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Homem negro: carne, navalha e a necessidade do corte certeiro!

Essa manhã escrevo como filha, irmã, neta, sobrinha, prima, amiga e amante dos homens negros. Escrevo impulsionada pelo amor, mas também por doses cavalares de dolência.

Por Caroline Amanda Borges / Edição de Imagem: Vinicius de Almeida, do Alma Preta 

Hoje, dia dos pais, já sabemos que a tradicional família brasileira ”dois contra o mundo” não contará com a presença de um pai, um tio, um avô… Assassinato? Cárcere? Ou mais um reprodutor da senzala?

Personagem certeiro e constante nas quebradas, nos territórios de maioria negra pelo mundo, parcela esmagadora de homens negros reproduz o status de macho para afirmar uma masculinidade reduzida e deturpada. Sempre associado e associando a si ações e reações violentas, o homem negro se torna herói a partir de atos suicidas e da exposição de seu próprio povo.

Tendo em vista a violência entre nós como reflexo direto do medo, ouso dizer que os homens negros têm sido a parcela do nosso povo mais acometida por este sentimento.

O medo tem sido um consenso entre os africanos pelo mundo. Consenso porque somos portadores de corpos alvos, corpos vulneráveis frente ao sistema anti negro que tem sofisticado seu modus operandi desde o colonialismo até o tempo presente, sem acepção geracional, de gênero ou de localização geográfica.

No entanto, os homens negros são alvos declarados das ações militares de Estado, como o animal a ser abatido. Experimentam o mundo a partir de um corpo que pode ser levado para as  prisões pelas drogas, pela polícia, pela funerária, sem questionamento ou comoção social. Daí a expressão de um comportamento quase sempre violento como meio único de interação para dentro da nossa comunidade.

Tal comportamento, de um modo geral, camufla sua situação de frustração e impotência diante daquilo imposto pelo racismo, tornando os homens negros ventriloquos disseminadores do caos entre nós através de condutas referenciadas nas premissas do patriarcado e do machismo.

Embora reconheça a situação de milhares de homens negros que amargam a frustração de não poder prover suas famílias, por serem os últimos a serem contratados e os primeiros a serem mandados embora, há premissas que precisam ser traídas e ações “justificadas” que precisam ser banidas.

Condutas alinhadas com tais preposições prescrevem para si uma síndrome de Stocolmo, além de atentar diretamente contra os princípios necessariamente africanos. As medidas que flertam com os ranços e práticas  da escravidão se mantém nos papéis sociais, como o de  “negro reprodutor da senzala”. Esse estereótipo causa em si e para o povo negro um desequilíbrio que retroalimenta o projeto genocida contra nós.

Afinal nesse domingo, a quem o bilhetinho e a lembrancinha da escola será entregue? Com quem almoçará os nossos mais novos? Se você estivesse lá o menor estaria passando veneno? A quem serve esse sentimento de rejeição? Em que esse sentimento se desencadeará?

Se quando a polícia chega para matar, muitas vezes já estamos “mortos”, pois  para além da ação e da omissão do Estado, que nos retira qualquer expectativa digna de vida, estou certa de que parcela da nossa morte gradativa está nas nossas auto dissecações. O egoísmo e a acomodação de uma maioria de homens tem atravessado como navalha o conjunto da comunidade negra. O homem que pode contar com famílias negras quando encarcerado, quando acamado, quando desempregado, não tem tido o menor compromisso em retornar o zelo e o comprometimento para com os seus e quase sempre com as suas. Quando o homem negro, na ânsia de se provar apto para o mundo branco, renega e rejeita seus deveres para com o seu povo, ele se torna a navalha de sua própria carne.

Em um sistema anti negro, em que a suspeita é o pressuposto para a morte, os homens negros devem refletir sobre sua responsabilidade nesse cenário, sobre suas  escolhas e impactos sobre nosso povo. Sem se esconder atrás de teorias que ao invés de cumprir sua função original de relocação da agência e emancipação de um povo, tem sido reduzida a escudo.

Lutar contra o Genocídio é manter se vivo, é ser fôlego de vida para os que estão, é ser referência positiva para os nossos mais novos, é ser motivo de orgulho para os nossos mais velhos, é não largar de barriga, é reafirmar humanidade a partir de afetos!  É quebrar o espelho que te reflete meio-macho e nada humano.

Olha o castelo, foi você quem fez! Você é o maior engenheiro que o mundo já viu! Você é o Rei mais sábio, o Guerreiro mais valente e o homem mais espiritualizado! Não se traia. Não nos traia! Empute a navalha contra a supremacia branca. Vamos demolir em unidade tudo o que nos reduz!

O que Zumbi diria da sua conduta?

#MEOUÇAIRMÃOPRETO

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