fotografia baiana do final do século XX

Os negros sob o olhar da câmera Lucídio Lopes. Fotografia de Isabel Gouvea. Fonte: Catálogo Fotobahia, Salvador, 1984. Nesta primeira imagem, vemos Licídio Lopes, pescador, nascido em 1899, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. A fotografia foi feita em 1984 por Isabel Gouvea, fotógrafa paulistana, integrante do Grupo de Fotógrafos da Bahia, à época. O homem octogenário, em traje elegante, encara a câmera exibindo duas telas por ele pintadas, nas quais se veem a Igreja de Santa Ana do Rio Vermelho. O fotografado foi enquadrado numa posição que permite observar os objetos representados nas pinturas: a igreja, num plano mais atrás, convivendo no espaço tradicional do festivo bairro costeiro com as linhas arquitetônicas de um prédio recentemente erigido. No mesmo ano da captura fotográfica, o livro O Rio Vermelho e Suas Tradições, com crônicas escritas por Seu Licídio, foi publicado pela Fundação Cultural do Estado ...

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Branqueamento, indígenas e o tráfico de escravos

Em sua tese de livre docência, John Monteiro afirmou que “não se pode menosprezar a importância da abolição, em 1850, do tráfico negreiro e a lenta extinção da escravidão no Brasil para o debate indigenista”. Poderíamos, na verdade, afirmar que já na década de 1820 o debate acerca do fim do trato negreiro teve grande relevância na formulação de projetos de políticas indigenistas.  Logo após a declaração da independência do Brasil, D. Pedro I iniciou negociações com países europeus em busca de reconhecimento diplomático. A Inglaterra, a nação mais poderosa à época, exigiu a abolição do trato negreiro “dentre em mui curto período” como condição indispensável para reconhecer o novo país. Após aproximadamente quatro anos de negociação, um acordo foi selado entre os dois países: o tráfico de escravos seria abolido três anos após a sua ratificação no Parlamento brasileiro, o que ocorreu em março de 1827.  Todavia, como afirmou ...

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Coluna ‘Nossas Histórias’ – uma retrospectiva em 16 capítulos

A coluna “Nossas Histórias” fechou 2020 com a auspiciosa marca de dezesseis títulos publicados nos formatos de artigos e vídeos explicativos sobre a vida da gente negra no Brasil e no mundo! São histórias que a História já conta por meio da escrita e das vozes de historiadoras negras e historiadores negros de diversas regiões brasileiras. Graças à parceria entre a Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros, o Geledés e o Acervo Cultne, desde o dia 16 de setembro, em todas as quartas-feiras, são apresentados conteúdos produzidos especialmente com o objetivo de fortalecer o diálogo com profissionais da Educação Básica, ativistas e demais pessoas interessadas em História Negra e Antirracista. Confira o vídeo da Retrospectiva da Coluna “Nossas Histórias” em 2020, que conta com os depoimentos de Sueli Carneiro e Dom Filó, a quem a Rede de HistoriadorXs NegrXs agradece publicamente pelo exemplo, a confiança e o apoio recebidos!  ...

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Arquivo Pessoal

Respeitabilidade também é de luta: uma história da Sociedade Beneficente 13 de maio de Piracicaba

Os jornais de Piracicaba anunciaram que os “homens de cor” da cidade planejavam, pelo sétimo ano seguido, promover festejos em comemoração à abolição da escravatura. Pode-se dizer que, nas primeiras décadas do século XX, a expressão “homens de cor” era usada para identificar pessoas negras em situações respeitosas, em casos de desordens e suspeitas de crimes os periódicos costumavam chamar de pretos/as ou mulatos/as. A Gazeta de Piracicaba, na edição de 5 de maio de 1908, e o Jornal de Piracicaba, do dia 10 de maio de 1908, disseram que “Os sócios da Sociedade ‘Luiz Gama’ em marcha” sairiam da rua Santa Cruz, às seis horas da tarde, até sua “sede social, onde os aguardar o distinto orador dr. Osório de Souza”. Além dos ritos de costumes, que envolviam missa, préstito com vivas à imprensa, abolicionistas de prestígio nacional e local, discursos, músicas e fogos de artifício, eles desfilariam com ...

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“Escravos da Religião”: Como era ser escravizado pela Igreja Católica no século XIX?

Em 23 de julho de 1863, a comunidade de cativos da Fazenda São Bento de Iguassú, no Recôncavo do Rio de Janeiro, estava de luto. O motivo: Fortunata, uma das escravizadas mais idosas da propriedade, veio a falecer aos 70 anos. Idade bastante avançada para sua condição.  Seu corpo, provavelmente, foi velado por amigos que formou no infortúnio do cativeiro, por seus compadres, comadres, filhas e netos, estes últimos também escravizados na mesma fazenda. Sua morte foi igualmente sentida a quilômetros dali, na cidade do Rio de Janeiro, onde ela ia com frequência para participar das atividades da Confraria de Nossa Senhora do Rosário, no Mosteiro de São Bento, da qual era irmã desde 1847. Seus confrades registraram seu falecimento no livro de entrada dos irmãos. Ou seja, em vida, Fortunata estabeleceu relações sociais complexas que iam desde a fazenda onde fora escravizada, nos fundos da Baía de Guanabara, até ...

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Jaques Felix Trindade. “Capa”. Jornegro, São Pa... (1978)

“Nossas Histórias: vidas, lutas e saberes da gente negra”, uma exposição necessária

Sob a curadoria da Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros, Geledés – Instituto da Mulher Negra, em parceria com Acervo Cultne e Google Arts & Culture, dá início ao projeto de exposições virtuais “Nossas Histórias: vidas, lutas e saberes da gente negra”. Essa ação é entendida como uma maneira de reposicionar as pesquisas acadêmicas de excelência produzidas por historiadoras negras e historiadores negros acerca dos mais diversos temas que envolvem pessoas de ascendência africana no Brasil e no mundo. O projeto, assim como outras iniciativas que temos desenvolvido, busca atender aos propósitos da reeducação das relações étnico-raciais e do letramento histórico antirracista. A primeira exposição da série visa a compreensão do 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra e estará completa nesta plataforma até dezembro. As seis “salas virtuais” apresentarão informações que vão das práticas de memórias da gente negra no século XIX até as reflexões ...

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Arquivo Pessoal

Quilombo: A Arte da Memória Negra sobre Palmares

Uma das máximas do pensamento de Beatriz Nascimento é a de que os quilombos exerceram um papel fundamental na construção da consciência histórica da população africana e seus descendentes no Brasil. Assim, as memórias sobre as experiências quilombolas foram constantes durante e após o período da escravidão. Advindos de tradicionais culturas orais, os povos africanos e seus descendentes encontraram possibilidades de memorização corporal. Suas expressões e formas de ser, viver e relacionar-se foram reatualizadas e incorporadas em diversas práticas culturais. Essas expressões de comunicação são locais privilegiados para o entendimento do processo de transformação histórico-social das culturas africanas no Brasil e em outras regiões da América e do Caribe. A manifestação de temática quilombola surgida nas Alagoas de fins do século XVIII, o quilombo, é uma delas. Realizada em cidades e zonas rurais em tempos de festas natalinas e nas celebrações de irmandades como a de Nossa Senhora do Rosário, ...

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Divulgação

Por que é errado dizer que “os negros escravizaram os negros”?

Quem nunca ouviu alguém falar que os negros escravizaram os próprios negros? Esse é um dos principais argumentos utilizados por pessoas racistas para deslegitimar os movimentos negros, para desqualificar as lutas das populações negras ao longo do tempo e para até mesmo destituir Zumbi dos Palmares da condição de herói nacional. As frases proferidas pelo senso comum mais utilizadas nessas situações vão na seguinte direção: “O racismo não é culpa dos brancos, pois os negros escravizaram os próprios negros”. Ou ainda: “Cotas étnico-raciais não são dívida histórica, pois foram os negros que venderam e escravizaram os próprios negros. Então, a culpa da escravidão é da própria população negra”.  Em 2018, meses antes das eleições presidenciais, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro, ao discutir cotas étnico-raciais no programa Roda Viva, disse que era contra a política de cotas, pois “ele nunca escravizou ninguém na vida” e que “o português nem ...

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Pretos e Mulatos em Clubes Sociais Negros num Pedacinho da Europa no Brasil

Pedro Victorino era um antigo sócio da Sociedade Recreativa União Operária, que reunia pessoas negras – ou melhor homens de cor, como se dizia na época – da cidade de Laguna, Santa Catarina. Em 1906, já não frequentava as atividades da associação, por isso resolveu se desligar e pagar a dívida que tinha, que ele acreditou ser de 13 mil réis. Porém, a direção lhe cobrou 17 mil réis. Discordando do valor do débito pendente, não fez o pagamento. A direção da entidade, então, tornou pública a pendência e Pedro resolveu responder publicando no jornal local, O Albor, na edição de 24 de agosto de 1906, uma carta aberta contra os dirigentes da “União Operária”. Magoado e ressentido, exclamava que o nome apropriado para a agremiação deveria ser “desunião operária”, que aquela era mais uma das “sociedades de encantos” que cresciam “só no calor do entusiasmo” para, depois, encerrar nas ...

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Reprodução/Instagram

Historiadores negros promovem jornada sobre os 170 anos do fim do tráfico transatlântico de africanos escravizados

Há 170 anos, o fim do tráfico transatlântico de africanos escravizados passou a ser uma prioridade para o Estado brasileiro, que passou a tomar medidas concretas para interrompê-lo. Assim, a promulgação da Lei n. 581, em 4 de setembro de 1850, também conhecida como Lei Eusébio de Queirós, foi um evento crucial na formação e na história da nação brasileira, por razões que vão além da atuação do então ministro cujo nome batizou a lei. Em mais de três séculos, o Brasil se tornou o destino de aproximadamente 5,3 milhões de homens, mulheres e crianças, que foram arrancados da África e submetidos à escravidão em minas e plantações de açúcar, algodão e café, nos serviços domésticos e diversas atividades urbanas. Desse total, 4,8 milhões de pessoas sobreviveram à travessia. Ou seja, cerca de 500 mil vidas humanas foram perdidas em quase 10 mil viagens através do Atlântico. Em termos gerais, ...

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