Menina de ouro

Fonte: Folha de São Paulo –

Foram 50 segundos de vídeo em que a imagem de Bárbara Leôncio foi transmitida para o mundo. Pouco mais que o dobro dos 23s50 que ela levou para cruzar os 200 metros da pista de Ostrava (República Tcheca) e garantir o ouro inédito do mundial feminino de atletismo para menores ao Brasil, em 2007. Apesar do feito, o país só descobriu a “maior promessa do atletismo brasileiro” após a exibição do filme que mostrava sua rotina em Curicica, subúrbio do Rio, como parte da estratégia de marketing para convencer o comitê olímpico a escolher o Rio como sede dos Jogos em 2016.
Assim como quando faturou o ouro, dois anos atrás, Bárbara chorou ao fim da apresentação. Só que, desta vez, quem estava ao seu lado não era o treinador -e sim o presidente da República.

 

“Não via a hora de voltar”, diz Bárbara, ao falar dos nove dias em que ficou em Copenhague, para onde viajou como membro da comitiva olímpica da candidatura carioca. “Só comia macarrão e pizza.”

Na quarta-feira passada, a coluna a encontrou nos fundos do quintal da Escola Municipal Silveira Sampaio, onde treina. Era dia de festa: Bárbara estava completando 18 anos.

 

Treino de manhã, compromisso com eventuais patrocinadores à tarde, prova de literatura à noite: Bárbara não teve folga no aniversário. Às 8h, já fazia aquecimento e se queixava por não ter tido tempo sequer para arrumar o quarto desde que voltou de viagem. “Toda hora recebo ligação de gente que nem sei quem é.”

 

“É hora de trabalhar”, grita o treinador. Bárbara segue para uma pista improvisada no fundo da escola, de 78 metros -uma oficial tem 400. O treino logo se transforma numa espécie de teste de resistência, ao melhor estilo “Tropa de Elite”: em quatro horas, Bárbara faz 1.800 abdominais.

É isso mesmo: 1.800 divididos em três etapas de 600. Corre e salta sobre barreiras sem olhar para o chão -de lado, de costas ou girando como um pião. “Tem dia em que o Paulo leva a gente para correr numa subida. O nome do lugar é “Caminho do Céu'”, diz a fundista Marcela de Carvalho, 21, amiga de Bárbara. Com tanto esforço, a atleta ganha e perde peso com facilidade -depende da intensidade do treinamento. Ninguém sabe dizer exatamente quanto ela pesa.

 

Ao fim do treino, perto do meio-dia, a atleta pega a sua mochila da Rio-2016 e tenta sair pelos fundos. “Volta aqui. Você tem que dar atenção para o pessoal que está te esperando”, diz o treinador. Ela ameaça fechar a cara, quer almoçar.

Mas recua. Uma TV pede para gravar uma cena de Bárbara correndo. Ela para. Respira. E corre. A imagem não ficou boa. Ela volta à pista e reinicia a corrida. Desde domingo, quando voltou ao Brasil, não passou um dia sem dar entrevistas.

 

Todos os dias, Bárbara almoça na casa de Servo, que fica a um quarteirão de distância da escola em que treina. Ele é um dos coordenadores do instituto Lançar-se Para o Futuro, que apoia jovens de baixa renda que querem praticar esporte. Sua função é a de “caçador de talentos”: ele vai a escolas municipais e seleciona os mais promissores para treinar. Além de Bárbara, ele monitora cerca de cem jovens.

 

A velocista foi descoberta aos nove anos, correndo nas ruas da favela Dois Irmãos, em Jacarepaguá. Na época, Servo treinava crianças ali por perto, num terreno cheio de eucaliptos. Bárbara morava numa casa de um cômodo que dividia com oito pessoas. Tinha “perninhas fininhas, tão fininhas que faziam o joelho saltar”, diz Servo. E já corria muito.

 

Em seis anos, ela já batia recordes e conquistava sua primeira medalha mundial no campeonato da República Tcheca. Pouco antes da vitória, conta o treinador, ela teve um apagão. “Eu disse a ela: arruma os blocos de saída [espécies de “tijolinhos” que dão impulso ao corredor] para aquecer. Ela fazia isso todos os dias, mas virou e disse: “Não sei arrumar isso aí, não”. Eu falei: “Então deixa”.

Fiquei só olhando.” Em silêncio, a atleta fez uma saída “perfeita” e o treinador, já na arquibancada, gritou: “Que maravilha!” “Ela escutou, virou para mim e sorriu. Aí, tive certeza de que iria ganhar.” Servo atesta: “Quando você é pobre e não tem vivência, chega lá fora, vê os atletas americanos e se assusta. É um exército”, diz. “Aquela menina [aponta para uma colega de Bárbara] tem um potencial enorme. Chega na hora, treme.

” Há cerca de seis meses, Bárbara começou a frequentar psicólogo. Segundo Servo, com medo de competir, ela “inventava” dores. “A dor era aqui [diz, mostrando a cabeça].” Se não fosse a psicóloga, diz ele, Bárbara não conseguiria agir com a desenvoltura que mostrou em Copenhague.

 

Servo morava no Leblon antes de começar a trabalhar como professor de educação física em Jacarepaguá. Acabou se mudando para o bairro. Ele diz ser frequente acordar no meio da noite, pensando nas dificuldades que seus alunos podem enfrentar por causa da falta de apoio. “”Tão” achando que vão fazer milagre em 2016, mas não vão. O atletismo é o esporte mais importante das Olimpíadas. São 141 medalhas. No futebol, são só duas competições”.
No caminho para casa, Bárbara conta que acha a região “tranquila”. Reclama só do trânsito, para ela o grande problema da cidade. Elogia o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), “o mais simpático da comitiva”. Diz não acompanhar política. “Queria votar no Lula [para presidente em 2010], mas não pode. A Dilma me falaram que não tá muito forte”.

 

A internet é a principal companhia de Bárbara nas tardes em que pode descansar. No fim de semana, visita o pai, que mora em outro bairro, e vai à praia e ao shopping, na Barra da Tijuca, com o namorado. O último filme que viu foi “Os Normais 2”. Fã do grupo de pagode “Sorriso Maroto”, diz que nunca foi a um show. O namorado, Pablo Martins, 17, está “bolado”. A comemoração pelos oito meses de namoro, dias antes, foi cancelada porque a velocista precisava dar entrevistas.

 

A atleta mora num sobrado de dois quartos alugado pelo instituto numa vila da comunidade. Em cima moram o padrasto, a mãe, dois irmãos mais novos e Bárbara -que tem direito a dormir na suíte. No andar de baixo, seus tios.

 

Ela chega em casa, calça um chinelo branco de dedo. Continua com o colete laranja com a marca dos patrocinadores do instituto para que elas saiam nas fotografias. Mostra a coleção de medalhas, na mesma caixa onde guarda sua coleção de Furby, bichos de pelúcia que ganhou no McDonald’s.
Olha o relógio. Está atrasada para o compromisso com um futuro patrocinador, a Nike. Sente-se mais madura, agora que tem 18 anos? Ela mexe nos cabelos, nas pernas e engasga. “Não “tô” sabendo responder isso, não”, diz, olhando para o chão.

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