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Jovens negros encontram em movimentos sociais a força para mudar de vida

Apesar da relevância social, Pesquisa sobre Organizações de Juventudes Negras mostra que elas precisam de apoio

Por Carmen Vasconcelos, do Correio 24 Horas

A pesquisadora Juliana Yade destaca como as organizações não governamentais são importantes para capacitar e fortalecer os jovens negros no Brasil (Foto: Imagem retirada do site Correio 24 horas)

A juventude negra brasileira está se instrumentalizando para garantir uma vida melhor e mais digna, mesmo nas situações onde é negada à cidadania e o direito de ter direito. Isso foi o que mostrou a Pesquisa Nacional sobre Organizações de Juventudes Negras, realizada pelo Itaú Social e pelo Observatório de Favelas.

As razões históricas e culturais mostram que o Nordeste e o Sudeste são as regiões que concentram a maioria das ações realizadas por organizações não governamentais em favor da população negra, respondendo por 37,5% e 30%, respectivamente.

A pesquisa mostrou ainda que 70% das organizações pesquisadas concentram suas atividades exclusivamente na juventude e 92% contam com jovens de até 29 anos entre seus colaboradores. Entre os temas que prevalecem nessas organizações, seja como ferramenta de luta ou como atividade meio, estão: arte e cultura (33%), direitos humanos (27%), educação (27%) e gênero (21%).

O estudo partiu de um mapeamento inicial de 200 entidades do movimento negro. Em seguida, a equipe de pesquisa desenhou um perfil das organizações de juventudes negras, usando como base informações detalhadas fornecidas por 40 Organizações da Sociedade Civil (OSCs), responsáveis por 63 projetos em todo o país.

Desafios de sustentabilidade

Para uma das coordenadoras da pesquisa, a educadora Juliana Yade, num cenário de crise, as soluções colaborativas como as parcerias, o compartilhamento de espaço, serviços e metodologias com outras entidades, sem envolver recurso financeiro, vêm ganhando um espaço privilegiado. “Atualmente, 28 dos 63 projetos participantes só se viabilizam por meio de parcerias sem qualquer recurso financeiro, o que traz desafios para sua implementação e continuidade”, diz a pesquisadora.

Juliana salienta ainda que o estudo terminou por evidenciar um cenário incerto para a manutenção das organizações, especialmente pelo fato delas não contarem com financiamento constante e permanente, tornando a captação de recursos uma tarefa árdua em organizações com poucos colaboradores (78% delas têm no máximo 30 integrantes). “A maioria das OSCs depende de projetos que, em geral, duram 12 meses. São poucos os que recebem apoio institucional”, afirma Juliana.

Apesar desse contexto tão desalentador, a pesquisadora é enfática em ressaltar que é na coletividade que esses grupos sociais se fortalecem. “A presença desse público jovem faz com que essas iniciativas possuam muito vigor”, afirma. Para a especialista em educação do Itaú Social, entre os estados nordestinos, chamou atenção o Ceará, que, aparentemente, não possui populações negras, mas onde a presença de entidades voltadas para essa população garantiu a perpetuação dos negros em diversos espaços, possibilitando a visibilidade dessas comunidades.

Uma das ações do Instituto Mídia Étnica – a Ocupação Afrofuturista – discutiu tecnologia e inovação junto à juventude negra soteropolitana (Foto: Imagem retirada do site Correio 24 horas)

Modelo baiano

Criada em 2005 por um grupo de jovens negros com formação na área de comunicação, o Instituto de Mídia Étnica é um desses exemplos de organização não governamental que vem ajudando a juventude de Salvador a criar estratégias de sobrevivência, formação e resistência numa sociedade excludente e ainda muito preconceituosa.

Atualmente, o espaço do Instituto, localizado no Areal de baixo, no Dois de Julho, funcionacomo um coworking para empreendedores negros que atuam na área de comunicação, além de uma incubadora que está preparando cinco empreendimentos. A organização também é responsável por abastecer de conteúdo a TV Correio Nagô e o portal na internet, além de desenvolver projetos, como a Ocupação Afrofuturista, que teve sua última edição realizada na Estação da Lapa e discutiu a tecnologia e a inserção do negro nesse ambiente.

“O senso comum associa a tecnologia e a inovação aos orientais, por exemplo, mas nunca pontua que negros também produzem e inovam”, completa o diretor Rosalvo Neto, reforçando que as Ocupações buscam transformar esse preconceito, além de mostrar as ferramentas para desenvolver as ferramentas de acesso necessárias para incluir os jovens negros dentro de uma realidade nova e disruptiva.

Apesar de terem uma rotina intensa de atividade, os membros do Instituto precisam se desdobrar em funções outras, de modo que a ONG e seus membros possam sobrevivem sem a dependência de recursos externos ou a interrupção de atividades. “Apesar dos membros da organização desempenharem atividades paralelas, percebemos que se não pudermos dedicar um tempo para atuar em nome dessa coletividade, não viveremos bem, sobretudo por perceber que essa juventude é criativa, inteligente e capaz de fazer muito com muito pouco”, destaca Rosalvo.

Vale salientar que, desde a sua criação, o Instituto conseguiu beneficiar quase mil jovens diretamente e mais outros tantos indiretamente, inclusive em outras partes do mundo, uma vez que o Instituto mantém canais de comunicação na internet, a exemplo do canal no Youtube e o portal Correio Nagô.

Uma das ações do Instituto Mídia Étnica – a Ocupação Afrofuturista – discutiu tecnologia e inovação junto à juventude negra soteropolitana (Foto: Imagem retirada do site Correio 24 horas)

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