segunda-feira, agosto 8, 2022
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Histórias, nossas histórias, dias de luta, dias de glória

A pandemia causada pelo novo coronavírus no ano de 2020 foi a pior crise sanitária do século XXI e descortinou as desigualdades sociais não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Naquele ano, os segmentos considerados “minorias” já passavam por inúmeras vulnerabilidades e perda de direitos, pois a sociedade enfrentava governos autoritários e os desafios da democracia inacabada. Importante ressaltar que o Brasil era um dos países mais desiguais do mundo e que a população negra era alvo da mão pesada do Estado.

Os anos de 2016 a 2022 do século XXI foram anos de ferro e fogo no Brasil. Em 2016, tivemos o golpe da história, em que a presidente Dilma Rousseff foi vítima do machismo, sexismo, patriarcado e principalmente dos interesses da elite capitalista. Quem assumiu a presidência após o golpe foi o vice-presidente Michel Temer, responsável por reformas inconstitucionais e retrocessos dos direitos humanos. Para finalizar esse período, o povo brasileiro elegeu um fascista.

Se analisarmos a fundo o que representou o século XXI para os povos tradicionais, podemos afirmar sem dúvidas que eles estavam vivendo combos do sistema escravagista com 1ª e 2ª Guerra Mundial. O tal “Mito”, Jair Bolsonaro, não deu paz: exterminou o presente, botou fogo no passado e enxofre no futuro. Pasmem, esse homem que foi presidente do Brasil durante os anos de 2019 a 2022 entrou para a história como o pior presidente do mundo.

Nesse período histórico que estou retratando, as pessoas negras, os povos originários e as pessoas LGBTQIA+ eram consideradas minorias por não ocuparem instâncias de decisão (política, social, econômica). É inacreditável que a maioria da população estava na margem e sofria inúmeras opressões. O Brasil de que estou falando ocupava lugar de destaque ranking de violência contra mulheres, LGBTQIA+ e possuía uma das maiores populações carcerárias do mundo, ou seja, o Brasil era um país inseguro para a maioria da população.

Que bom que existe história, pois hoje podemos confrontar as narrativas e não cair mais na conversa de governos fascistas.

Atualmente estamos vivenciando um cenário totalmente diferente; afinal, em pleno século XXV, no auge da tecnologia da informação, globalização e inteligência artificial as pessoas que eram vistas como “minorias” estão ocupando todos os lugares possíveis, inclusive já habitam Marte e pegaram todos os voos que vão para Lua. Enquanto escrevo este texto, recebo a notícia de que o Brasil está entre os 10 países como menos desigualdades sociais do mundo e digo mais: aqui as instâncias de poder representam a maioria. O Brasil continua sendo negro e composto por mulheres.

A emissora comunitária Equidade acaba de anunciar que estamos entre os países que mais respeitam a diversidade. Ao ler esta notícia, lembrei-me de uma matéria que li sobre a intelectual Sueli Carneiro, uma das intelectuais negras que atuou no país e um dos nomes que abriram os caminhos para o feminismo negro brasileiro, na qual ela dizia, “não importa o tempo que será necessário, faremos Palmares de novo”. Sueli Carneiro não estava errada, somos quilombos e estamos caminhando pelos caminhos que foram abertos por ela, por Lélia Gonzales, Djamila Ribeiro, Cida Bento, Lucia Xavier, Conceição Evaristo e por outras mulheres negras imparáveis.

Ao escrever esta carta, lembro também da minha tataravó, Sibele Gabriela dos Santos. Ela sempre falava para seu pai, Gilberto Francisco dos Santos, e para sua mãe, Nadir Silva dos Santos, que estava lutando para que eu e as próximas gerações pudessem viver em um país mais justo e igualitário. Minha bisavó não está aqui entre nós, mas lendo os artigos, livros que ela escreveu, tenho certeza que ela está aplaudindo de onde estiver o legado que ajudou a construir. Não tenho dúvidas de que ela está falando em alto e bom som “da vontade de esfregar o caderno na cara de quem disse que não ia conseguir”.

Minha tataravó, Sibele, era muito visionária, nasceu e cresceu em uma pequena cidade do interior de São Paulo, estudou nas melhores universidades públicas, enfrentou a violência interseccional daquela época. Ela encontrou força e esperança nos olhos e na acolhida da escritora Djamila Ribeiro. Sim, Sibele se movimentou e promoveu um encontro de ancestralidade no seu Município, com a presença de Djamila Ribeiro e depois desse encontro ela nunca mais foi a mesma. Ficou mais que evidente que a sociedade daquela época tinha muito medo do Feminismo Negro.

Meus olhos se enchem de lágrimas, pois além de promover esse encontro com Ribeiro, Sibele também foi uma das selecionadas do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Negras: Marielle Franco e participante assídua da coluna Negras que Movem do Geledés. Esses foram apenas alguns marcos da contribuição de mulheres negras contra hegemonia eurocêntrica do Brasil do século XXI.

Sim, caros leitores, a realidade do Brasil mudou. Hoje podemos dizer que pessoas brancas constituem as minorias e estas realmente tornaram-se aliadas do povo negro. De fato, a pandemia foi um divisor de águas para desconstruir tudo que o neoliberalismo entranhou em nossas mentes. Vivemos em um país com problemas que demandam intervenções do Estado, mas esse Estado é diverso e multicultural e o povo negro é protagonista nas instâncias públicas e privadas.

Não foi fácil ressignificar os direitos humanos, mas hoje podemos dizer que estamos vivenciando a construção de uma nova sociedade; essa construção só foi possível com a luta dos movimentos negros, associada a estratégias antirracistas muito bem articuladas, entre as quais  a taxação das grandes fortunas, políticas públicas na perspectiva interseccional, enfraquecimento do neoliberalismo, equidade social e a participação no povo negro na formulação e implantação de um novo sistema de organização do Estado.

Demorou séculos para percebermos que a terra é nosso lar e é nosso dever cuidar deste local para que as próximas gerações possam ser acolhidas. Durante a maior crise sanitária do século XXI, a população em situação de vulnerabilidade social enfrentou inúmeros desafios, entre os quais o  “governo” do fascista Jair Messias Bolsonaro. Nesse período de calamidade pública, mais de 600 mil pessoas tiveram suas vidas ceifadas devido à negligência do governo que se recusou a comprar vacinas.

Hoje podemos dizer que de fato é possível levar uma vida menos consumista e que temos o dever de tentar amenizar todos os males que fizemos ao planeta Terra. Finalizo esses relatos, pois alguns direitos humanos foram reconhecidos e ressignificados através de muita luta, e cabe a nós manter esses direitos em estado de vigilância para que essa história baseada em fatos reais não se repita.

É muito importante falar de tudo que aconteceu no nosso país para que chegássemos ao tão sonhado Estado Democrático de Direito.

Eu, pessoa que assina esta carta, continuo seguindo os passos de todas as mulheres negras que lutaram por mim, por nós. Sou pesquisadora, já concluí o pós-doutorado e estou entre as mulheres mais influentes do mundo graças a minha ancestralidade. Viva o povo negro!

Histórias, nossas histórias!

Dias de luta!

Dias de glória!

Sibele Gabriela dos Santos,  feminista, militante dos Direitos Humanos, abolicionista, assistente social, graduada em Serviço Social pela Unesp, pós-graduada em Políticas Públicas – SUAS, MBA em Administração Pública e Gerência de Cidades, curso profissional em Neurociência pela PUCRS, especialista em Africanidades e Cultura Afro-Brasileira, Promotora Legal Popular, mestranda em Planejamento e Análise de Políticas Públicas na Unesp, pós-graduanda em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global pela PUCRS, cursando MBA em Gestão de Projetos pela USP, graduanda em Formação Pedagógica para Docentes pelo IFSP, pós-graduanda em Direitos Humanos, Saúde e Racismo: questão negra pela FIOCRUZ, mestranda em Educação pela USP e líder do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco pelo Fundo Baobá.

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