quinta-feira, outubro 6, 2022
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Marte Um: Nossa Negritude Reluzindo Cinema

Every Nigger is a Star, canta Boris Gardiner. Mas o racismo insiste em apagar nossa luz. Por isso precisamos de mentes brilhantes para nos lembrar que merecemos viver de sonhos. O diretor Gabriel Martins nos leva até Marte para conferir um raro missaré nas telas.  E assim como a lua abraça a estrela, também derrama sua luz na pele negra para que o azul de nossas almas resplandeça. Esse é um argumento manifesto na fotografia do filme; mas o truque do diretor do filme, é também deixar como argumento latente que gente preta precisa de um mar de estrelas para que possa brilhar incontestavelmente azul. Assim, todo menino negro merece um oceano de oportunidades para chegar onde quiser, seja na constelação do Cruzeiro ou em Marte. O longa conta o dilema de Deivinho (Cícero Lucas), um adolescente bom de bola com chances reais de jogar no Cruzeiro, mas que prefere compor a expedição Marte Um prevista para colonizar o Planeta  Vermelho em 2030. Num país racista que sequestra nossa bola no jogo, como canta Racionais MC’s em A Vida é Um Desafio, um garoto ter opções é um grande avanço. E Deivinho compartilha  o protagonismo com sua família num filme-coral, em que cada personagem ou cena é composta com muita afinação.

Divulgação

Deivinho é irmão de Eunice (Camilla Damião), estudante de Direito na UFMG. Voz iminente do matriarcado, vive a tensão de assumir seu amor por Joana (Ana Hilário), nascida numa família refinada  na posição de classe e no debate de gênero. É Marte Um visitando Azul é a Cor Mais Quente. (E na canção Azul,  tema de Eunice e Joana é que Gabriel Martins também se revela um incrível compositor e arranjador).  Eunice carrega a seriedade consciente dos desafios de ser uma jovem negra hifenizada, mas que é também corajosa, malandra ao testar projetos e tão poética quanto uma orquídea intumescida. Para Eunice, ser lésbica é sonhar por autonomia, inclusive financeira, é casar e deixar de compartilhar beliche e confidências com Deivinho. Recentemente no podcast Mano a Mano, Sueli Carneiro diz preferir assistir campeonatos europeus por conta da maior presença negra e africana em campo, comparado ao atual futebol brasileiro. Num país que desde sempre desencorajou a existência de técnicos negros, progressivamente vai branqueando os gramados dessa modalidade tão milionária. Mesmo assim, Eunice tem a grandeza de apoiar o voo de Deivinho a Marte. Num país que mata e encarcera jovens negros, Eunice é aprendiz do abolicionismo penal enquanto sugere á mãe uma educação anti-machista ao irmão. Eunice é fruto de ações afirmativas na República dos Bacharéis, em ano de (im)provável revisão das cotas raciais nas universidades públicas. Eunice, assim como Eunice Prudente, única professora negra da Faculdade de Direito da USP, disputa o Direito no país que fechou as portas das Arcadas á Luís Gama, ou que fez de José Rubino de Oliveira, o primeiro professor negro do Largo do São Francisco ainda no período escravocrata, uma piada, segundo Miguel Reale Pai. Por essas e outras, Marte Um é uma carta de amor por um Brasil melhor, num momento em que precisamos re-lançar cartas manifestando direito à democracia, com milhares de assinaturas, incluindo a de André Novais, cineasta sócio de Gabriel Martins na Filmes de Plástico, produtora que engrossa o coro de enfrentamento aos muitos mineiraços que nos golpeia desde a Copa. 

Deivinho é filho de Tércia (Rejane Faria), diarista adoecida pelo bolsonarismo mas que não perde a dignidade nem quando barganha ser indicada para fazer faxina sentada no sofá com seu turbante de toalha. (Aliás, o longa é cirúrgico ao ostentar dignidade em momentos difíceis vividos por mulheres negras, como a força de Judite na palavra franqueada no Alcoólicos Anônimos). Tércia tem a beleza dos afetos de família ou mesmo com Tokinho, seu patrão influencer. Mulher do povo, tem também seus nojinhos de classe, mesmo que depois reze um terço arrependida. Tércia é traumatizada sim, seja pelos tempos políticos, seja pelo nonsense que nos atropela, seja pelo simples fato de nascer mulher negra. Eunice e Tércia nos dizem da gravidade de ser mulher negra mesmo quando o patriarcado (negro inclusive) nos sufoca com expectativas e afetos errantes, nos acusando de raivosas e dificultando nossa jornada de cura. No longa, o sintoma de que o feminismo negro avançou mais que o debate sobre masculidades negras está tanto na inconsequente leveza dos homens negros que têm mais permissão de sonhar e exercitar o lúdico, quanto no desafiar a gravidade ou até se alienar no silêncio não elaborado do alcoolismo.

 Deivinho é filho de Wellington (Carlos Francisco), homem negro que cumpre com esmero o ofício de ser marido, porteiro e pai que projeta no filho o sonho de ser craque ou na filha de casar com um homem depois de formada. Wellington é um homem simples, mas que honra compromissos, bem diferente dos nossos esquerdo-machos do coração que reinventam opressões na Gozolândia. Wellington consegue rir de pegadinha de mau gosto, é alcoolatra orgulhoso da medalha de quatro anos de sobriedade, é fanático pelo timão da massa e aproveita a proximidade de portaria com o craque Juan Pablo Sorrin para emplacar o filho numa peneira do Cruzeiro. Wellington  abaixa a cabeça para a patroa até entender da pior maneira possível, que isso não vai lhe assegurar nada. Ou como diz Audre Lorde: “Seu silêncio não vai te proteger“. Mas a malandragem do filme habita lugares insuspeitos. Wellington é porteiro, assim como o arquétipo de Exu da Calunga. Wellington é parça de Flávio (Russão APR), um trickster mineiro que habita o universo da Filmes de Plástico, produtora  que tem a malandragem de agradar patronos brancos como Carlos Reichenbach ou negros como Joel Zito Araújo. 

Favorecido pela atuação de um elenco maravilhoso, Gabriel Martins se prova um grande maestro na arte de nos fazer rir e chorar com viradas de cenas memoráveis de um drama com boa chanchada de memes. Marte Um é um filme sobre e para famílias negras absolutamente necessário. Coincidência maravilhosa, enquanto Marte Um era celebrado em Gramado, outro filme de Gabriel Martins estreava no Kinoforum, Terremoto, um curta metragem precioso que documenta  a vida da família Augustin refugiada no Brasil após o terremoto que arrasou o Haiti em 2010. O filme começa com os preparativos para a chegada da pequena Niky, irmã de Neyla, cujo nome o pai lhe diz que significa “flor que brilha”. É muito lindo ver  Neyla vibrando com o próprio nome. “Eu sou brilhante, né, eu brilho na noite!” Seja a partir de Deivinho Martins ou Neyla Augustin, de Niky Augustin ou de sua filha Teresa Martins, Gabriel Martins se mostrou um jovem pai sensível na sua condução cinematográfica. Seja em Marte Um ou em Terremoto, os filmes de Gabito são zonas de convergências tectônicas que nos faz avançar eras na nossa cinematografia, gestando futuro.  E é essa obra prima que encerra o trio de  longas-metragens de jovens direções negras contempladas no único edital afirmativo da história da Ancine; que  tornou possível Um Dia com Jerusa de Viviane Ferreira e Cabeça de Nego de Déo Cardoso. Mas como “nego é cabeça de gelo“, a gente não vai se curvar, vamos re-conquistar direitos com punhos erguidos e polegar opositor com indicador em L. 

Viviane Pistache (Foto: Arquivo Pessoal)

Viviane Pistache é preta das Minas Gerais, pesquisadora, roteirista e, de vez em quando, crítica de cinema. 


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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