Marina Lacerda e Helena Zelic: O machismo e a violência por trás de supostas brincadeiras não podem ser naturalizados; dizer que é brincadeira é minimizar ofensas machistas

Esta cena vai entrar para a história.

por Conceição Lemes, do Viomundo

Metido a azarador, o senador José Serra (PSDB-SP) levou uma invertida do tamanho da sua canalhice nessa quarta-feira 9, durante jantar de final de ano, na casa do senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), em Brasília.

Cerca de 40 senadores estavam presentes, entre os quais Kátia Abreu (PMDB-TO), atualmente ministra da Agricultura.

Ela conversava com um grupo de colegas quando, segundo seu relato à Folha (veja matéria abaixo), Serra “simplesmente chegou numa roda em que não tinha sido chamado, sem mais nem menos” E  afirmou: “Kátia, dizem por aí que você é muito namoradeira”.

Kátia jogou uma taça de vinho na cara de Serra: “Nunca lhe dei esse direito nem essa ousadia. Por favor, saia dessa roda, saia daqui imediatamente”.

À Folha, ela justificou: “Eu fiz o que qualquer mulher honrada faria. Respondi à altura de quem preza a sua honra”.

Serra saiu-se com o surrado foi “uma brincadeira”.

“Seguramente, Serra foi machista”, diz, de saída, Helena Zelic.

“Sou solidária à mulher Kátia, assim como com qualquer mulher que sofra agressão”, avisa. “Mas essa solidariedade não se estende, em hipótese alguma, à Kátia política e representante da bancada ruralista. Ela não nos representa.”

Helena é feminista. Politicamente, defende posições opostas às de Kátia, que normalmente não está ao lado das mulheres feministas nem das mulheres rurais, quilombolas e indígenas.

Para Marina Lacerda, advogada de direitos humanos  e doutoranda pelo IESP -UERJ,  a resposta de Kátia Abreu foi perfeita.

“O machismo e a violência por trás de supostas brincadeiras não podem ser naturalizadas”,  salienta Marina. “Kátia Abreu está em posição contrária aos direitos humanos em muitos sentidos, mas dessa vez foi aliada. Assumiu uma postura feminista”.

“Chamar a Kátia de ‘namoradeira’ é apelar à sexualidade para brincar com a imagem dela”, observa Helena. “Infelizmente, não é novo no front. Acontece o tempo todo.”

Outra coisa recorrente é como a grande mídia está tratando machistamente o episódio: “Brincadeira”; “uma piada que ela não entendeu direito”.

“Sempre que as mulheres revidam o machismo, tentam transformar o fato que causou em ‘brincadeira’, ‘piada’”, atenta Helena. “É uma forma de minimizar as ofensas machistas.”

O que não deixa de ser mais um subterfúgio midiático para, como sempre, blindar Serra dos seus malfeitos.

“De um lado,  o machista Serra. Do outro, uma mulher cheia de contradições, que não está do lado das mulheres feministas”, arremata Helena Zelic. “Mesmo assim, não merece ser ofendida com uma piada.”

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Kátia Abreu joga vinho na cara de Serra: “Você nunca será presidente”

10/12/2015  12h21

Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo

A ministra Kátia Abreu, da Agricultura, jogou uma taça de vinho na cara do senador José Serra (PSDB-SP). A cena ocorreu na noite de quarta (9), em um jantar de fim de ano na casa do senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) em que estavam presentes cerca de 40 senadores e também o vice-presidente Michel Temer.

A ministra confirmou o fato à coluna.

Kátia Abreu conta que conversava com senadores quando Serra “simplesmente chegou numa roda em que não tinha sido chamado, sem mais nem menos”.

Segundo ela, o tucano afirmou: “Kátia, dizem por aí que você é muito namoradeira”.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, tentou consertar a gafe: “Serra, a ministra se casou neste ano”.

A ministra diz que imediatamente reagiu: “Você é um homem deselegante, descortês, arrogante, prepotente. É por isso que você nunca chegará à Presidência da República”.

E seguiu: “E, de mais a mais, nunca traí ninguém na minha vida”.

Enfim, conta a ministra, ela jogou vinho na cara de Serra e disse: “Nunca lhe dei esse direito nem essa ousadia. Por favor, saia dessa roda, saia daqui imediatamente”.

Serra então teria se afastado.

A ministra afirma que “toda mulher sabe o que um comentário desses significa” e que não tinha outra atitude a tomar.

“Que ódio me deu”, afirma ela.

Kátia Abreu diz que o episódio não tem nada a ver com a divergência atual entre os dois: Serra trabalha para a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff. Já a ministra é da equipe e amiga pessoal da presidente.

“Imagina se vou brigar com colega por causa de bandeiras diferentes que cada um possa ter. E eu fiz campanha para o Serra [ à Presidência em 2010], uma campanha derrotada, que sempre apoiei.”

Serra diz ter feito uma “brincadeira com intenção de elogio. “Foi uma brincadeira com intenção de elogio. Me desculpei. Sempre tive respeito pela Kátia”, disse

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