segunda-feira, setembro 20, 2021
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Longa-metragem documental junta história e arte de mulheres negras gaúchas no cinema

“Um Mergulho por Mares Ainda Não Navegados” é o mais novo projeto da historiadora, fotógrafa e pesquisadora gaúcha

A fotógrafa autodidata Irene Santos pretende evidenciar o trabalho de mulheres negras gaúchas no cinema nacional, desenvolvendo um longa-metragem documental, através do projeto “Um Mergulho por Mares Ainda Não Navegados”.   

“Assegurar o protagonismo honroso de mulheres e de homens negros no cinema nacional é um passo rumo à nossa inclusão e dignificação. Essa é a missão de cineastas negros e negras”, afirma Irene Santos, que é também licenciada em História.

Para isso, a fotógrafa busca compreender os paralelos entre as travessias realizadas pela atriz e cantora Luiza Maranhão, a Leolele Idaalinoino, considerada a “Deusa Negra” do Cinema Novo, e pela cineasta Camila de Moraes, que percorreram “os mesmos mares”.

“A ideia é registrar essas trajetórias como o ensinamento africano Sankofa, ‘olhar para trás para seguir adiante’, numa constante preservação de cunho histórico e registro de nossas memórias. É descobrir como essa travessia se deu e ao mesmo tempo se deixar navegar por esse mar de sentimentos e emoções até então desconhecido para uma grande parcela da população brasileira”, destaca Irene.

Contemplado no edital Criação e Formação – Diversidade das Culturas, uma parceria entre a Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) e a Fundação Marcopolo, com recursos da Lei Aldir Blanc, o projeto está em processo de busca de material e depoimentos.

Em entrevista ao Brasil de Fato RS, Irene conta sobre o novo projeto e fala sobre sua trajetória e impressões.

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“A ideia de registrar essas trajetórias como o ensinamento africano Sankofa, ‘olhar para trás para seguir adiante’, numa constante preservação de cunho histórico e registro de nossas memórias” / Divulgação

Confira a entrevista:

Brasil de Fato RS – Para começarmos, gostaria que tu nos falasse sobre o teu projeto “Um Mergulho por Mares Ainda Não  Navegados”. O que te motivou a realizá-lo, como está o processo, o destino dele?

Irene – Sou proponente do projeto, uma inspiração da cineasta Camila de Moraes, que estreou em 2017 e se tornou a segunda mulher negra no Brasil (a primeira foi Adélia Sampaio) a colocar um longa em circuito comercial e a primeira mulher negra a concorrer uma vaga para representar o país no “Oscar” de 2018.

A atriz, modelo e cantora gaúcha Luiza Maranhão, que completou 80 anos em 2020, e atualmente está radicada na Itália, estrelou clássicos do Cinema Novo: Barravento, O Assalto ao Trem Pagador, Ganga Zumba e a Grande Feira.

A partir da identificação dessas trajetórias, que, mesmo atuantes em décadas diferentes, é possível traçar um paralelo entre os percursos percorridos por Luiza Maranhão e Camila de Moraes, que tiveram suas vidas transformadas pelo fazer artístico da atuação com o cinema.

A intenção é compreender, no passado, como a travessia realizada pela “Deusa Negra” Luiza Maranhão (nome verdadeiro: Leolele Idaalinoino) é, hoje, inspiração para a cineasta Camila de Moraes percorrer pelos mesmos mares. Assim, “Mergulho por mares ainda não navegados”, mais que um resgate sobre personalidades que ajudaram construir o que identificamos como cinema brasileiro hoje, é um mergulho profundo nas origens dessas mulheres negras gaúchas que encontraram na arte o prazer em viver e atuar no audiovisual.

A proposta do filme é ter duas narrativas simultâneas. Um é o conjunto de histórias afetiva e familiares que serão pesquisadas para compreender os caminhos percorridos por essas mulheres. O outro é o contexto cultural de cada época e como os territórios por onde elas passaram influenciaram no seu fazer artístico. A ideia de registrar essas trajetórias como o ensinamento africano Sankofa, “olhar para trás para seguir adiante”, numa constante preservação de cunho histórico e registro de nossas memórias. É descobrir como essa travessia se deu e ao mesmo tempo se deixar navegar por esse mar de sentimentos e emoções até então desconhecido para uma grande parcela da população brasileira.

BdFRS – Gostaria que tu nos falasse um pouco da tua história, tua trajetória? 

Irene – Sempre trabalhei com imagens. O primeiro emprego foi num banco estatal onde trabalhei com fotolitografia. Depois de 11 anos, saí para montar um laboratório e estúdio fotográfico PxB, no centro da cidade. Aí trabalhei por sete anos. Em 1991 transferi o estúdio e o laboratório para minha casa e passei a fazer fotos para cirurgia plástica para cerca de 12 cirurgiões. Com o advento da fotografia digital e da internet, desmontei o laboratório PxB e criei a marca chamada “Vovónerd”, dedicada a aulas de iniciação à informática para pessoas idosas.

BdFRS – Teu projeto está sendo feito durante a pandemia. Sabemos que ela afetou drasticamente o setor artístico no geral. Como tu está lidando com essa situação, como ela tem afetado o teu trabalho, teu dia a dia? 

Irene – Para mim foi complicado enfrentar este momento, já que trabalho com pessoas dos chamados grupos de risco. Por outro lado o trabalho em ”home office” vem se tornando a “salvação da lavoura” para todos os autônomos como eu. Para o bem ou para o mal, a internet é meio de comunicação mais importante da História. Usada com criatividade pode salvar da ruína até os mais apavorados adeptos do “fica em casa”.

BdFRS –  Tu és historiadora, fotógrafa e pesquisadora. Como essas áreas se entrelaçam e qual relevância elas têm quando falamos de diversidade?

Irene – Sou licenciada em História e fotógrafa autodidata. Em 2004 fiz o projeto editorial do livro NEGRO EM PRETO E BRANCO-Memória fotográfica da população negra de Porto Alegre que, financiado pelo Funproarte, teve sua edição esgotada em três meses. Assim ficou provada a existência de negros honestos e trabalhadores na racista Porto Alegre, o que me guindou à confortável posição de editora Bestseller na cidade. A fotografia analógica garantiu a heroica resistência de uma “população invisível” e que corria o risco de ser eliminada dos anais da História da cidade.

Acreditamos que, assim que for produzido, este documentário poderá auxiliar na construção de uma memória sobre o cinema brasileiro e a presença de mulheres negras gaúchas atuantes nessa área. Assim, a todo tempo precisamos, toda a sociedade, refazer nosso olhar sobre determinados aspectos da história e da cultura afro-brasileira. Por conseguinte, refazer os modos como nos relacionamos entre nós construindo nossas referências. Deseja-se que o filme dialogue com pessoas de diferentes faixas etárias e classes sociais, mas principalmente negras e negros, haja visto que décadas e mais décadas de desinformação acerca da presença e da história do negro no Brasil fez com que o preconceito se impregnasse muito fortemente nas relações sociais, culturais e políticas.

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“Em setembro de 2005 Luiza Maranhão completou 80 anos e pouco foi noticiado sobre a data” / Evandro Teixeira / Reprodução

BdFRS – Em novembro do ano passado, conversamos com a realizadora audiovisual Camila de Moraes, que afirmou: “O nosso desafio é conseguir combater o racismo para poder ter a mente sã e continuar produzindo. Quando a gente consegue combater o racismo a gente consegue formas dignas para produzir, consegue recurso financeiros dignos, a gente consegue ter um processo criativo digno, a gente consegue pagar os nossos profissionais dignamente”. De que forma o racismo interfere quando falamos na arte produzida por mulheres negras? Como superá-lo? 

Irene – Em setembro de 2005, Luiza Maranhão completou 80 anos e pouco foi noticiado sobre a data. Mesmo sendo mulher de beleza exuberante, sempre foi comparada com a atriz italiana Sophia Loren. Era como se dissessem que mesmo sendo negra não tinha traços negróides, que era bela como uma mulher branca europeia. Esse ranço racista e hollywoodiano foi responsável por transformar a negra Cleópatra na anglo-americana Elizabeth Taylor, de pele branquíssima e de inesquecíveis olhos de cor violeta.

O documentário, ao comparar as biografias de Camila e Luiza, provoca reflexão que também é uma maneira de manter vivo o nosso legado. Denunciar e enfrentar o racismo por meio do fazer artístico é uma forma válida de combate. Hoje em dia Luiza Maranhão, que atravessou o Atlântico nos anos 1960, encontra-se ancorada na Itália, enquanto Camila de Moraes permanece em solo baiano. E um dos nossos questionamentos é saber porque será que essas mulheres navegaram para outros mares além do Rio Grande do Sul.

BdFRS  – Qual a análise que tu faz da produção feita por mulheres negras gaúchas no cinema e que mudanças precisam ser feitas para democratizar  a produção e imagem de artistas e realizadores negros, negras, negrxs?   Como é que tu enxerga a importância da resistência, seja na arte, na militância ou mesmo no dia a dia?

Irene – Assegurar o protagonismo honroso de mulheres e de homens negros no cinema nacional é um passo rumo à nossa inclusão e dignificação. Essa é a missão de cineastas negros e negras. Se a Nova Realidade veio para ficar, a internet chegou junto com suas poderosas ferramentas de transformação de corações e mentes. 

A escrita do documentário terá uma forma diferente de contar e representar essas histórias, pois a intenção é conseguir propor ao espectador uma reflexão sobre o real, a metodologia utilizada será o desde dentro e desde fora.

Pessoas que estão inseridas nesse universo irão ser protagonistas dessa história. Do Cinema Novo ao Cinema Negro, como estratégias de luta e resistência para se manter atuantes nesse cenário. Nosso projeto foi desenhado para ser feito durante a pandemia, com a maior parte do trabalho realizado da casa de cada integrante da equipe, sempre que possível.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

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