quinta-feira, outubro 6, 2022
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Fumageiras e a manufatura da história: lutas de operárias negras na Bahia

Para iniciar as indagações e reflexões deste artigo, trago, na imagem abaixo reproduzida, um dos Registros dos Empregados da firma Cia. de Charutos Dannemann, localizada na cidade de São Félix, na Bahia. A ficha pertenceu à operária Maria Roberta da Silva, nascida na cidade de Jacobina (BA) em 09 de fevereiro de 1870, filha de Antônio Benedicto e Maria Moncca (?). Na ocasião do registro, em 1938, Maria Roberta informou ser casada, ter 68 anos e morar na Rua da Estação, em São Félix. Pela fotografia, percebo ser ela de cor preta e os demais dados dizem ter sido empregada como destaladeira de fumos aos 45 anos, em 1915.

Ficha de Registro de Maria Roberta da Silva. São Félix-BA, 28 de janeiro de 1938. Fonte: Arquivo Municipal de São Félix – Caixas dos Registros dos Empregados da firma Cia. de Charutos Dannemann.

Em outra caixa, onde se avolumavam mais algumas dezenas de registros, identifiquei a ficha de Augusta Roberta da Silva, nascida em Mundo Novo (BA) em 23 de agosto de 1894, filha de Manoel Fillipe da Anunciação e de Maria Roberta da Silva (provável ser aquela mesma do documento em tela). Augusta, de cor preta, no preenchimento da ficha em 1938, informou ter 44 anos, ser casada e residir na Ladeira da Misericórdia, número 14, na cidade de São Félix. Outra moradora deste mesmo endereço foi sua filha Enedina Silva, que em 1930 também foi admitida pela Cia. de Charutos Dannemann na função de charuteira, ano que completaria 14 anos. Diferente de sua avó e de sua mãe, apresentou a assinatura de próprio punho. Ela informou ser solteira, ter 21 anos e ter nascido em São Félix aos vinte e quatro dias do mês de maio de 1916, filha de Joaquim Francisco de Araújo e da operária Augusta Roberta da Silva. No rodapé do registro, foi escrito à lápis “Rua Avenida São Diogo”, o que sugere ter mudado de endereço e informado algum tempo depois, a fim de atualizar a firma.

Ao identificar essas três gerações de mulheres negras do Recôncavo Baiano no pós-abolição, podemos especular que o acesso aos mundos do trabalho, a busca pela autonomia, a sobrevivência e a organização da família faziam parte dos diversos projetos de liberdade da população negra egressa dos processos que culminaram na abolição do regime escravista. Augusta foi a primeira da família que teve ocupação na Cia. de Charutos Dannemann em 1906, e teve que esperar quase uma década para que a sua mãe, Maria Roberta, também fosse empregada. Não deve ter passado despercebido aos patrões o aparente comportamento exemplar da operária, visto a ausência de quaisquer anotações de desagrado ou suspensões na ficha de Augusta, tradução de uma boa reputação construída pela trabalhadora.

Ao longo dos anos de trabalho, imagino que criou ali redes de sociabilidades suficientes para garantir o contrato de sua mãe e mais tarde de sua filha Enedina. Se por um lado, os laços estabelecidos nas relações de trabalho possibilitaram às operárias assegurar a permanência e o acesso aos outros membros da família; por outro, a empresa poderia identificar essas ações com bons olhos, ao empregar pessoas “conhecidas” ou do mesmo grupo familiar. Talvez, indícios das expectativas patronais de controle social através da família.

O Recôncavo Baiano, em especial nas cidades de Cachoeira, Maragogipe, Muritiba e São Félix, se destacou por conta da formação de um complexo fumageiro composto por inúmeros armazéns de enfardamento de fumo, casas exportadoras e empresas de manufatura de charutos e cigarrilhas instaladas ali desde o final do século XIX. Dessa forma, essa região se tornou um interessante polo atrativo para a população egressa da escravidão e que formou as fileiras da classe trabalhadora, com destaque para a presença feminina e negra neste setor produtivo. Os dados que obtive ao analisar as 1.467 fichas dos registros da Cia. de Charutos Dannemann atestam que a presença das mulheres foi de 74%, sendo a força de trabalho de mulheres negras majoritária, com cerca de 80%. Essa composição social da população do Recôncavo Baiano, e da força de trabalho empregada no complexo fumageiro teve um perfil diferente da imagem clássica criada para a classe trabalhadora brasileira e serve para romper com noções cristalizadas de uma classe operária branca, masculina e fabril para o Brasil do início do século XX, como evidenciado pelo historiador Cláudio Batalha no artigo A formação da classe operária e projetos de identidade coletiva.

Por outro lado, essa presença negra não passou despercebida pelas elites do Recôncavo Baiano. No livro O jogo da dissimulação, a historiadora Wlamyra Albuquerque bem demonstrou que o contexto da abolição do regime escravista foi tomado também pelo temor das elites baianas que enxergavam a população liberta como desobediente e um risco às hierarquias raciais. Foi cultivada entre ex-senhores de engenhos ou homens de estado uma esperança de controle social incisiva sobre a população negra. Em 1916, na cidade de São Félix, o tom dado pelo periódico O Propulsor sobre “os sambas e os desordeiros” é exemplar. O jornal acusou o “pessoal da zona do Salva-vida”, bairro onde se concentravam mais de 160 trabalhadoras da Cia. Dannemann, de andar “sempre às voltas com a polícia” e não se corrigir, no “perigoso subúrbio”. Os ataques ao local onde o “samba retumbava!” parecem iluminar a criminalização que as elites locais lançavam diante das práticas culturais da população negra, das quais estão também envolvidas as fumageiras.

É compreensível que as perseguições à população negra tenham sido afetadas pela exigência e pelo desacordo das elites locais com a suposta incivilidade dos de baixo, a partir de uma interpretação racializada das práticas culturais. Em resposta, o trabalho foi eleito uma das maneiras de disciplinar e de controle social. Em 1916, algumas edições do jornal O Propulsor anunciavam ao público que o labor era “a mais poderosa arma contra a ociosidade que corrompe a alma e debilita o corpo, tornando-o inútil a qualquer senhor, incapaz de praticar qualquer ato que continua para o seu aperfeiçoamento”. A referência é uma amostra da interceptação de classe e definições raciais como destinos combinados no imaginário das elites sanfelixtas.

Com esse sentimento disciplinar, o mesmo jornal considerou que “com a nova orientação que Geraldo Dannemann imprimiu em S. Félix, empregando nas suas fábricas mais de mil pessoas, a população modificou para melhor os seus hábitos de vida; S. Félix cresceu e prosperou”. O discurso contra a ociosidade escondia a necessidade do patronato submeter a população negra ao controle, à espoliação do trabalho sob sua guarda e garantir a permanência das hierarquias raciais. O trabalho operou como espaço, dispositivo, e também como justificativa social para trazer o disciplinamento e a ordem moral desejada pelos setores da elite branca baiana. Sinais dos imperativos de classe e de racialização, quase sempre inseparáveis, como orientadores das perseguições das manifestações e das referências socioculturais da população negra.

Salão da Cia. de Charutos Dannemann. São Félix-BA, início do século XX. Fonte: Arquivo Municipal de São Félix – Série: Fotos da Família Dannemann.

Nas manufaturas, essa realidade não foi tão diferente. As trabalhadoras encontraram um ambiente fabril com marcadores sociais que estavam lançados na sociedade e que não cessaram nas bancas de charutos. Os processos produtivos se caracterizaram por uma intensa fragmentação do trabalho em diversas etapas, que permitia o aumento da produção das mercadorias, com cada operária executando uma parte da confecção de charutos, com uma divisão estrita das ocupações. A despeito dos rendimentos salariais, o que esteve central foi uma divisão sexual e também racial, sobretudo, na separação entre execução e concepção, como demonstrei em minha dissertação de mestrado. Na concepção do trabalho, onde se encontrava as classes capitalistas, os cargos eram ocupados exclusivamente por homens brancos, aparecendo sempre nos altos cargos das empresas, ou como proprietário. Em menor medida, encontramos homens negros nos cargos de mestres e contramestres, no controle direto da força de trabalho. Por sua vez, foi possível perceber o acesso de mulheres brancas aos cargos de secretariado, com rendimentos médios, e as mulheres negras aparecem exclusivamente nos cargos de execução, na labuta diária com as folhas de fumo, fornecendo a força motriz da produção de charutos. 

Assim, o conjunto de fichas analisadas permite afirmar que distintos marcadores sociais foram combinados e sinaliza a fixação das mulheres negras na execução, o que garantiu a exploração e impediu a mobilidade das fumageiras. Os racismos de gênero, ou seja, a opressão estruturada por percepções racistas dos papéis de gênero, operaram da seguinte forma: admitiram, pela via racial, acesso a melhores rendimentos no caso das mulheres brancas, e pela via do gênero permitiram a mobilidade social dos homens negros nas atividades de gerência. Sendo assim, os imperativos de racialização do gênero gerou exclusões interseccionais que mediaram as experiências de classe das mulheres negras fumageiras.

Operárias em frente ao prédio da Cia. de charutos Dannemann – filial Muritiba. Muritiba-BA, início do século XX. Fonte: Arquivo Municipal de São Félix – Série: Fotos da Família Dannemann.

Diante desses marcadores raciais e de gênero, as operárias protagonizaram uma série de lutas, que chamo de críticas práticas ao modelo de produção capitalista. A partir da análise dos registros, foi possível saber como algumas delas foram classificadas por “indisciplina”, “insubordinação”, “desobediência” ou acusadas de serem “mal criadas” devido às rebeldias diante das normas fabris. O caso mais emblemático foi o da operária Maria de Lourdes Conceição, aneladeira, negra, de 19 anos. Ela foi “demitida em 20 de março de 1945” quando em resposta “por uma simples e justa reclamação do mestre Sr. Renato Rebouças”, “cobriu-o de impropérios sem se intimidar com a presença do diretor da Cia. Dannemann, João Adolfo Jonas, que se sentiu “desrespeitado em sua autoridade moral nesta Companhia”. Neste sentido, o levante de mulheres racializadas, como Maria Conceição, poderia desarranjar os desejos patronais de controle e dominação em uma estrutura de organização do trabalho que reproduziu os racismos de gênero, levando a empresa a retaliar a operária com a demissão.

Além das desobediências, as operárias também se utilizaram do furto de folhas de fumo como crítica prática aos modelos produtivos. Ao surrupiar essas folhas, as trabalhadoras atuavam em lutas silenciosas, quase sempre com a cooperação das demais, provavelmente em busca de restituir os rendimentos arrancados pela exploração e na busca pelo “trabalho justo”. Esse tipo de conduta gerou um dos pontos de tensões entre as fumageiras e os mestres de seção. Uma vez que a vigilância dos mestres estava atenta a observar as operárias sem deixar escapar o controle sobre as matérias primas. O acesso às folhas era de uso muito diverso pelas fumageiras, desde a higiene pessoal (no caso de usar as folhas para mascar e limpar os dentes) até o emprego na fabricação clandestina de charutos. Mercado que muito preocupou o patronato, por criar versões “piratas” das grandes marcas, e romper de alguma maneira com o monopólio das empresas. Afinal, além das operárias subverterem as normas com a prática dos furtos, fora das manufaturas, elas estavam no controle de uma produção informal de charutos.

De outra forma, as trabalhadoras também acionavam seus legados socioculturais e de identidade racial para criar agitações nos processos produtivos. Na empresa Suerdieck & Cia, eram constantes os casos das mulheres negras usarem a “magia do candomblé” para criar tumultos. Como indica o memorialista João Ubaldo Porto Filho, “vez por outra, uma operária entrava em estado de transe, o popular ‘deu o santo’, e quando isto ocorria outras duas ou três também incorporavam”. Essas ações paralisavam o “setor, até a retirada das manifestadas, que naquele dia não mais trabalhavam, pois eram imediatamente retiradas da fábrica”. A recorrência desses casos levou o patronato a criar normas específicas, com multas para esse tipo de ocorrência, afastando a prática. Esse elemento é fundamental para pensar algo que sinalizou o antropólogo James Scott no livro A dominação e a arte da resistência. Segundo ele, em contexto de dominação masculina, a existência de rituais e a possessão por espíritos poderiam abrir caminhos para sujeitos subalternizados, como as mulheres, exprimir um tipo de protesto oblíquo, visando sempre atribuir reivindicações, contestações de poderosas normas de dominação para algum poderoso espírito e não às mulheres em si.

Apesar dos exemplos tratados acima, as fumageiras não se restringiram somente aos processos de luta dentro das empresas, mas constantemente estiveram envolvidas em lutas abertas, nas paralisações, nas greves, no movimento operário, na formação de sindicatos e de organizações religiosas, ou até mesmo na política partidária. Essas e outras maneiras de lutas de classe manifestaram suas visões de mundo e de identidade quase sempre matizando as experiências raciais, de classe e de gênero contra o controle patronal. Embora as estruturas sociais estivessem a informar as hierarquias, as fumageiras buscavam na crítica prática e em seus próprios termos, reinventar a sua existência no mundo e manufaturar a história. 

Assista ao vídeo do historiador Carlos Augusto Braga no Acervo Cultne sobre este artigo: 

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF08HI01 (8º ano: Identificar os principais aspectos conceituais do iluminismo e do liberalismo e discutir a relação entre eles e a organização do mundo contemporâneo); EF08HI19 (8º ano) Formular questionamentos sobre o legado da escravidão nas Américas, com base na seleção e consulta de fontes de diferentes naturezas; EF08HI20 (8° ano: Identificar e relacionar aspectos das estruturas sociais da atualidade com os legados da escravidão no Brasil e discutir a importância de ações afirmativas); EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados); EF09HI04 (9º ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil).

Ensino Médio: EM13CHS401 (Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais e sociedades com culturas distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços (urbanos e rurais) e contextos.); EM13CHS601 (Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país); EM13CHS101 (Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais).


Carlos Augusto Braga

Doutorando em História Social (IFCH-UNICAMP); Professor da Secretaria Municipal de Educação de Muritiba. 

E-mail: gutto_guitar@hotmail.com

Instagram @caugusto.snb

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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