Mama África

Itapecerica – O jornalista Walmir Damasceno assume a Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial de Itapecerica da Serra, cidade da região metropolitana de S. Paulo. Sacerdote do Candomblé de Angola, ele destaca importância da relação com a África.


Damasceno, 47 anos, é sacerdote de tradição kimbundu-kikongo, conhecido por candomblé de Angola e preside o Conselho Gestor do Instituto Latino Americano Afro Bantu (ILABANTU), entidade mantenedora do Inzo Tumbansi Tua Nzambi Ngana Kavungu – Terreiro de Candomblé de Tradição Congro-Angola.

 

Até o mês passado, Damasceno presidiu o Conselho Municipal do Negro (CONEGRO) de Itapecerica, cargo agora assumido por Kátia Trindade, neta do poeta negro Solano Trindade.

 

No final do ano passado, o jornalista visitou Angola e fez palestras na capital Luanda e na Província de Cabinda sobre aspectos relacionados à religião e a realidade da população negra brasileira. Segundo Damasceno, já é possível notar os resultados da política externa brasileira em relação aos países africanos. “Essa politica tem proporcionado resultados significativos levando alguns países rumo ao desenvolvimento sem perder a essencia e a culturalidade”, afirmou

 

Leia, na íntegra, a entrevista à Afropress

Afropress – Como avalia o trabalho desenvolvido à frente do CONEGRO, de Itapecerica da Serra nos últimos dois anos?

Walmir Damasceno – Foi duro. Reivindicar implementação de politicas publicas afirmativas para o povo negro em uma cidade literalmente e viceralmente provinciana e ultraconservadora como é Itapecerica da Serra, é complicado. Contundo, considero positivo o meu trabalho enquanto fui presidente.

Conseguimos algumas consquistas e avançamos na aprovação de propostas significativas, a exemplo da Semana da Consciência Negra que agora é Lei em Itapecerica. Aliás, as comemorações foram ampliadas. Legalmente será celebrado todo o mês de novembro com eventos discussões sobre o tema.


Afropress – O que destacaria como mais importante no trabalho e nas atividades desenvolvidas?

Damasceno – A aprovação pelo Legislativo municipal da celebração do mês da Consciência Negra; criação, no âmbito do Executivo municipal, da Coordenadoria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial vinculada ao Gabinete do Prefeito, cujo o projeto é de nossa autoria e recebeu a simpatia do prefeito Jorge Costa e de todos vereadores da Câmara Municipal e que se encontra na sua etapa final, através da Secretaria de Administração Municipal.

 

Afropress – Como está encarando o convite para assumir a Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial?

Damasceno – Será um desafio enorme. Quando estive à frente do Conselho Municipal do Negro estive envolvido diretamente junto ao prefeito Jorge Costa em parceria com os Vereadores do Municipio, mantendo conversações diretas com o presidente da Câmara, o advogado Amarildo Gonçalves (Chuvisco), na busca da implementação de políticas públicas afirmativas que contemplasse o povo negro e afrobrasileiro de Itapecerica da Serra, e que certamente criou um clima de confiabilidade, tanto por parte da população negra e dos representantes dos Poderes Executivo e Legislativo, trabalho esse respeitoso e unificador.

 

Afropress – Quais os principais desafios que enfrentará nessa função?

Damasceno – Creio que serão muitos porque em Itapecerica da Serra as questões envolvendo preconceito racial, de cor, sexo, religião etc, são gritantes.

 

Afropress – A Coordenadoria terá orçamento próprio? Qual a estrutura que terá para levar adiante o trabalho?

Damasceno – Espero que tenha verba própria e a briga a fim de fecharmos definitivamente o projeto de criação da Coordenadoria junto a Secretaria de Administração Municipal está sendo justamente nesse ponto – o orçamentário, mas as discussões estão em nivel avançado.

Em relação a sua estrutura administrativa funcional, propusemos que a mesma tenha um coordenador geral, um coordenador geral adjunto, uma assessoria de políticas afirmativas e mais seis cargos de apoio administrativo, e pelo visto teremos algumas mudanças nessa questão.

 

Afropress – Como viu o acordo SEPPIR/PAIM/Demóstenes Torres que tornou possível a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial?

Damasceno – O Estatuto da Igualdade Racial, aprovado sem as cotas raciais, não foi bom de forma alguma. Espero que os senadores reflitam sobre isso e voltem a discutir o assunto. No Entanto, não vamos abrir mão de criar as cotas raciais.

 

Afropress – Acha que é possível a partir do Estatuto aprovado comemorar avanços? Em caso negativo, o que devemos fazer para garantir que as bandeiras que foram retiradas da proposta sejam implementadas?

Damasceno – Ainda falta muito para a população negra e pobre ter desenvolvimento social e educacional devido, contudo, como podemos inferir no texto, com o Estauto, haverá uma grande melhora no que diz respeito aos avanços na conquista por maior igualdade racial.

Em relação aos números da renda dos trabalhadores negros que cresceu 222% durante o governo Lula, também foi uma vitória econômica. O grande desafio ainda é vencer a descriminação que o negro enfrenta no trabalho e no acesso às Universidades. A luta dos negros não é apenas setorial, é de todo povo brasileiro nas conquistas de melhores condições de vida, mas um olhar específico à questão dos negros deve ser de extrema importância, face aos problemas históricos que permearam o desenvolvimento intelectual dos negros no Brasil

 

Afropress – O senhor esteve recentemente em África. Como está vendo a integração cada vez maior do Brasil com o continente africano?

Damasceno – Sim, estive na República de Angola, notadamente na capital Luanda e na provincia de Cabinda, região norte do país. Observo que o nosso país, graças as preocupações do governo do presidente Luíz Inácio Lula da Silva, tem investido e implementado com seriedade e presteza uma política de integração do Brasil e da América Latina com os países africanos, há muito explorados e espoliados pelas grandes potências. Essa politica tem proporcionado resultados significativos levando alguns países rumo ao desenvolvimento sem perder a essencia e a culturalidade.

 

Afropress – Quais as experiências que considera positivas nessa relação do Brasil com a África?

Damasceno – A formação sócio-cultural de ser o brasileiro se traduz em um legado africano. O trabalho das comunidades tradicionais de terreiros, verdadeiros guardiões das culturas do além Atlântico, por si só, revela importantes experiências.

 

 

Fonte: Afropress

 

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