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A juventude negra reivindica a construção de novas narrativas

I’sis Almeida e Caio César, expoentes de uma nova geração disposta a descrever a realidade sem estereótipos

Por Brenda Cruz Do Carta Capital 

I’sis Almeida e Caio César: comunicação e educação/Mavi Morais e Edson Jonathan

Falar sobre a juventude negra e tantas outras “minorias sociais” no Brasil é atentar-se constantemente às narrativas e aos discursos em construção, sobretudo quando parte de um imaginário racista e perverso que as configurações de ferozes e vitimistas são desempenhadas por estes.

A ideia de subverter tais idealizações se faz presente especialmente no século XXI, época em que o protagonismo tem ressignificado espaços, ruminado o consumo, as produções de símbolos e signos e fabricado novos pertencimentos identitários.

Refletir acerca das produções atuais, estejam elas relacionadas à literatura, artes, moda, música ou aos conteúdos produzidos por grandes veículos de massa ou web, é imprescindível, pois pensar narrativas capazes de refutar o protagonismo que até então é usurpado por um contingente extenso de perfis padronizados, perpassa não só uma demanda de diversidade estética ou por um representante de uma causa, mas sobretudo, a necessidade de uma diversificação das narrativas.

O TEDX UniRio da comunicadora social e youtuber Gabi Oliveira, intitulado “Um novo olhar sobre a pessoa negra; novas narrativas importam”, nos remete por diversos momentos ao TEDGlobal da escritora Chimamanda Adichie, gravado em 2009, e que leva o nome de “O perigo de uma única história”, os emocionantes depoimentos promovem uma reflexão acerca da necessidade de descentralização de narrativas e a pensar sobre como são construídas as histórias que se fazem presentes no nosso imaginário.

Em seu discurso, Chimamanda fez uma intervenção extremamente simbólica:

“Há uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é “nkali”. É um substantivo que livremente se traduz: ‘Ser maior do que o outro’. Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do ‘nkali’. Como é contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história de outro, mas de fazê-la a história definitiva daquele.”

Contextualizar a potencialidade do discurso de Chimamanda e daquele promovido por Gabi com a realidade da juventude negra no Brasil é tornar possível a desconstrução de um lugar que infelizmente associa-se à juventude negra.

A existência do imaginário de marginalidade é fomentada por uma história construída sobre uma visão colonial, racista e classista na defesa de uma centralização de poder.

Ressignificar esses locais é contrapor um ideário único da existência e representação dessas histórias, descentralizar o protagonismo de um perfil homogêneo em qualquer que seja o segmento, legitimar a subjetividade dos atores em questão fazer ecoar vozes que protagonizam seus espaços de pertencimento e que por muitas vezes não têm seus discursos ou produções valorizadas e sobretudo, dar espaço para que novas narrativas sejam partilhadas.

E pra fortalecer a noção dessas intervenções, entrevistei duas potências em segmentos diferentes de atuação, mas que se intercruzam ao serem produtores de conteúdo para web.

I’sis Almeida, com apóstrofe, tem 21 anos, vive em Salvador, possui formação técnica em Comunicação Visual pelo SENAI, completou o curso superior de Bacharelado Interdisciplinar em Artes pela UFBA e atualmente cursa Jornalismo na mesma universidade. É também coordenadora do Portal Black Fem, veículo com intuito de produzir artigos e notícias para adolescentes e jovens negras.

Brenda Cruz: Produzir conteúdo na web com um recorte em adolescentes negras é construir um novo ambiente para promoção de narrativas que ressignificam o espaço virtual. Como surgiu a ideia do portal? E qual a importância desse movimento?

I’sis Almeida:  A ideia do portal surgiu de um misto de várias observações, a primeira delas é que na nossa página no Facebook acumulavámos mais de 200 mil curtidas. Tínhamos, no entanto, muito pouco engajamento nos conteúdos relativos à informação. Os conteúdos imagéticos – fotos, vídeos de mulheres negras -, tinham muito mais resultado. Então fomos pesquisar e perceber que essa faixa etária de 12 a 29 anos estava muito presente. Tínhamos consciência de que mesmo não produzindo conteúdo autoral, desempenhávamos um papel importante no espaço do Facebook, nossa missão se tornou então, conseguir que o conteúdo que estávamos “criando” chegassem até a elas.

BC: E o que fazem de diferente?

IA: Na minha construção enquanto mulher negra sempre consumi muito da internet para me fortalecer, consumia diversos veículos com recorte de raça, de gênero, ou até mesmo de gênero e raça. Nunca vi, porém, nada que tivesse recorte de gênero e raça, específico pra essa faixa etária. E essa faixa etária da adolescência sempre me preocupou, pois muita coisa que tá na internet, que até eu mesma consumia, eu notava uma barreira no quesito linguagem.

Por meio dessas observações eu me perguntava: “Por que elas não engajam quando a gente posta que mulheres negras são as que mais morrem no Brasil? E por que elas se engajam tanto quando a gente posta uma foto, por exemplo, de um casal negro?”.

Cheguei à conclusão de que na adolescência tudo que chega é imagético. Um outro questionamento era: “Será que mulheres negras, com algum repertório, com alguma experiência de vida, não podem fazer um esforço para minimamente tentar transformar a vida de adolescentes negras através da informação?”

BC: Qual a importância desse movimento? E como você pensa o Portal Black Fem dentro dele?

IA: A importância desse movimento se dá por que inevitavelmente é hoje que esse adolescentes, – sejam eles negros ou brancos -, estão extremamente inseridos nessa cibercultura. Esses adolescentes representam a cultura e a política brasileira, de um certo modo. E sobretudo, as mulheres negras necessitam de um espaço onde elas sejam acolhidas em um espaço que seja tanto pra falar sobre as questões raciais e de gênero, quanto pra falar sobre as questões pertinentes à adolescência.

Acredito que as adolescentes negras são o futuro de uma geração que pode movimentar ainda mais a sociedade que a gente vive. A gente precisa criar algo direcionado a elas. Isso é sobre a ressignificação de um espaço que, sabemos, é dominado por uma classe, uma raça e um gênero específico.

Talvez, o  diferencial do Portal seja isso, produzir um espaço construído por 15 mulheres negras com diversas subjetividades, pensando nessa faixa etária e nessa linguagem que as engaja. A gente não pode esquecer que essas adolescentes lá na frente podem se tornar formadoras de um novo espaço virtual, que já repense com mais cuidado ainda sobre outras minorias.

Sair de um contexto com recorte de gênero também é de extrema importância ao se pensar as narrativas, conteúdos e sobretudo, os espaços que estão sendo ressignificados.

Em uma breve busca no Google, ao pesquisar o termo “jovens negros”, os resultados que surgem em sua maioria são notícias e artigos atrelados ao genocídio destes homens, que segundo o Atlas da Violência 2017 corresponde a 78,9% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios, ou o encarceramento em massa.

Caio César, tem 23 anos, é graduando em geografia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, professor, youtuber, escritor e pesquisador no campo das masculinidades negras.

Brenda Cruz: Enquanto educador negro, qual a urgência que você sente da construção de novas narrativas? Qual seria o principal papel dos profissionais da educação nesse processo?

Caio César: Embora a representatividade precise ser debatida e levada a sério dentro de um contexto aprofundado, ela, por si só, é muito importante pra construção de uma história plural e mais verdadeira, principalmente pra grupos minoritários. O principal papel do educador é estimular o ser crítico dos alunos e trazer uma educação que dialogue com a realidade deles, trazendo novas perspectivas.

BC: Além de educador, você também é produtor de conteúdo para web. A internet tem proporcionado maiores possibilidades de ressignificar concepções socialmente deturpadas acerca da juventude negra? Qual a importância de subverter esse local marginalizado e estereotipado em que ainda se encontra a juventude negra?

CC: Com certeza. Embora não seja 100% democrática, a internet trouxe a possibilidade de dar voz e visibilidades a novos cidadãos,que dentro dos espaços tradicionais de mídia não tinham tanta abertura. E a juventude negra estando em grande número nessa plataforma tem acessos a outros conteúdos que não teriam de forma tradicional. A importância disso tudo é construir novas possibilidades. E reconstruir uma autoestima minada por um sistema racista. Quando nós, negros, enxergamos outros negros em posições que nunca imaginamos, aquilo passa a ser mais real pra gente, mais palpável, mais possível.

Atuando em nossas comunidades, exercendo profissões enquanto digital influencers, produzindo moda, promovendo educação criando e coordenando portais de comunicação e notícias, empreendendo, dominando as humanas, as exatas, as biológicas e as artes, do Norte ao Sul do País, nós, jovens negros, oriundos das periferias ou não, contrariamos as estatísticas que tanto nos perseguem, e desempenhamos o papel de produtores das nossas próprias histórias.

E é ao legitimar nossa existência, o nosso trabalho e as nossas aspirações que produzimos novas narrativas, em honra aos que nos antecederam, em resgate ao que nos foi tomado, em reconstrução constante da nossa identidade e da nossa autonomia enquanto coletivo, que potencializamos as nossas narrativas.

“Eu gosto sempre de me afastar da ideia de que nós estamos construindo um contranarrativa, isso faz parecer que a gente tá sempre partindo do outro, quase que uma oposição, e não, a gente tá construindo uma nova narrativa. Há um tempo atrás eu cheguei a conclusão que eu não tinha mais tempo pra desconstruir, o meu objetivo se tornou, construir. Construir pessoas que entendem seu lugar no espaço, entendem seu lugar nessa sociedade, que sabem os seus direitos, que vão descobrir que a história delas não se resumem a escravidão e serventia, que fomos reis e rainhas, inventores, matemáticos, que nós precisamos cuidar da nossa saúde física e mental, lutar contra esse genocídio. A minha idéia é construir. E agora eu tenho uma pergunta pra você… Que nova narrativa você quer colocar no mundo? Dentro e fora da internet?”
(Gabi Oliveira, TEDXUNIRIO, 2018)

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