sábado, janeiro 15, 2022
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Kechiche choca com tragédia do corpo negro

Por: ANA PAULA SOUSA

Diretor tunisiano leva à tela história de africana explorada como fera

O filme “Vénus Noire” dividiu a plateia ontem no festival de cinema de Veneza ao retratar caso real do século 19


Autor de uma obra sólida tanto estética quanto politicamente, o tunisiano Abdellatif Kechiche terá de enfrentar, pela primeira vez, um questionamento ético.

“Vênus Noire” (Vênus negra), memorável filme exibido em competição, arrebatou parte da plateia e desagradou outra parte.
A divisão evidenciou-se durante a entrevista à imprensa em Veneza, aberta com uma pergunta sobre a (re)exploração da tragédia que o filme pretende retratar.

Vênus é a africana Saartjie Baartman que, no início do século 19, foi tirada de seu país e levada para a Europa.

Em Londres e Paris, ela fazia espetáculos como uma fera que era tão ameaçadora quanto sedutora.

Esses números, mostrados várias vezes, são o fio condutor do filme. A cada cena, é mais doloroso vê-los.

Questionado sobre a “multiplicação” da cena, o cineasta disse, simplesmente, não tê-la multiplicado.

“Há uma evolução rumo a um corpo cada vez mais explorado, fatigado até a mutilação. Quero mostrar o olhar sobre esse corpo.”

Consciente da dureza do filme, acrescentou: “Não me preocupo com a resistência do espectador”.

XENOFOBIA
“Vênus Noire” impõe ao público uma reflexão sobre seu próprio olhar. Apesar de recuperar uma história do século 19, Kechiche quer provocar sensações que remetam ao presente.

O cineasta começou a pensar nesse filme no ano 2000, quando a África do Sul solicitou, à França, a devolução do corpo de Baartman.

Seus restos estavam no Museu do Homem. Com o corpo, voltou para a África a estátua feita pela Academia de Medicina, que usou Baartman, contra sua vontade, para criar uma teoria científica.

“Esse corpo continuou sendo explorado no século 21”, diz Kechiche.
Outro aspecto da história a atrair o cineasta, que tratou da vida dos imigrantes na Europa no premiadíssimo “O Segredo do Grão”, foi a construção do olhar coletivo.

“As teorias cientificas da época impulsionaram o fascismo. É importante retomar esse passado porque a Europa vive um discurso xenófobo e racista”, afirma.

No papel da mulher que é, para todos, um corpo raro e lucrativo, mas inferior, está Yahima Torrès, que nunca havia trabalhado como atriz.
Como os personagens, somos expostos ao seu corpo. Mas somos expostos também ao seu rosto, à sutileza de cada expressão e ao mistério de suas poucas palavras.

 

 

Fonte: Folha de S.Paulo

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