No orun: A Kizomba de Pedrina

Segundo o candomblé, o ser humano é regidos não por um, mas por três orixás – que são os deuses africanos que correspondem a pontos de força da natureza. Há o orixá de defesa; o da personalidade, ou orixá de cabeça; e o orixá de proteção, que vai abrindo “os caminhos”. “São essas três forças que guiam a pessoa em sua caminhada, porque para o candomblé a vida é uma caminhada”, explica a professora e consultora de marketing Pedrina de Deus.

Guiada por Ogum (seu orixá de frente), Exu (cabeça) e Iansã (defesa), essa paraense de 64 anos (20 dos quais vividos em Fortaleza) fez de sua caminhada uma trajetória de retidão e de luta. “Essa é uma combinação conflituosa de orixás, mas não no sentido bélico. É uma tríade que trabalha com muito senso de justiça. São orixás muito fortes. Às vezes eles me engessam, porque me obrigam a não admitir algo que não seja no sentido da retidão”.

Em 1967, quando a revista Realidade trouxe, sob a inscrição “Mulher brasileira” uma loura de olhos verdes numa de suas capas, Pedrina provocou seus colegas de escola em Belém. “A revista teve dois temas censurados: fotos sobre o corpo da mulher e uma reportagem com a mãe de santo Olga de Alaketu. A única negra que haveria na edição foi censurada pelo governo – eu tinha 17 anos e fiquei decidida a botar o tema (da condição da mulher negra) na rua!”, lembra.

Começava assim uma militância que hoje conta quase 50 anos dedicados não só ao movimento negro, mas principalmente ao movimento de mulheres negras, no qual Pedrina se tornou referência nacional. Uma luta de combate ao racismo que, no lugar da ladainha dos clichês e da vitimização inócua, mistura altivamente festa e resistência; alegria e enfrentamento.

“Pedrina, negra, cabeça raspada já na década de 70!, brincos exagerados, olhar firme, meio doce, meio belicoso”, descreve o sociólogo e historiador carioca Amauri Mendes Pereira, que prepara um livro sobre a professora. “É uma personagem emblemática na trajetória do movimento negro”, afirma.

Nos anos 70, Pedrina participou (e mais tarde dirigiu) o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), no Rio de Janeiro, o que lhe permitiu se aproximar do samba e de outras expressões culturais afro-brasileiras – e lhe ajudou a formular sua síntese de negritude festiva. “Era a época da ditadura, a forma que a gente tinha de discutir a questão racial do ponto de vista político era camuflado no cultural. E o cultural, para o negro, era o samba… Era como a gente conseguia se encontrar”, lembra a fundadora, nos anos 80, do bloco Baoobab, em Vila Isabel. Nessa época, Pedrina participava ativamente da escola de samba do bairro – inclusive colaborando no desfile de 1988, quando a Vila levou o título com o enredo “Kizomba, a festa da raça”.

Abolição no Ceará

Em sua kizomba pessoal, nessa caminhada que mistura festa e resistência, Pedrina segue denunciando mas também cantando a condição dos negros no Ceará e no Brasil. Sobre os 130 anos da abolição da escravatura no Estado, diz que foi apenas uma questão de conveniência econômica e que os negros cearenses precisam fazer um resgate mais amplo de sua história. “A lei que aboliu a escravidão foi quase monossilábica: ‘estão libertos os escravos’. E pronto”, defende. “É preciso um movimento negro forte pra fazer o resgate cultural dessa história e dessa memória”.

Sobre as cotas raciais, ela afirma que são instrumentos importantes mas que deverão se esvaziar naturalmente. “A tendência da cota é ela se acabar. Não precisa ninguém acabar. Basta ter justiça social que ela acaba. A cota só existe como um motor. Na hora em que começo a ter acesso à educação, ela se acaba”, diz.

Em Fortaleza, onde se reencontrou com o samba nos antigos pagodes da Dona Mocinha, na Praia de Iracema, Pedrina ajudou a criar o Encontro de Compositores de Samba (Eccos), um clube de músicos que se reúne mensalmente em sua casa. “O samba cearense me cativou com sua molecagem poética. O povo não elitizado de Fortaleza é uma maravilha cultural e humana”, declara em trecho do próximo livro de Amauri Mendes. “Sou apaixonada pelo Rio, namoro Brasília; amo Belém. Mas Fortaleza fortalece o que sou e me deixa viver suburbanamente como gosto de viver”.

Pedrina é um dos verbetes do livro Mulheres Negras do Brasil, de Schuma Schumaher e Erico Vital Brazil, editado em 2006 pelo Senac e pela Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh).

Formada em Comunicação Social pela UNB, tornou-se publicitária no Rio de Janeiro, onde viveu entre 1975 e 1993. Veio para Fortaleza auxiliar um amigo que trabalhava com consultoria de marketing e acabou fixando residência.

Apesar de ser uma entusiasta do candomblé, Pedrina diz que sua religião são “todas as religiões”. “Porque se todos os caminhos levam a Deus, eu tenho todas as religiões. Mas faço um adendo: todas as religiões que praticam o que pregam”

Sobre os recentes casos de justiçamento no Rio de Janeiro, em que um adolescente negro foi amarrado em um poste na Zona Sul da Cidade por supostamente ter praticado um assalto, Pedrina lembra que essa prática não é nova. “Tenho muitos arquivos aqui em casa que mostram a mesma coisa. A polícia pegava e amarrava o pescoço de um negro no pescoço de outro. Isso sempre existiu e volta. E volta porque a gente não faz a reflexão”.

Kizomba é uma palavra do dialeto quimbundo, de Angola, que significa ao mesmo tempo confraternização e resistência. É festa e é luta – por liberdade e por justiça.

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