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Infância, música e pobreza: sua criminalização e alguns aspectos correlatos – Por: Paula Libence

 

Falar sobre música e infância é por demais interessante. Eu já escrevi um texto no qual se imbricavam música, juventude, sexualidade e mídia, e olha que deu o que falar. O mais interessante, e por ora divertido, foi ver as pessoas vociferando seu ódio na caixa de comentários como se estivessem sendo afrontadas pessoalmente com tudo que escrevi – como se eu tivesse escrito o texto com a intenção deliberada de atacá-las. Achei o maior barato, e confesso que me diverti um pouco com isso, mas o que ficou notadamente marcado quando resolvi abordar esses aspectos foi perceber o tradicionalismo discursivo presente em alguns comentários. Nada mal, creio que cada pessoa tem o direito de expor sua opinião da maneira que lhe cabe. Partindo da prerrogativa que não ofenda o outro, tá valendo.

E agora me proponho a falar novamente sobre música, mas trago como pano de fundo a infância e a pobreza, bem como sua criminalização.

Ora, com as inovações das tecnologias da informação, o acesso às mídias virtuais teve um verdadeiro boomentre os jovens. A informação ganhou agilidade e mutação nos segundos em que é posta na rede mundial de comunicação. Ferramentas como Facebook, WhatsApp, Instagram e outros tem batido recorde de acesso e popularidade. Todos querem estar conectados.

E como toda essa rede de acesso à informação é vitrine de um mundo de consumo em que todos querem se inserir, essas ferramentas servem para propagar em proporções gigantescas e de modo dinâmico tudo que está na moda. A relação de poder que se estabelece numa rede de comunicação muitas vezes consegue transpor limites fronteiriços que estão entrepostos entre o ter e o que quero ser.

A relação de poder se perpetua em diversas áreas, e na música não é diferente. Sempre vejo circular nas redes sociais imagens de jovens, muitas vezes crianças ainda, dançando funk ou o pagode baiano. As crianças se exibem em coreografias tidas como sensuais e até mesmo “pornográficas”. Confesso que não aparenta ser interessante apreciar esse tipo de comportamento ainda na mais tenra idade. Mas o que não entendo é a depreciação que muitos se dispõem a fazer envolvidos numa vil hipocrisia.

Afirmar que uma criança que dança funk está mais propensa a um futuro indigno é de uma violência tão brutal, quanto afirmar que é também por causa do funk que essa geração de jovens está toda perdida. Ora bolas, partindo do pressuposto que funk é um ritmo originário das periferias, e nelas reside a grande massa populacional que habita esse país, estamos apontando estatisticamente que boa parte da população tende a ser prematuramente mãe solteira, pai delinquente e todos comporão o exército da massa de manobra por gostar de funk.

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Como educadora que sou, devo afirmar em alto e bom som que gostar de funk ou de pagode não faz ninguém mais ou menos delinquente ou irresponsável que outra. (Ao que me consta, não há nenhuma relação entre criminalidade e música.) Conhecer a realidade que cerca cada um é no mínimo honesto, a fim de que se possa inferir algo sobre seu caráter.

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Falar que crianças oriundas da pobreza não terão um futuro digno porque praticam dança sensual e se exibem num jogo que preza pela valorização dos corpos é não deter da menor sensatez que valide um argumento diferente do “eu acho ridículo tudo isso”.

O bom senso foge aos nossos olhos diante de tudo que desprezamos, ou afetivamente aceitamos. E isso me faz lembrar uma situação que ocorreu no tempo em que trabalhei numa escola em Salvador, e tive de realizar uma atividade diagnóstica, a fim de constatar alguns estudantes que porventura tivessem dificuldade com a escrita. Para executar tal atividade, me utilizei da música como instrumento de trabalho.

 

A tarefa consistia no seguinte: o grupo (eu não fiz sozinha a atividade) tinha de coletar dos e das estudantes o estilo musical que mais lhes agradavam, estes teriam de escrever num papel o nome da banda ou música em troca de uma brincadeira em que havia troca de doces. No final da atividade, fora constatado que noventa por cento da turma gostava da música de uma banda de pagode muito famosa em Salvador, A Bronkka.

 

O mais engraçado em ter realizado essa atividade foi, posteriormente, ouvir a regente da turma afirmar que desconhecia a tal banda favorita de seus estudantes, bem como desconhecia também a apreciação de seus estudantes por tal ritmo. Segundo a professora, ela nunca havia escutado nada daquela banda musical, pois no local onde ela reside ninguém toca “esse tipo de música”. Ou seja, como ela não foi apresentada à banda, ela ignorava completamente a música que eles faziam. E assim era com seus estudantes, todos moradores de periferia, que ouviam tocar no rádio de suas casas, na casa do seu vizinho, nos eventos sociais em que estavam envolvidos (aniversários, batizados, casamentos e outros) sempre o mesmo ritmo e por isso apreciavam imensamente a ponto de desprezar outro ritmo mais bem aceito socialmente por simplesmente ignorar sua existência.

Ou seja, nós apreciamos tudo aquilo que nos é apresentado. Como disseram os Racionais MCs, as pessoas se espelham em quem está mais perto. Não dá para gostar de música clássica quando a comunidade em que se vive só toca arrocha. Falar que crianças que dançam funk estão perdidas é um juízo de valor infame para quem sequer apresentou a estas crianças a NEOJIBA, a Jam Session do MAM, a OSBA, e tantas outras.

Quantos Joões Carlos Martins serão necessários para apresentar às crianças música clássica num projeto itinerante que leva eruditismo às periferias do Brasil? Quem sabe assim as crianças poderão escolher se gostarão de funk ou música erudita.

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É muito fácil achincalhar publicamente uma menina favelada que “rala a tcheca no chão” ou se acaba no arrocha, mas alguém foi lá mostrar a ela alguma coisa diferente? Quantas pessoas já se deram ao trabalho de montar alguma oficina de balé em alguma associação comunitária ou centro social urbano de um bairro periférico?

Até lá, retruquemos nossos preconceitos dentro de nós mesmo antes de proferir opiniões que em nada contribuem para mudar o cenário em que vivemos atualmente. Se somos capazes de promover mudanças, que a promovamos positivamente. Sejamos, nesse sentido, construtivistas.

 

 

 

Fonte: Escrevivência

 

 

 

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