MaravilhElza

De ti não tenho fotinha, comprovação de que te conheço, você vive em mim e me ilumina. Tenho memória, músicas, CDs, vinis e texto.

Devo dizer que ainda criança, muito antes de ser apresentada a você como intérprete magnífica, conheci uma mulher negra mal falada por outras mulheres negras, avós e bisavós das moças negras que hoje se inspiram em você.  O jogo era pesado, as críticas ao fato de você experimentar livremente a própria sexualidade e o seu jeito de amar um “homem casado” é que chegavam aos meus ouvidos. Você era demonizada nos lares das famílias negras pobres (nas outras classes sociais também), resultado da campanha pérfida da imprensa e das instituições moralistas e covardes contra você. Nas famílias negras, entretanto, era mais denso, porque você é uma de nós e as mais velhas, totalmente reprimidas e policiadas, se sentiam pessoalmente aviltadas por seu espírito e corpo libertários.

Sua Música, Elza, só comecei a perceber na adolescência, o samba, as gravações pontuais que você fazia com grandes nomes da chamada MPB, até comprar meus próprios discos. E fui lendo suas histórias, entrevistas, acessando sua linguagem irônica, incisiva e humana. Formei opinião própria e oposta à Elza que quiseram me impor na infância, mas que não deixou de ser a Elza livre, senhora de si e parabólica do mundo contemporâneo.   

Uma comoção tomou conta de nós em razão de sua partida serena por causas naturais, em casa, cercada da família, aos 91 anos, depois de uma vida plena vivida – que maravilha – vida que não foi um mar de rosas e que apesar de tudo, ou com tudo, você chegou ao fim cantando, como se determinou.

Em meio à catarse e aos belos tributos, me encantaram os testemunhos da sua generosidade. Também vou registrar o meu.

Encontraram-se num show no Sesc Pompeia (SP) em 2008, você, Mariene de Castro e Chico César. Mariene entrou esplendorosamente grávida de Maria ou do irmão nascido antes, não sei. Chico, que a recebeu tocando, se ajoelhou e ali, soubemos que a temperatura emocional seria alta.

Em algum momento do show, você, com as mãos nas cadeiras, subiu um tom, olhando nos olhos de Mariene, embevecida e sorridente. Ela te acompanhou. Você subiu outro e outro, liberou sua voz-orquestra, daquele jeito que só você sabia. Mariene, embora seja de água, não negou fogo. Eu, tensa, me perguntava até onde a cantora, que eu conhecia pouco, conseguiria te acompanhar e, sem saber nada de você, eu não entendi de cara que você só desafiaria alguém que tivesse condições vocais de seguir em comboio contigo. E você subiu, subiu, subiu, brincou, inventou sons e tons e Mariene te acompanhou todas as vezes, sem fazer esforço, naturalmente, uma profissional de muitos recursos, como você.

Daí, me pareceu que você cansou de brincar e disse para si: “Já deu, minha comadre, vamos voltar ao roteiro” e então, depois que você se satisfez ao nos dar a chance de ver o quanto aquela cantora era grande, você fez para Mariene aquele gesto com os braços, de súdita reverenciando uma rainha.

Leve e livre me despeço de ti com essa imagem Elza, muito feliz pela forma como você tomou as rédeas de sua vida ao longo de nove décadas de existência e por ter fechado os olhos de maneira suave dentro do ninho, cercada dos seus amores.

Obrigada, Senhora do Fim do Mundo, mas me pergunto o que seria o fim para uma mulher de Iansã, senhora da impermanência, da transmutação e do trânsito vida-morte-vida.

 *MaravilhELZA é um termo do Chico Brown

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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