Julgamento de jovens brancos relança debate sobre racismo na África do Sul

Um grupo de jovens brancos começou ontem a responder em tribunal por um video em onde mostravam cinco negros, funcionários de uma universidade, a ingerir uma pasta que continha urina.

 

 

 

O objectivo do vídeo era provar que a integração de alunos negros na residência universitária não iria funcionar. E, para isso, um grupo de jovens brancos da Universidade de Free State, na África do Sul, pegou em quatro mulheres e um homem, funcionários da escola, negros, e filmou-os. Primeiro, a beber cerveja. Depois, num campo desportivo, a correr e jogar com uma bola. E, por fim, a levar à boca uma mistela que o espectador tinha visto a ser preparada: uma pasta castanha que levou dentes de alho, passou alguns segundos no micro-ondas, e foi transportada para a casa de banho para um dos alunos lhe misturar a sua urina.

 

 

Foram dez minutos e dez segundos de imagens. Mas as consequências do filme, exibido há dois anos, arrastam-se até hoje, dia em que os seus autores – Johnny Roberts, Schalk van der Merwe, RC Malherbe e Danie Grobler – vão começar a responder em tribunal por “atentado à dignidade”.

 

O acontecimento extravasou largamente os portões da universidade, em Bloemfontein, e fez emergir um debate nacional sobre o racismo, 16 anos passados sobre o fim oficial do apartheid. Ainda que na própria escola a polémica esteja silenciosa.

 

 

 

“Houve uma grande cólera quando o vídeo saiu, mas essa cólera apagou-se”, comenta à AFP Moses Masetha, presidente da associação de estudantes. “Muitos alunos nem sabem que o julgamento vai começar”. Mas é ainda o próprio Masetha – o primeiro líder negro da associação, numa universidade que nos seus 105 anos teve sobretudo alunos brancos – quem afirma: “O racismo é há muito uma realidade no campus”.

 

 

E é isso que o repórter da agência francesa constata. Grupos formados em função da cor de pele e discursos que não escondem as tensões. Uma realidade distinta da sociedade arco-íris proclamada por Nelson Mandela. “Temos línguas diferentes, culturas e origens diferentes. Não temos nada em comum. Nada que nos ligue. Então, por que é que temos de nos misturar uns com os outros?”, lança Tisetso Masha, de 19 anos. “Isto não faz de mim racista.”

 

 

A investigadora Nthamaga Kgafela, do Instituto Sul-africano das Relações Raciais, afirma ao PÚBLICO que “este julgamento não vai abrir feridas, mas as feridas que estavam cobertas com gesso serão provavelmente destapadas e expostas”. Não é nada de novo, ressalva. “É um processo que já estava a acontecer quando este incidente veio a público”.

 

 

Um estudo do Instituto para a Justiça e Reconciliação mostrava no mês passado que menos de metade dos sul-africanos acredita que as relações raciais melhoraram desde o fim do apartheid. Num dia normal, uma em quatro pessoas não falará com ninguém de outra cor, e duas em cinco considera o “outro” como “não-confiável”. E se, em 2005, 86 por cento da população acreditava num “futuro feliz para todas as raças”, a percentagem caiu agora para 62 por cento.

 

 

Racismo é visível

“Existem elementos de racismo visíveis no país”, continua Nthamaga Kgafela. “Organizações como a Boermag [de extrema-direita] ainda têm apoiantes, alguns deles crianças que estão destinadas a tornar-se adultos racistas. O apoio a locais como Oranje – uma área exclusivamente branca no centro da África do Sul, que a comunidade quer gerir de forma independente do resto do país, com a sua própria moeda e Constituição – é também um exemplo dos elementos racistas”.

 

A África do Sul continua a ser um país de “duas economias, a preto e branco”, como descreveu o ex-Presidente Thabo Mbeki. As mudanças introduzidas pelo primeiro Governo do ANC (African National Congress, no poder) em 1994, não deram os frutos esperados. A minoria branca constitui ainda a maior parte da população rica e com formação, e os negros são sobretudo pobres e sem estudos.

 

Há também quem se queixe de um racismo institucional no trabalho, “onde um branco será mais facilmente promovido, em detrimento de um negro mais qualificado. Isto é evidente na estrutura da maioria das empresas, que têm brancos no topo salpicados com alguns negros para cumprir as quotas, e pessoas negras nos quadros intermédios e sobretudo baixos”, diz a investigadora.

 

O desemprego ronda os 25 por cento (oficialmente, porque a taxa real será muito mais elevada, segundo alguns analistas), a enorme maioria composta por negros. Comparando com a situação de há duas décadas, “os desafios são idênticos”, comentava à Reuters o analista político Nic Borain quando se assinalaram os 20 anos sobre a libertação de Nelson Mandela, a 11 de Fevereiro. “Se estabelecermos três categorias, há o desemprego, as desigualdades com uma camada racial e a pobreza. As mudanças entre 1990 e 2010 não são profundas”.

 

O Banco Mundial estima que 34 por cento dos 50 milhões de sul-africanos vivam com menos de dois dólares por dia. E que as diferenças de rendimentos aumentaram. Mas a Reuters referia que há uma forte classe média negra a emergir, a geração das crianças nascidas depois de 1994 (ano das eleições que levaram Mandela a tornar-se no primeiro Presidente negro do país), conhecidas como “nascidos livres”.

 

O desafio maior, avança a investigadora, é que o racismo atinge geralmente “os membros mais vulneráveis da sociedade, que se tornam nas vítimas das suas formas mais violentas e adversas. É o caso dos funcionários da Universidade de Free State”.

 

Fonte: Público

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