Mãos femininas ordenham o autossustento

Assunção, Paraguai, 30/7/2010 – Há um ano, Ramona Pereira vivia a rotina do trabalho doméstico em uma localidade rural do Paraguai. Agora, lidera um comitê de produtoras de leite em sua comunidade e, aos 38 anos, sente-se outra.

Por Natalia Ruiz Díaz, da IPS

“Este é meu trabalho”, disse Ramona à IPS, com um sorriso que misturava timidez e orgulho, enquanto abria a porta do pequeno estabelecimento, localizado em Aveiro, uma comunidade que fica 40 quilômetros a sudeste da capital e vizinha da cidade de Itá.

O tambo, nome no cone sul-americano do pequeno estabelecimento de vacas leiteiras cuja produção é vendida de forma direta e a granel, é administrado por uma dezena de sócias que trabalham em três turnos.

As produtoras cuidam de recolher a pastagem, moer e misturá-la com um produto balanceado para o consumo dos animais. Também fazem a ordenha duas vezes ao dia, alimentam as vacas e mantêm em ordem o tambo comunitário, junto com a comercialização entre os vizinhos do excedente que suas famílias não consomem.

Além disso, batalham diariamente para fortalecer seu comitê, com um nome definidor: “Jaikove Porlâ Rekávo” (Em Busca do Bem-Estar, em guarani). Foi criado em agosto de 2009 por 30 mulheres de Aveiro, embora no final tenham ficado apenas 12, todas mães de família.

“A deserção ocorre por diversos motivos, mas principalmente pela pressão que sofrem em suas casas”, explicou Blanca Toledo, técnica da Direção de Extensão Agrária (Deag), do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Blanca, que presta assessoria ao comitê, se refere às reclamações dos maridos, que resistem a que suas mulheres se desenvolvam fora de casa e, ainda mais, que tenham uma atividade econômica própria.

“Não é fácil, mas acreditamos em nosso trabalho”, disse Ramona, recordando casos de vizinhas que deixaram o grupo.

Diz, com satisfação, que ela tem sorte porque seu marido, com o qual tem duas crianças, de dez e 12 anos, não só aplaude seu trabalho como dá uma ajuda quando alguma das sócias não pode cumprir seu turno.

“Não me custa nada ajudar a preparar o composto para as vacas”, disse Domingo Gavilán, que vive a poucos metros do tambo, e que também colabora com trabalhos de melhoria da instalação, como a consolidação das paredes e do teto do estábulo.

“Ainda existem homens que não gostam que suas mulheres se dediquem a outra coisa que não seja cuidar da família, mas eu não concordo com isso”, disse Domingo, que não deseja ser protagonista, “porque isto é coisa delas”.

“Minha mulher está mais contente, diferente, e estamos melhor do que antes, conversamos mais, porque agora a vida não é como antes e nem as mulheres”, afirmou antes de contar que há algum tempo trocou o trabalho agrícola pela venda ambulante em Itá.

As mulheres assumiram o desafio de se converterem em produtoras de leite, por sugestão da Deag, dentro do Programa Nacional de Agricultura Familiar. Os eixos do programa são a diversificação de itens de produção, a auto-organização, os agronegócios e a segurança alimentar. Este último aspecto é trabalhado exclusivamente com camponesas mães de família.

O objetivo é que elas destinem uma pequena parcela de suas propriedades à horta familiar ou a um tambo, em um empreendimento voltado ao consumo de suas famílias e à geração de excedentes para a venda direta na região ou para empresas do setor.

Dentro do projeto de segurança alimentar, as beneficiárias também são capacitadas em itens como preparação de alimentos, capacitação em produtos biodegradáveis e reciclagem.

O Jaikove Porâ Rekávo é o primeiro comitê feminino dedicado ao gado leiteiro no distrito de Itá, no departamento de Central, o menor dos 17 do Paraguai, mas que concentra 35% de seus 6,2 milhões de habitantes.

Mais da metade dos paraguaios vive do campo, em um país cuja economia depende da agricultura e da pecuária, dos serviços e do turismo, e onde 36% da população vive na pobreza e 20% sobrevive com menos de US$ 1 diário.

Segundo a Deag, no departamento de Central são cerca de três mil produtores e mil produtoras, em sua maioria organizados em comitês. Em Itá, existem 97, sendo 25 formados por mulheres.

Os comitês têm de cumprir uma série de requisitos e obter o reconhecimento municipal, departamental e da Deag, para assegurar que cada empreendimento tenha viabilidade.

As produtoras de Aveiro esperaram vários meses desde a criação do comitê até a chegada dos animais. Um de seus maiores inconvenientes foi encontrar um terreno adequado, o que foi resolvido quando um morador cedeu por empréstimo uma ampla área.

Graças a isso, em março receberam cinco vacas e cinco bezerras. O crescente excedente do autoconsumo de leite é vendido a granel aos vizinhos e o dinheiro que entra é reinvestido no tambo.

Os dez bovinos integram um pacote de assistência no valor de US$ 6,5 mil, que inclui infraestrutura básica e serviços, além do treinamento.

Blanca disse que as 12 famílias já começaram a melhorar sua dieta básica, já que até agora apenas ocasionalmente bebiam leite. Está previsto que a rentabilidade comece em novembro, e um mês depois terá início a diversificação da produção, com a elaboração e venda de derivados lácteos.

Aurora Ramos, outra das sócias, casada e com cinco filhos, acredita na chegada de lucro, mas destaca que “agora o importante é que o tambo se sustente”.

O compromisso de Aurora com o projeto é duplo, porque ela destinou três hectares da pequena chácara familiar ao cultivo de pastagem para alimentar as vacas.

As quatro sócias, que compartilhavam o turno durante a visita da IPS, disseram que tudo é novo para elas: se tornarem empreendedoras e pecuaristas, a autogestão coletiva e a comercialização.

“Às vezes, nos perguntamos onde nos metemos”, reconheceu Aurora, mas “nos animamos entre nós quando há dificuldades”.

Ramona confirma, convencida: “queremos crescer, é nosso desafio e juntas estamos conseguindo isso”, enquanto enche os cochos com pasto e composto.

Uma das vacas já deu a primeira bezerra nascida no tambo. “Desde então, pressentimos a bonança, embora seja uma bobeira nossa”, disse, ficando vermelha e rindo. Envolverde/IPS

 

 

Fonte: Envolverde

+ sobre o tema

Bahia lidera, pelo sexto ano consecutivo, o ‘ranking’ nacional dos assassinatos de homossexuais

No último sábado, 10 de março, dois jovens homossexuais...

Quem são as advogadas cotadas para vaga no TSE na lista de Fachin

Duas mulheres estão cotadas para ocupar a vaga de...

Projeto Ilumina Oyá discute violência e gênero com adolescentes

O Projeto Ilumina Oyá trabalha com a formação critica...

Paternidade negra: ser pai negro significa ter cuidado redobrado

Quais são as armas mais eficazes para combater o...

para lembrar

‘A gente é mais feliz quando se aceita’, diz rapper Karol Conka

Cheia de estilo e nova queridinha do mundo fashion,...

Como o poder público pode ajudar a combater a cultura do estupro

Precisamos desnaturalizar as violências. Lutar pela justiça e por...

Biopoder por Sueli Carneiro

A descriminalização do aborto, uma bandeira histórica do movimento...

Jovens americanos usam tradicionais bailes de formatura para ‘sair do armário’

O fim do ano letivo americano se aproxima e,...
spot_imgspot_img

Elogio ao estupro e ódio às mulheres

Nem sempre é fácil dizer o óbvio. Mesmo porque, quando essa necessidade se impõe é fundamental entender as razões que estão por trás dela. Mas...

Angela Davis: “O desafio é manter a esperança quando não vemos sinais”

Angela Davis, filósofa professora americana, é como uma estrela de rock do ativismo pelos direitos humanos e do movimento negro. Sua popularidade atravessa gerações...

IBGE: mulheres assalariadas recebem 17% menos que os homens

Dados divulgados nesta quinta-feira (20/06) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que a disparidade salarial entre os gêneros no Brasil se mantém em...
-+=