Jefferson Dionísio, que trabalhou como catador de papelão ‘pula’ mestrado e é chamado para doutorado no exterior

Jefferson Dionísio tem 24 anos e é o primeiro de sua família a completar o ensino superior.

Por Andressa Barboza, G1 Santos

Jefferson Dionísio de Souza, homem negro, em pé com uma mala de viagem com a bandeira do Brasil.
Jefferson Dionísio de Souza foi ao Chile para cursas doutorado em Filosofia — Foto: Arquivo Pessoal

Um jovem de 24 anos da periferia de São Vicente, no litoral de São Paulo, conquistou uma vaga no curso de doutorado em Filosofia em uma universidade no Chile após ter que catar papelão na rua para pagar a passagem de ônibus para estudar. Jefferson Dionísio já começou o curso e, em entrevista ao G1, contou as dificuldades da trajetória.

Jefferson é o primeiro da família a cursar uma faculdade. O jovem, que cresceu em um bairro da Área Continental da cidade, diz que sempre estudou em escola pública. Ainda adolescente, começou a trabalhar na Prefeitura de São Vicente por meio do Centro de Aprendizagem e Mobilização Profissional e Social (Camps) e, aos 18 anos, começou a cursar Filosofia em uma universidade em Santos.

“Eu ganhava R$ 668 de bolsa-auxílio e a faculdade era R$ 660. Todo o meu salário ia para os ­estudos, não sobrava nada. Cheguei a trancar a matrícula no primeiro ano pois não tinha mais como pagar. Um ano depois, em 2015, eu voltei para a universidade, mas então fiquei desempregado”, conta.

Sem trabalho, Jefferson conseguiu completar o primeiro e segundo semestre com abono temporário na mensalidade. Já no segundo ano, foi contemplado com uma bolsa de estudos do Programa Universidade para Todos (ProUni). Apesar disso, o jovem tinha dívidas de mensalidades anteriores acumuladas.

Jefferson Dionísio de Souza, em uma biblioteca com um livro na mão.
Jefferson Dionísio de Souza disse que sempre estudou em escolas públicas de São Vicente (SP) — Foto: Arquivo Pessoal

“As mensalidades que eu devia somavam quase R$ 5 mil. Eu não tinha como pagar. Foi uma fase muito difícil, até mesmo constrangedora. Comecei a ir de bicicleta para a aula e até catei papelão na rua para vender. Um amigo viu a situação e disse que me ajudaria, que eu não precisava disso”.

Com a ajuda dos amigos, que chegaram até a fazer uma vaquinha, Jefferson conseguiu pagar a dívida com a universidade. “Eu ia sempre com a mesma roupinha, os mesmos sapatos. Todo dia igual, não tinha dinheiro para comprar mais nada”, relembra.

Ao se formar, Jefferson começou a dar aula em escolas públicas e, pelo seu destaque como bom estudante, professores da universidade deram a ideia dele tentar mestrado fora do país. O jovem, então, viajou de ônibus para o Chile, onde visitou universidades e foi incentivado a postular vaga para mestrado e doutorado.

Jefferson e seus pais em sua formatura
Jefferson é o orgulho dos pais que sempre acreditaram em seu potencial — Foto: Arquivo Pessoal

No fim de 2018, Jefferson recebeu a notícia de que havia sido aprovado no doutorado, sem ao menos passar pelo mestrado. “Meu nome estava na lista de aprovados, entre americanos, franceses, alemães e outros estrangeiros. Passei em terceiro lugar. Foi incrível”.

Com 24 anos, Jefferson já está morando no Chile e cursa doutorado em Filosofia na Pontificia Universidad Católica de Valparaíso (PUCV). A previsão é que o jovem conclua o curso em 2023 e, segundo ele, ainda é cedo para saber se volta ao Brasil ou se tentará seguir a vida fora do país.

“Tenho muito que agradecer a todos que acreditaram em mim. Minha família nunca duvidou da minha capacidade e sempre me apoiou. Hoje estou realizando um sonho graças aos professores, aos amigo e a todos que me incentivaram”, finaliza.

Jefferson de terno com um livro na mão.
Jefferson Dionísio de Souza foi ao Chile para cursas doutorado em Filosofia — Foto: Arquivo Pessoal

+ sobre o tema

Professores indígenas ocupam Secretaria de Educação da Bahia

  Um grupo de 60 professores, alunos e pais indígenas...

Antonio Candido indica 10 livros para conhecer o Brasil

  Quando nos pedem para indicar um número muito limitado...

Resultado da segunda chamada do ProUni sai nesta segunda-feira

Brasília – Os estudantes que se inscreveram no Programa...

Em São Paulo, 46% dos alunos admitem ter passado de ano sem aprender a matéria

Camila Maciel - Repórter da Agência Brasil Quase metade (46%)...

para lembrar

Estudantes protestam contra exigência do Enem para Ciência sem Fronteiras

Nova regra para concorrer a bolsas de estudo no...

USP assina acordo experimental para participar do Enade

Além da prova, a universidade estadual paulista participará das...

A campanha dos professores para denunciar Paes e Cabral

Charge do Vitor Teixeira, via Facebook do site do SEPE,...
spot_imgspot_img

Como a educação antirracista contribui para o entendimento do que é Racismo Ambiental

Nas duas cidades mais populosas do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo, o primeiro mês do ano ficou marcado pelas tragédias causadas pelas...

SISU: selecionados têm até quarta-feira para fazer matrícula

Estudantes selecionados na primeira chamada do processo seletivo de 2024 do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) têm até quarta-feira (7) para fazer a matrícula...

Contra o racismo, educação

Algumas notícias relacionadas à temática racial chamaram a nossa atenção nesta semana. Uma delas foi a iniciativa de um grupo de entidades de propor...
-+=