Liniker canta Forever Young em campanha sobre a expectativa de vida de pessoas trans

Filme alerta que, no Brasil, devido à violência e ao ódio, a expectativa de vida de pessoas trans é de apenas 35 anos, metade da expectativa da população cisgênero

Da MARIE CLAIRE

Liniker (Foto: Caroline Lima)

No Brasil, devido à violência e ao ódio, a expectativa de vida de pessoas trans é de apenas 35 anos, metade da expectativa da população cisgênero, de acordo com dados da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). Este dado é brutal e é a mensagem de uma campanha que traz Liniker dando voz a versão inédita de Forever Young da banda Alphaville, que completa 35 anos em 2019.

O filme foi produzido para o portal de notícias LGBTQI+ Athos. A Young & Rubicam criou a campanha e convidou a produtora FAUNA para desenvolver. Com base em sua metodologia, a produtora buscou montar uma equipe com lugar de fala para narrar esta história. A convite da produtora, a roteirista Luh Maza, uma das principais roteiristas trans em atividade hoje no Brasil, se juntou a pesquisadora Uni Corrêa para desenvolverem juntas não só esse enredo, mas suas nuances.

Os versos da música Forever Young se tornaram a trilha sonora de um curta-metragem sobre o amor de Guto e Onika, um casal real e transcentrado. “Esta música um hino popular, acessa a memória afetiva de muitas pessoas, e resignificamos seus versos para transmitir esse dado tão alarmante que é a mortalidade jovem das pessoas trans no Brasil. Curiosamente a música completa 35 anos em 2019 – e segue viva, assim como esperamos seguir vivos enquanto trans para muito além da estatística. A escolha da Liniker para gravar a música era inevitável, não existia voz melhor para essa campanha que uma das maiores cantoras da atualidade que sente todo impacto de ser trans e negra no Brasil. A interpretação soul dela mistura amor e protesto, o que sintetiza perfeitamente nossa mensagem”, explica Luh Maza em entrevista à Marie Claire.

Luh ainda conta porque a escolha do casal Guto e Onika: “Foi feita uma seleção com homens e mulheres trans de São Paulo e nessa ocasião apareceram alguns casais reais e quando vimos Onika e Guto bateu a certeza que eles representavam perfeitamente o que queríamos mostrar: o amor transcentrado que fortalece e humaniza. Pessoas trans se amando é algo que ainda não está no imaginário popular e é uma verdadeira revolução ao colocar em cheque as limitações culturais de gênero e sexualidade e fortalecer nossa autoestima descondicionando a dependência de afeto e aceitação da cisgeneridade.”

90% das mulheres transexuais no Brasil acabam na prostituição por abandono das famílias e falta de oportunidades de trabalho. Por isso, a roteirista diz que a presença de atores trans é fundamental para a visibilidade junto ao público, “mas também urge que equipes criativas tenham o máximo de representatividade e sintonia com a abordagem de suas pauta, assim se ganha em realidade, evita equívocos e nossas narrativas podem ser solidificadas. Digo mais: além das funções criativas, é muito importante abrir espaço para pessoas trans nas áreas técnicas e demais atividades. Um mercado que se pretende plural como o audiovisual e a publicidade precisa ter funcionários trans. Se por um lado só através da convivência e recorrência é possível naturalizar o olhar e desconstruir preconceitos, é preciso também criar mecanismos de formação e que estimulem a noção de que todos os espaços podem ser ocupados por todos e iniciativas inclusivas prestam à reparar a assimetria social que elitiza certos meios e marginaliza certos indivíduos. Pessoas trans devem ocupar a televisão, a comunicação e também a educação, a política, a economia e qualquer outra esfera da sociedade onde desejem atuar profissionalmente. Estamos preparados para isso”, afirma Luh.

“Esta foi a primeira vez que não fui a única trans em uma equipe. Todas nós temos histórias próprias para contar e, hoje em dia, temos uma parcela pequena de representatividade, especialmente em campanhas para marcas de moda. Mas sempre com um toque de glamourização. Nós não queremos só isso. Queremos nos sentir realmente representadas”, diz Uni Corrêa, pesquisadora do filme.

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