quinta-feira, setembro 29, 2022
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As trajetórias das primeiras médicas negras da Faculdade de Medicina da Bahia

No Brasil, a profissão de médico ou médica é vista por um prisma de endeusamento que remonta ao nosso passado escravagista e colonial. Até mesmo o epíteto de “doutor/doutora”, extinto no Decreto n. 11.530 de 1915, item por vezes obrigatório para falar com ou mencionar esses profissionais, é carregado de inúmeras insígnias de poder e deferência ante à maioria da população. Por vezes, o jaleco torna-se um manto real. Muito distante disso, está o imaginário brasileiro acerca de médicos e médicas negras. É como se esses não existissem ou devessem não existir, sendo muito comum a denúncia de casos de racismo a partir dessa invisibilização e até mesmo invalidação. 

Somada ao racismo, sempre me chamou atenção a falta de conhecimento de referências negras femininas na área das ciências médicas, e como isso nos impactava de forma coletiva. Era como se não pudéssemos nem sonhar em sermos médicas, biomédicas, cientistas, profissões lidas como brancas. Foi justamente esse “não-sonhar” que me moveu a pesquisar sobre essas mulheres. Assim, te convido a conhecer um pouquinho da vida das primeiras médicas negras da Bahia, e a sonhar que podemos e devemos ocupar todos os espaços desse mundo.

Maria Odília Teixeira (1884-1937) e Ítala Silva de Oliveira (1897-1984).Fontes: Acervo da Bibliotheca Gonçalo Moniz/Memória da Saúde Brasileira/UFBA, Sem autoria. S/D. Consultado em abril de 2014.

Provavelmente Maria Odília Teixeira e Ítala Silva de Oliveira nunca se encontraram, mas dividiram caminhos em comum e deram passos juntas, embora separadas, rumo à tão sonhada formação em medicina. Vários aspectos aproximam as experiências dessas mulheres como os caminhos profissionais e a condição racial, sendo Maria Odília e Ítala Silva, respectivamente, a primeira e a segunda médica negra formada na Faculdade de Medicina da Bahia (FAMEB). O feito de ambas foi separado por longos dezoito anos, tendo Odília se formado em 1909 e Ítala, em 1927, o que representa fortes indícios de que durante o século XX as restrições e impedimentos, ainda que não formais, vigoravam nessa instituição de ensino elitizada. 

Mas antes de saber mais sobre a formação dessas sacerdotisas negras de Hipócrates, vamos conhecer um pouco de suas vidas. Maria Odília Teixeira nasceu em 5 de março de 1884, na cidade de São Félix, no recôncavo baiano. Sua mãe se chamava Josephina Luiza Palma e era filha de uma mulher liberta, e seu pai, José Pereira Teixeira, vinha de uma família tradicional e, já na época do nascimento de sua filha, era um conhecido médico na região. Crescendo no recôncavo baiano, Maria Odília acompanhou, no fim do século XIX, a luta das mulheres de elite para conquistar o direito ao ensino superior no Brasil. Essa luta, que se deu no terreno coletivo, também teve muitas contribuições e inspirações em trajetórias individuais. Duas mulheres que simbolizaram essa batalha comunitária feminina foram as pioneiras brasileiras na medicina: Maria Augusta e Josefa Agueda. Na busca de seus sonhos e com o impedimento no Brasil, rumaram para Nova York para se tornarem médicas. 

Maria Odília percebeu essas possibilidades que se alargavam para as mulheres e que, somadas à escotilha racial já experimentada por seus irmãos José Teixeira, advogado, e Joaquim Teixeira, médico, permitiram seu avanço nos estudos. Aqui, entendemos que a sua ascensão educacional se deu por uma série de fatores, pois como afirma Lélia Gonzalez: “Ser negra e mulher no Brasil […] é ser objeto de tripla discriminação, uma vez que os estereótipos gerados pelo racismo e pelo sexismo a colocam no nível mais alto de opressão”. Logo, a sua ascendência paterna e branca, além do patrocínio de seus estudos por seu irmão Tertuliano Teixeira, foi crucial para a materialização de sua educação, principalmente se levarmos em consideração que a escravidão só tinha sido extinta oficialmente cerca de duas décadas antes da sua formação em medicina e sua avó materna ainda viveu nessa condição por parte da vida. Odília rumou para Salvador com apenas 14 anos para estudar no Ginásio da Bahia, prestigiada instituição educacional, o que mais tarde lhe conferiu as credenciais para o curso de medicina.

Já Ítala Silva de Oliveira nasceu em 18 de outubro de 1897, na cidade de Aracaju em Sergipe. Era filha de Silvano Auto de Oliveira, primeiro sargento do exército e considerado herói na Guerra do Paraguai, e dona Marcionila Silva de Oliveira, que morreu precocemente. Foi educada no regime de internato no conceituado e tradicional Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Na época, a opção de manter as meninas de famílias abastadas ou remediadas em regime de internato era uma escolha corriqueira, sobretudo se a jovem em questão tivesse perdido a mãe, que seria a responsável por transmitir os códigos de moral e educação.

Inaugurando sua primeira incursão a espaços tradicionalmente masculinos, Ítala matriculou-se no Atheneu Sergipense, onde fez o curso secundário. As suas pretensões já se mostravam grandiosas nesta escolha, pois se tivesse optado pelo curso normal, como era de costume entre as moças da época, não poderia posteriormente tentar a carreira da medicina. O Atheneu forneceu os subsídios necessários para que depois pudesse adentrar na FAMEB, onde “a composição curricular abrangia Línguas (Latim, Inglês, Frances, Alemão e Português), Matemática, Aritmética, Álgebra, Geometria, Trigonometria…”. Em 13 de dezembro de 1914, Ítala recebeu o Grau de Bacharel em Ciências e Letras, sendo escolhida como oradora da turma.

Ítala passou alguns anos trabalhando como professora num curso noturno para meninas e senhoritas. Em 1916, assumiu uma turma na Liga Sergipense contra o Analfabetismo, acumulando o cargo de primeira secretária, no qual permaneceu até 1919, quando foi nomeada conservadora de Gabinetes da Escola Normal e professora adjunta da mesma instituição. Os altos postos educacionais conquistados por Ítala em Sergipe nos informam o local de prestígio que ela conseguiu ocupar. No entanto, isso não foi suficiente para que ela persistisse na carreira educacional e, pelo contrário, pode ter propiciado confiança para a busca de uma segunda formação, talvez o seu maior sonho: a medicina.

O capital cultural adquirido por Maria Odília e Ítala Silva durante os anos em que estudaram no Ginásio da Bahia e no Atheneu Sergipense não só lhes rendeu o bacharelado em Letras e Ciências, mas as habilitou para o prestigiado curso de medicina. A formação oferecida nessas instituições, que tinham a presença masculina como maioria, objetivava educar e ilustrar as elites. A influência e a condição social da família de ambas foram fatores decisivos para que as duas desenvolvessem seus estudos. 

Faculdade de Medicina da Bahia, Terreiro de Jesus, Salvador. Disponível em http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/pt/verbetes/escirba.htm.

A força da luta coletiva feminina, em âmbito mundial e nacional, é outro fator a ser destacado como ponto de interseção entre Odília e Ítala. Ainda que esses avanços contemplassem majoritariamente as mulheres brancas ricas, não podemos deixar de observar que foram esses caminhos abertos que permitiram que mulheres negras, mesmo que em minoria, pudessem acessar outros níveis educacionais. Mostra de que as pautas feministas foram importantes na experiência dessas mulheres foi a esperança que Ítala Silva depositou nessa causa. Em 1916, ela escreveu um texto em que dizia: “como as águas das inundações que pouco a pouco vão aumentando de volume até atingirem considerável altura, assim o movimento feminista cada dia que se passa mais se desenvolve, […] e vôe alta em procura da liberdade”.

Após a defesa de suas teses doutorais que lhes garantiram o título de doutoras, Maria Odília em 1909, e Ítala Silva em 1927, partiram para o mundo do trabalho. Odília desenvolveu uma proveitosa carreira nas cidades de Cachoeira e São Félix, no recôncavo baiano, chegando a ocupar, em 1914, uma cadeira como auxiliar de ensino na FAMEB, sendo considerada a primeira professora negra da instituição. Em 1921, a médica se casou com Eusínio Lavigne e encerrou sua carreira. Sua decisão foi justificada pela vontade de se dedicar à família, cuidar de seus filhos e marido. Essa “escolha”, que foi carregada de diversas nuances, pode ser entendida e discutida em diversas dimensões, como busquei demonstrar em minha pesquisa de mestrado.

Já Ítala, depois de formada, “mudou-se para o Rio de Janeiro, assumindo a função de médica obstetrícia e ginecologista num posto público do bairro da Penha. Posteriormente, assentou clínica particular no mesmo local”. Após esta mudança, Ítala não voltou à sua terra natal e suas contribuições a jornais e revistas de cunho feminista cessaram. Ítala permaneceu clinicando no Rio de Janeiro até a sua morte, em 1984, não se casando ou tendo filhos e dedicando boa parte de sua vida à profissão, o que, como ela mesma apontou em sua tese, seria um bom destino à vida de uma mulher.

Conhecer duas mulheres negras que figuraram em espaços tão importantes no momento em que a população negra brasileira ainda lutava pela cidadania plena é o primeiro passo para enfrentarmos o apagamento e a invisibilização da nossa história. Essa história que cada vez mais tem se enegrecido, se autoafirmado e reivindicado para si todos os lugares em que queremos estar. Se infelizmente demorou quase um século para que falássemos de Maria Odília Teixeira e Ítala Silva de Oliveira, que possamos sonhar, ouvir, falar e ver tantas outras Marias e Ítalas em todas as profissões e lugares desse país. Avante, meninas!

Assista ao vídeo da historiadora Mayara Santos no Cultne.TV sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados); EF09HI04 (9° ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil).

Ensino Médio: EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos); EM13CHS502 (Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais).


Mayara Santos 

Doutoranda em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); E-mail: maypjs22@hotmail.com

Instagram: @mayara.priscilla22. 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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