Tag: Historiadoras Negras

Quem conta um conto, aumenta um ponto: a trajetória da luxuosa senhora baiana Rita Gomes da Silva

Em meados do século XVIII, uma mulher negra escandalizou a sociedade baiana por sua riqueza, luxo e inteligência. Rita Gomes da Silva, de alcunha Rita Cebola, morou na conhecida Cidade da Bahia, Salvador. Mulher negra, possivelmente escravizada, casou-se duas vezes com homens importantes. Nesse meio tempo conquistou sua liberdade e, quando cabia, esbanjava luxo colonial. No que foi possível reconstruir de sua trajetória, Rita da Silva soube usar os recursos disponíveis a seu favor e de seus pares. Por isso o codinome de “cebola” fazia referência a sua astúcia e versatilidade. Sua fama marcou histórias por séculos. A notável trajetória de Rita continuou sendo lembrada no século XXI, ora como uma mulher negra, vendedora de verduras, conhecida por sua habilidade de negociar espaços de sobrevivência no interior daquela sociedade, ora como um exemplo da importância de mulheres negras baianas ao longo da história.   Ana Bittencourt, membro de família importante de ...

Leia mais

Musas Negras: raça, gênero e classe na vida de Gilka da Costa Machado

Em 2018 assistimos ao florescer da maior campanha popular para eleição da primeira mulher negra como imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL): Conceição Evaristo. Porém, os imortais desprezaram quase que completamente tal campanha, pois a premiada e consagrada escritora recebeu apenas um voto. Essa suposta indiferença tem explicação histórica: é um comportamento característico da tradição racista, patriarcal e aristocrática dos cânones literários moderno-coloniais. As regras que legitimam a produção de conhecimento são, até hoje, eurocentradas, excluindo os saberes que não se encaixam neste padrão. Isto faz com que um país de maioria negra como o Brasil mantenha esta ausência de escritoras negras na ABL e, com isso, o reconhecimento de seus saberes, de suas escrevivências. Não que nós, escritoras afro-diaspóricas, deixemos nos silenciar. Mulheres negras, ameaçadoramente brilhantes, perturbaram e perturbam a (des)ordem do patriarcado colonizador que institui também as regras de produção do conhecimento considerado legítimo. Este é o ...

Leia mais

Imprensa e cidadania em São Tomé e Príncipe (1911-1925)

Em 10 de julho de 1911, no primeiro número do periódico Folha de Annuncios / A Verdade (o jornal mudou de nome em seu terceiro número), publicou-se um texto sem título, mas assinado por Josué Aguiar, que dizia: “Os nativos d’esta ilha não têm outra ambição que não seja lutar pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e pelo interesse moral e material da terra que os viu nascer. Querem que justiça se faça a todos, sem distinção de cores e de raças e é isso que solicitam do governo central nas suas reclamações. É necessário que isto se diga para que se saiba e não se façam juízos errados”. Em março de 1925, a redação do jornal O Combate, em texto de apresentação, por sua vez, afirmou o seguinte: “Não fazemos programa porque o nome do nosso jornal diz tudo. O Combate, nasce para a luta; luta sem tréguas nem quartel ...

Leia mais

O patrício José Cláudio Nascimento e as experiências negras de educação popular

Já são muitos os/as estudiosos/as que reconhecem a figura de Abdias do Nascimento quando se trata do ativismo negro no período pós-abolição. Isso não acontece por acaso, visto que esse intelectual negro esteve em diversas frentes de ativismo e resistência da população afro-brasileira. Entre uma das mais famosas, estava a participação na gestão do Teatro Experimental do Negro (TEN), onde com outros intelectuais negros, como Guerreiro Ramos, construiu seminários de proporção nacional. De todo modo, sabemos que ele não atuou sozinho e entre as figuras que faziam parte de sua rede de sociabilidade está o patrício negro José Cláudio Nascimento, personalidade ainda muito pouco conhecida entre os/as pesquisadores/as que investem na história do pós-emancipação e da educação brasileira.  Em 5 de novembro de 1949, o jornal Diário Carioca reporta uma das atividades promovidas pela Conferência Nacional do Negro, capitaneada pelo já citado Teatro Experimental do Negro. A mesa daquele dia ...

Leia mais

O Pioneirismo haitiano nas lutas pela liberdade no Atlântico

Quando falamos em liberdade, igualdade de direitos, cidadania, democracia, países europeus e os Estados Unidos são facilmente acionados como lugares pioneiros e espaços de protagonismo. A Revolução Americana e a Revolução Francesa são exemplos constantemente mobilizados para justificar uma “aspiração” quase natural desses países à liberdade e à igualdade. Porém, a pretensa universalidade do acesso aos direitos reivindicada por esses países é colocada em xeque quando observamos a ausência de debates raciais e de discussões sobre a abolição da escravidão nas demandas levantadas por esses movimentos. Durante a Revolução Francesa, poucas vezes a abolição da escravidão foi uma pauta real dos debates. Quando o assunto surgia na Assembleia, quase sempre puxado pelos membros da Societé des Amis des Noirs , as discussões eram ambíguas e falavam mais sobre o fim do tráfico de escravizados e as relações econômicas com as colônias do que propriamente sobre o ...

Leia mais

O trânsito para a liberdade e a precarização do trabalho livre no final do século XIX

O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Apesar da resistência de mulheres e homens escravizados e de movimentos antiescravistas nacionais e internacionais, aqui ela sobreviveu à conjuntura global antiescravista surgida com a crise dos sistemas coloniais. A abolição vai acontecer apenas no final do século XIX, respaldada por legisladores, depois de um conjunto de normas jurídicas que pretendiam uma “transição” para o trabalho livre mediante a indenização das elites escravistas, do controle e da disciplina dessas trabalhadoras e trabalhadores que passariam a ter liberdade para negociar a força de trabalho. A resistência à abolição da escravidão foi justificada pela dependência do trabalho cativo e pela racialização do comportamento em liberdade dessas mulheres e desses homens, que seria marcada por insubordinação, desordens e perversão moral, como argumenta a historiadora Wlamyra Albuquerque. Aliás, esses argumentos foram usados em todas as sociedades que passaram por processos emancipacionistas, desde os Estados ...

Leia mais
Arquivo Pessoal

Mulheres negras, política e cultura do cancelamento no Brasil republicano

Em 23 de agosto de 1946, o jornal baiano O Momento, vinculado ao então Partido Comunista do Brasil (PCB), estampava em sua segunda página uma matéria sobre o protagonismo da líder sindical Luiza Matos na região do Recôncavo Baiano. De acordo com a reportagem, ela liderou a criação do sindicado dos trabalhadores na Indústria do Fumo em São Félix, fundado em 19 de novembro de 1935. Entre 1937 e 1942, a sindicalista assumiu a presidência do sindicado e enfrentou muitas perseguições da classe patronal. Na época, ela trabalhava na fábrica Dannemann. Em decorrência de suas atividades políticas, foi demitida. Forjaram uma arapuca e acusaram-na de roubo para justificar a demissão. Ela buscou a justiça, provou sua inocência e foi reintegrada, mas não voltou à mesma indústria. Foi trabalhar na fábrica Suerdiek, de onde também foi demitida e readmitida após contendas envolvendo perseguições dos patrões e inquéritos policiais.  [caption id="attachment_158721" align="aligncenter" ...

Leia mais

Coluna ‘Nossas Histórias’ – uma retrospectiva em 16 capítulos

A coluna “Nossas Histórias” fechou 2020 com a auspiciosa marca de dezesseis títulos publicados nos formatos de artigos e vídeos explicativos sobre a vida da gente negra no Brasil e no mundo! São histórias que a História já conta por meio da escrita e das vozes de historiadoras negras e historiadores negros de diversas regiões brasileiras. Graças à parceria entre a Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros, o Geledés e o Acervo Cultne, desde o dia 16 de setembro, em todas as quartas-feiras, são apresentados conteúdos produzidos especialmente com o objetivo de fortalecer o diálogo com profissionais da Educação Básica, ativistas e demais pessoas interessadas em História Negra e Antirracista. Confira o vídeo da Retrospectiva da Coluna “Nossas Histórias” em 2020, que conta com os depoimentos de Sueli Carneiro e Dom Filó, a quem a Rede de HistoriadorXs NegrXs agradece publicamente pelo exemplo, a confiança e o apoio recebidos!  ...

Leia mais

Protagonismo feminino e economia solidária na África contemporânea

Com frequência, mulheres africanas têm liderado encontros internacionais, com ou sem presença de lideranças políticas da região, destacando-se como agentes cruciais para a melhoria das condições de vida da população rural, com vistas ao acesso à terra, a mercados e ao combate às desigualdades de gênero. Este texto tem como prioridade chamar atenção para o protagonismo feminino na África Subsaariana no atendimento de suas necessidades na agricultura de menor escala ou na mudança da realidade do espaço coletivo em que essas mulheres estão inseridas. Como parte de uma pesquisa independente em estágio inicial, foram selecionados aspectos presentes nas seguintes sub-regiões: África Ocidental, África Oriental, África Central e África Austral. Mapa das Regiões AfricanasFonte: Centro Integrado de Aprendizado em Rede https://historiaecultura.ciar.ufg.br/modulo2/capitulo5/conteudo/arquivos/map3.jpg Defendo que reflexões mais profundas sobre populações rurais africanas não podem prescindir das conexões entre grupos de pequenos(as) agricultores(as) e governos, setor privado, organismos internacionais ou ...

Leia mais

“Negro tem que ir pro pau”: heranças da ditadura no genocídio do povo negro no Brasil hoje

A frase do título deste artigo foi proferida por Luiz Alberto Abdala, delegado da 44ª Delegacia de Polícia do Distrito de Guaianases, São Paulo, e transcrita em um documento confidencial (estrategicamente não assinado) da Divisão de Informações do DOPS/SP, datado de 15 de maio de 1978. O documento tratava das comemorações do dia 13 de maio em razão dos 90 anos da abolição da escravidão. Não à toa, a delegacia por ele capitaneada protagonizou o episódio racista que desencadeou na formação do Movimento Negro Unificado (MNU) meses depois, em julho de 1978. O Brasil ainda vivenciava uma ditadura militar quando Robson Silveira da Luz, feirante negro de 27 anos, foi acusado de roubar frutas e, por conta disso, sofreu torturas e foi assassinado por policiais militares do referido distrito. A reação da militância negra não tardou e, em resposta a esse e outros causos racistas, formalizou-se a entidade do movimento ...

Leia mais
Jaques Felix Trindade. “Capa”. Jornegro, São Pa... (1978)

“Nossas Histórias: vidas, lutas e saberes da gente negra”, uma exposição necessária

Sob a curadoria da Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros, Geledés – Instituto da Mulher Negra, em parceria com Acervo Cultne e Google Arts & Culture, dá início ao projeto de exposições virtuais “Nossas Histórias: vidas, lutas e saberes da gente negra”. Essa ação é entendida como uma maneira de reposicionar as pesquisas acadêmicas de excelência produzidas por historiadoras negras e historiadores negros acerca dos mais diversos temas que envolvem pessoas de ascendência africana no Brasil e no mundo. O projeto, assim como outras iniciativas que temos desenvolvido, busca atender aos propósitos da reeducação das relações étnico-raciais e do letramento histórico antirracista. A primeira exposição da série visa a compreensão do 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra e estará completa nesta plataforma até dezembro. As seis “salas virtuais” apresentarão informações que vão das práticas de memórias da gente negra no século XIX até as reflexões ...

Leia mais

“Eu nasci e me criei aqui”: o processo de reconhecimento do território quilombola do Vale do Iguape

“Organizem-se, é em legítima defesa, porque não há mais limite para a violência racista”. Inicio esta abordagem sobre o processo de reconhecimento do território quilombola do Vale do Iguape, trazendo à baila a convocação feita por Sueli Carneiro no FestiPoa Literária-2019, momento no qual a filósofa chamou atenção para a importância das organizações negras no combate ao racismo, que estrutura a sociedade brasileira.  Mapa das Comunidades do Vale Iguape. Acervo particular de Ivan Faria. O Vale do Iguape é uma microrregião pertencente ao município de Cachoeira no Recôncavo da Bahia, composta por 18 comunidades quilombolas que se constituíram em espaços de antigos engenhos de açúcar da Freguesia de São Thiago do Iguape. Defendo, a partir das premissas lançadas pelo historiador Walter Fraga Filho, que as comunidades dessa região são frutos de um dos sentidos de liberdade acionados pela população egressa do cativeiro – a permanência! Continuar ...

Leia mais

A “mulata trágica”: repensando a categoria mulata no Brasil

O século XXI tem sido o século das imagens. Disputas de narrativas tem se dado no contexto das redes sociais, em que imagens viralizam em curto espaço de tempo, alimentando o imaginário social e definindo o lugar das pessoas no mundo. Neste contexto, a socióloga estadunidense Patrícia Hill Collins, em Pensamento Feminista Negro, apresenta-nos as imagens que são internalizadas como “imagens de controle”. Diferentemente dos estereótipos — que partem da elaboração de imagens negativas —, as imagens de controle podem produzir lugares de poder e privilégio para determinados grupos, bem como naturalizar lugares de sujeição, hiperssexualização e violência para outros.  O lugar do nosso corpo no mundo, sua inscrição social, passa por uma tomada de consciência que, como aponta Frantz Fanon, na obra clássica Pele negra, máscaras brancas, muitas vezes é desenvolvida por um estímulo externo, um olhar do outro, que nos fixa e constrói as representações. Fanon narra que ...

Leia mais

Sentidos da “verdadeira liberdade”: A Escola Agrícola da Bahia e os destinos da população negra livre do Recôncavo

No pequeno município de São Francisco do Conde, no Recôncavo da Bahia, encontram-se as ruínas da primeira escola destinada à formação agrícola do Brasil. Criada por meio do Decreto n. 5.957, de 23 de junho de 1875, foi consequência de uma política iniciada em 1859 pelo imperador D. Pedro II que, em viagem ao Nordeste do país, decidiu criar alguns Imperiais Institutos de Agricultura. No ano de 1868, finalizam-se as obras de construção, porém a sessão solene de inauguração aconteceu somente em 15 de fevereiro de 1877, passando a funcionar em regime de internato e externato. Os trabalhos iniciaram com o número de 20 africanos livres da localidade. A saída desses africanos é informada pelo diretor no ano seguinte, empregando, por sua vez, moradores da região próxima, servindo como trabalhadores e serventes “conforme a melhor aptidão de cada um, alguns que não estavam acostumados com a enxada já vão indo ...

Leia mais
Arquivo Pessoal

“Para os alfinetes de Francisca!”: laços de solidariedade entre africanas e crioulas no Recife escravista

Era manhã de segunda-feira, dia 13 de novembro de 1854, quando a “preta da Costa da África” Antônia Monteiro, de nação nagô, compareceu ao cartório do tabelião Porto Carreiro, na cidade do Recife, capital pernambucana, para registrar seu testamento. Entre suas vontades, declarou que deixava a Antônio da Silva os móveis de sua residência; às “viúvas e órfãs pobres e honestas, cuja capacidade fosse examinada pelos seus testamenteiros”, o produto da venda de sua casa própria depois de deduzidas as despesas de seu legado; a Victoria e a Joana Monteiro, 5$000 réis a cada uma respectivamente. E, a Francisca a quantia de 10$000 réis “para os seus alfinetes”.  Registro de Testamento de Antônia Monteiro (fotografia de Valéria Costa) Registro de Testamento de Antônia Monteiro (fotografia de Valéria Costa) O que seriam os alfinetes de Francisca, senão os pequenos gastos ...

Leia mais

Mulheres de luta: as mães de ingênuos por força da Lei do Ventre Livre

Em 1880, um número considerável de mães solteiras escravizadas com filhos menores que viviam no Rio de Janeiro, o Município Neutro, recebeu carta de alforria graças aos recursos do “Fundo de Emancipação de Escravos”. O fundo foi um instrumento criado por meio da Lei n. 2.040, de 28 de setembro de1871 – aquela que ficou conhecida como a Lei do Ventre Livre. Ele tinha por fim reunir recursos para a libertação de quantas pessoas escravizadas fosse possível nas províncias e na capital do Império, também chamada de Município Neutro ou corte. Sendo assim, o registro de 271 mulheres alforriadas na capital imperial nos é valioso sob duas perspectivas.  Primeiramente, o dado chama atenção pelo fato de elas constituírem uma das categorias familiares que deveriam ser priorizadas no acesso aos recursos pecuniários. Ou seja, de acordo com os critérios de classificação utilizados por uma junta constituída para qualificar, selecionar ou excluir ...

Leia mais

Welcome Back!

Login to your account below

Retrieve your password

Please enter your username or email address to reset your password.

Add New Playlist