Mariana Boujikian aos incomodados com as mulheres no poder: Mudem! Nós continuaremos a lutar

MULHERES NO PODER INCOMODAM

Por Mariana Boujikian Felippe no Viomundo

A ativista nigeriana Chimamanda Ngozi define com precisão as lições de uma sociedade machista às suas meninas: “ensinamos as garotas a se encolherem, a se tornarem pequenas. Dizemos a elas ‘você pode ter ambição, mas não muita. Você deve almejar ser bem-sucedida, mas não muito, caso contrário vai ameaçar os homens’”.

Não é difícil se identificar com a fala acima. Qualquer mulher em posição de mínima relevância social nota em seu cotidiano como a nossa liderança incomoda. Nosso destaque perturba, pois ocupando espaços predominantemente masculinos, desafiamos a ordem vigente que nos priva de posições de poder socialmente valorizadas.

Se realmente alcançamos status significativo, somos obrigadas a lidar com uma avalanche de atitudes que menosprezam nossa capacidade e ridicularizam a condição feminina: interrompem nossas falas, fazem comentários sobre nossa aparência e nos constrangem na tentativa de lembrar que não deveríamos ter chegado aonde chegamos.

No começo deste mês, as redes sociais tornaram-se palco para um novo show de horrores que evidenciou o incômodo com as mulheres no poder. Adesivos de carro viralizaram no Facebook por retratarem a presidenta Dilma Rousseff de pernas abertas, como se fosse ser penetrada pela bomba de gasolina. Ou seja, retratava um estupro, ato da maior violência sexual. Foi um ataque misógino contra a mulher que ocupa o cargo mais elevado do país, sempre ocupado por homens..

Os atores da violência disseram que era mera crítica ao preço dos combustíveis, com uma forma bem humorada de protestar contra o governo.  Mas o adesivo citado ultrapassa qualquer limite de crítica civilizada, pois não representa questionamento ao governo, mas um ato de ódio a Dilma Rousseff enquanto mulher. Não há debate político, mas promoção da cultura de estupro em um país que registrou em 2014, 50 mil casos desta espécie de crime. Ressalto que críticas à gestão de Dilma podem ser feitas livremente, mas retratar a presidenta como alvo de violência sexual banaliza o abuso e desrespeita todas as mulheres brasileiras.

Cabe lembrar que o estupro não é uma forma de expressão do desejo sexual, mas uma maneira de demonstrar domínio e poder total sobre alguém. O estupro é um processo de intimidação e demarcação de comando, e por isso tornou-se uma arma de guerra em diversos conflitos ao longo da História. Assim, o adesivo explicita uma vontade de colocar Dilma em lugar subalterno, onde não tem nenhum controle. O adesivo passa uma mensagem perversa, pois reitera que mesmo que Dilma seja presidente da República,  está ele sujeita à violência sexual, como todas as mulheres.

É indubitável que estamos falando de violência de gênero, pois nenhum presidente homem jamais sofreu qualquer ataque deste tipo. Impensável sugerir violência desta natureza contra FHC ou Lula. Infelizmente, contra Dilma a agressão é vista pelos agressores, com naturalidade, pois se trata de uma agressão de gênero.

O caso de Maju – jornalista da Rede Globo que sofreu uma onda de ataques racistas na internet – tem um modus operandi parecido. Maju se destacou por apresentar o tempo de forma original e descontraída no jornal mais importante da TV aberta. Seu evidente sucesso em tão pouco tempo incomodou, e uma horda indignada, incapaz de conceber uma mulher negra bem sucedida, partiu para as mensagens de ódio. Assim como o sexismo foi utilizado como forma de atacar Dilma, o racismo foi a arma escolhida para atingir Maju.

Há uma evidente pobreza intelectual entre os opositores de Dilma que são adeptos deste tipo de protesto (ou que o apoiam). Apelam para o que há de pior na humanidade. Apelam para o preconceito escrachado e pela violência sexista. Demonstram que são machistas raivosos, inconformados com uma mulher no exercício do poder.

Aos incomodados, fica o recado: mudem-se! Nós, mulheres, continuaremos lutando por espaços de poder.

Como disse a cantora Pitty: eu não volto pra cozinha, nem o negro pra senzala, nem o gay pro armário. O choro é livre, e nós também.

Mariana Boujikian Felippe, estudante de Ciências Sociais – USP

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