Comércio da sorte e do azar? Jogo do bicho e o pós-abolição no Brasil

O jogo do bicho faz parte do cenário sociocultural brasileiro desde o final do século XIX. O que poucas pessoas sabem é que ele foi criado em 1892, por João Baptista Vianna Drummond, o Barão de Drummond, empresário responsável pelo empreendimento de uma área residencial planejada na cidade do Rio de Janeiro: o bairro de Vila Isabel. Concebido de acordo com os preceitos de modernidade e civilidade do final do século XIX, o bairro se destacava pela presença de um jardim zoológico enquanto um dos símbolos desse ideal moderno que se buscava estabelecer na cidade.

O Jardim Zoológico de Vila Isabel data de 1888 (mesmo ano da Abolição), sendo resultado de um negócio celebrado entre Drummond e a Câmara Municipal do Rio. Logo que o espaço passou a funcionar, o empresário recorreu à Câmara para conseguir uma subvenção que auxiliasse nos altos custos de manutenção do zoológico, porém não obteve êxito. Pouco tempo após o primeiro pedido, em meados de 1888, Drummond escreve à Câmara novamente, sugerindo a utilização de dinheiro proveniente de jogos de azar para conseguir manter o funcionamento do jardim zoológico. A Comissão de Orçamento da Câmara não aceitou por completo a sugestão, embora tenha destinado uma verba anual de dez contos de réis.

Após a proclamação da República, em 1889, o recurso financeiro dado ao zoológico foi cortado, pois passou a ser visto como um tipo de “favoritismo monárquico”. No ano seguinte, no entanto, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro estabeleceu um novo acordo com a empresa responsável pela administração do Jardim Zoológico, de propriedade de Drummond, possibilitando assim o “direito de estabelecer e explorar, dentro dos limites do Jardim Zoológico, ‘jogos públicos lícitos’, sujeitos à fiscalização policial”, como nos dizem Roberto DaMatta e Elena Soárez. 

O emprego de lucros provenientes de jogos de azar era uma estratégia comum utilizada para a construção, manutenção e reformas de algumas obras e serviços de caráter público, tais como hospitais, orfanatos, associações beneficentes, escolas e, também, instituições religiosas (igrejas e conventos). Na Bahia, nesse mesmo período, os doutores Augusto Cesar Viana e Aurélio Rodrigues Vianna apresentaram, em sete de maio de 1894, o projeto n.º 104, à Assembleia Geral Legislativa baiana, no qual solicitaram para si mesmos, “ou associação que organizarem, uma loteria de prêmio maior de mil contos de réis”. O dinheiro arrecadado com esses “jogos lícitos”, conforme a lei, serviria para a “fundação nesta capital [Salvador] de um Instituto Bacteriológico, destinado ao estudo das moléstias infecciosas e meios práticos de debelá-las”. Ainda no mesmo mês, o deputado Vergne de Abreu lembrou da iniciativa de Alfredo Cezar Cabuçu, Glicério Vellozo e Dantas Bião, que buscavam a concessão de uma loteria, também com o valor de mil contos de réis, “destinada à fundação do Liceu Rui Barbosa”.

Nesse sentido, podemos observar como os jogos de azar serviam, enquanto instrumentos para angariar fundos, para atender às demandas de instituições de caráter ou em benefício público. No caso de Drummond e seu zoológico, obter autorização para explorar jogos de azar foi uma atitude política empreendida por ele, para consolidar seus negócios, atrelando-se ainda a outros empresários do ramo de entretenimento no Rio de Janeiro.

Inicialmente o jogo do bicho consistia em um sorteio destinado às pessoas que fossem ao zoológico. Diariamente, por volta das 7h (horário de abertura para visitação), o Barão de Drummond colocava a imagem de um dos bichos (do zoológico) no interior de uma caixa que era elevada num mastro. Ela ficava suspensa até o horário de encerramento, por volta das 17h. Os visitantes adquiriam o bilhete de entrada, que era também o do sorteio, no qual vinha carimbado data, nome e imagem do bicho. A recompensa, no caso de se coincidir o animal escolhido por Drummond e o do bilhete adquirido, rendia ao visitante vinte mil réis. Os felizardos teriam o prazo de quatro dias para retirar o prêmio.

No começo, gostaria de pontuar, as pessoas não se interessavam em escolher o bicho de seu bilhete, o que nos leva a interpretar que o jogo era visto como uma atividade menor, secundária, sendo, portanto, a visita aos animais o principal interesse do público. Mas com o tempo, isso foi mudando, sobretudo pela possibilidade de conquistar um prêmio que equivalia a vinte vezes o valor do próprio ingresso – que custava, à época, mil réis. De acordo com Amy Chazkel, o valor do prêmio era o dobro do salário diário que recebia um sapateiro no Rio de Janeiro. Assim, além de frequentar um jardim elaborado para atender as demandas da modernidade citadina naquele contexto de alvorecer da República, ou seja, um espaço que demonstrava o controle do Homem sobre a Natureza (fauna e flora), o visitante poderia sair dali com algum dinheiro extra.

De forma estratégica, isso poderia render uma nova visita ao lugar, aumentando assim o público do zoológico – e seus lucros, consequentemente. Com essa visão, a direção do zoológico passou a vender os bilhetes fora dos muros do estabelecimento, após nova autorização da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. E o jogo suplantou gradualmente o interesse pelos animais. A “fuga” dos bichos do zoológico para as ruas da cidade, na última década do século XIX, foi uma mudança que significou o desvirtuamento do sorteio elaborado por Drummond, passando a ser visto como um jogo de azar ilegal.

Para melhor entendimento, cabe explicar que o jogo do bicho passou por uma reelaboração:   cada animal corresponde a um grupo e a quatro dezenas atreladas ao sorteio da loteria federal. O avestruz indica o grupo um e as dezenas 01, 02, 03 e 04. Já o elefante, grupo 12, correspondendo às dezenas 45, 46, 47 e 48. O último bicho é a vaca, grupo 25, relacionado às dezenas 97, 98, 99 e 00. Não existe confirmação se os bichos que se popularizaram e se fixaram como símbolo do prêmio ao longo do tempo, correspondem exatamente àqueles do Jardim Zoológico de Vila Isabel. A imagem abaixo representa o quadro do jogo.

Tabela ilustrativa dos animais do jogo do bicho, com os respectivos grupos e dezenas. (Fonte: Loteria Federal.)

Ao fugir do zoológico e se espalhar pelas ruas do Rio de Janeiro, o jogo do bicho se integrou à vasta rede de comércio da sorte e do azar já existente na cidade, ganhando novas dimensões. Assim, o funcionamento da loteria ilegal ocorria da seguinte maneira: ao jogar no camelo (grupo oito), por exemplo, o apostador acreditava que o resultado da loteria lícita teria como resultado as dezenas 29, 30, 31 e 32. As apostas também poderiam ser feitas em centenas (três dígitos) e milhares (quatro dígitos), bem como a realização de combinação dos bichos da tabela, fornecendo intrincadas modalidades de apostas aos jogadores. Diferente das loterias legalizadas, os apostadores do bicho não precisavam de quantias fixas na compra dos bilhetes, o que facilitava as possibilidades de aposta. O montante do prêmio variava de acordo com a precisão do bicho, dos números e do valor da aposta. Quanto maior o valor apostado, maior o prêmio.

Sujeitos de diferentes idades e classes sociais tinham as apostas inseridas em seus cotidianos, sobretudo pessoas negras. Eles não eram desordeiros ou inimigos do trabalho como os periódicos da época se esforçavam em afirmar em suas páginas, condenando e atacando esses sujeitos e as suas formas de sobrevivência – ainda que estivessem à margem da lei.

Os vendedores de bilhetes e exploradores de bancas de jogo ofereciam possibilidades de ganho contando que o azar sorrisse aos compradores e jogadores para que, com isso, eles pudessem aumentar suas próprias rendas. Enquanto isso, os compradores de bilhetes e jogadores apostavam no contrário, torcendo para que a sorte lhes fosse favorável e conseguissem fazer render o dinheiro investido na banca de jogo. Os policiais aproveitavam do uso da força e do aparato repressivo legal para negociar com os vendedores de bilhetes e exploradores de casas de jogos uma suposta proteção.

Diante desse cenário amplo, vender bilhetes era uma possibilidade de ocupação e de sustento, mesmo sendo uma atividade ilegal. Alguns tinham nas loterias uma forma de mudar de vida; outros, de sanar, talvez, os problemas financeiros mais imediatos. Uma realidade que conectava diferentes casos e sujeitos em regiões específicas do Brasil.

Sobre isso, por exemplo, o Jornal Moderno de Salvador, em 01 de dezembro de 1915, nos conta que José Antônio Lima, “à falta de trabalho, resolveu tentar a fortuna na loteria”. José acreditava que poderia enriquecer com os ganhos das apostas. Pensando nisso, todos os dias fazia “o percurso da Baixa dos Sapateiros para a Cidade Baixa”, em Salvador. Decidido, foi até a casa de “Bernardo Joaquim Nunes, negociante de bilhetes, e aí, contra a vontade deste, apoderou-se de alguns bilhetes com que se ‘habilitou’ na Federal”. É possível que tenha se imaginado, por dias, obtendo um grande prêmio lotérico enquanto andava para o trabalho, ao mesmo tempo que podia ter calculado o que poderia fazer com esse dinheiro.

Muitos sonhos e ambições, acredito eu, passavam pela mente de José. Porém, é uma pena que os sonhos desse sujeito tenham se frustrado rapidamente, em virtude da maneira que ele tenha se apoderado daqueles bilhetes. Como noticiado, Bernardo Joaquim Nunes, o vendedor da sorte e do azar, notou “a falta de 30 bilhetes que estavam pendentes no mostruário”. José Antônio Lima teve a sorte de apoderar-se furtivamente de um bilhete premiado. Porém, não poderia desfrutar do tão sonhado prêmio. Após a denúncia de Bernardo à polícia, José acabou sendo “recolhido com muito pouca sorte ao posto policial na rua do Paço”.

Os jogos de azar figuram como uma forma de diversão, que também pode ser lida como mais uma das muitas estratégias de sobrevivência de pessoas mais pobres – geralmente negras, por conta do racismo que lhes direcionou à marginalização social e à precarização nos mundos do trabalho –, levando em conta a possível amenização da situação financeira, mesmo que temporariamente, ao se conseguir um dinheiro extra por meio das apostas. A diversão e a possibilidade de perda e ganho, portanto, não são completamente antagônicas, embora seja difícil imaginar um indivíduo contente após perder parte do salário em uma banca de jogo ilegal. Nesse sentido, o jogo do bicho cruza sociabilidades, experiências e expectativas diversas nesse Brasil do pós-abolição.

Examinar o cenário da jogatina nos ajuda a pensar as fronteiras entre lazer, sobrevivência e diversão de inúmeros trabalhadores, sobretudo negros. O que unia esses homens e mulheres eram as situações semelhantes experienciadas na vida cotidiana: salários precários, falta de direitos, escassas possibilidades de negociação favorável, cargas horárias extenuantes e com sérios riscos de lesões, moradias paupérrimas, falta de acesso à saúde e à educação formal, dentre outras. Estudar a história do trabalho a partir do prisma do jogo do bicho e dos demais jogos de azar no Brasil nos ajuda a entender os diferentes mecanismos de trabalho  e relações de exploração de mão de obra. As estratégias utilizadas pela população pobre e majoritariamente negra foram diversas e plurais, coadunando o aspecto lúdico dos jogos e maneiras de amenizar as condições materiais de existência. 

Assista ao vídeo do historiador Igor Antonio Santiago Soares no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI03 (9° ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados); EF09HI04 (9° ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil); EF09HI26 (9° ano: Discutir e analisar as causas da violência contra populações marginalizadas (negros, indígenas, mulheres, homossexuais, camponeses, pobres etc.) com vistas à tomada de consciência e à construção de uma cultura de paz, empatia e respeito às pessoas).

Ensino Médio: EM13CHS101 (Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais); EM13CHS402 (Analisar e comparar indicadores de emprego, trabalho e renda em diferentes espaços, escalas e tempos, associando-os a processos de estratificação e desigualdade socioeconômica); EM13CHS606 (Analisar as características socioeconômicas da sociedade brasileira – com base na análise de documentos (dados, tabelas, mapas etc.) de diferentes fontes – e propor medidas para enfrentar os problemas identificados e construir uma sociedade mais próspera, justa e inclusiva, que valorize o protagonismo de seus cidadãos e promova o autoconhecimento, a autoestima, a autoconfiança e a empatia).


Igor Antonio Santiago Soares

Telefone: (71) 99300-3194

Mestre em História Social pela UFBA; Bacharel e Licenciado em História pela UFBA; Funcionário Público do governo do Estado da Bahia.

E-mail: [email protected]

Instagram: @santiga_igor


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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