Moda e Racismo

Como posso trabalhar com Moda no contexto das Relações Raciais no Brasil? Pensando numa perspectiva interseccional, sendo mulher, negra e nordestina – dentre tantos outros marcadores sociais da diferença – como posso minimamente contribuir ao enfrentamento às matrizes produtoras da desigualdade, atuando num campo de criação visto como fútil, desnecessário e supérfluo?

Por Carol Barreto, da Revista Raça

São esses os questionamentos que me chegam de vários campos com os quais dialogo e que me estimulam a produzir a partir da reflexão sobre a relação entre imagem e autoestima nos processos de auto reconhecimento. Tenho experimentado como a Moda e todas as limitações que esse modelo impõe, pode contribuir para criar novas condições para a formação de uma diferente gramática para conceituar, refletir e informar a existência negra como uma existência política.

Legenda da Imagem: Editorial da Coleção Asè, Carol Barreto por Helemozão

Se as imagens que nos rodeiam exibem o racismo como aspecto definidor dos padrões aceitáveis de humanidade, bondade e beleza, é por meio dela mesma que penso a importância das estratégias de desconstrução e reconstrução da imagem de pessoas negras no Brasil, especialmente das mulheres negras. Tal possibilidade se efetiva a partir de uma leitura crítica das formas de produção de conhecimento, arte e política que nos são ofertadas, percebendo como são passíveis de reforçar a branquitude como modelo e prática que se instala desde a colonização.

A feminista estadunidense bell hooks faz essa provocação no texto Alisando nossos cabelos: “são nossos corpos os que freqüentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração”. Assim essa autora, muitas intelectuais negras brasileiras têm pautado o corpo, a aparência, as artes e a estética como um campo de disputa que não pode ser subestimado.

Da minha trajetória individual e profissional aos enfrentamentos no âmbito prático da moda, vejo se materializarem as estratégias de invisibilização que a estrutura racista da sociedade brasileira continuam a produzir. Como criadora de moda autoral, me inspiro a continuar trabalhando num universo limitado e excludente, pela possibilidade de expressar por meio da moda, interpretações sobre negritude e brasilidade sob a perspectiva do meu pertencimento, materializando e construindo através da visualidade da roupa, dos espetáculos cênicos que as contextualiza, de processos criativos e produtivos respeitáveis, o desafio de expressar as referências culturais que me ajudam a reconhecer e celebrar a minha ancestralidade, como pessoa oriunda do Recôncavo Baiano e reconhecer outras vozes culturais subalternizadas.

Ao me tornar consciente da minha hibridez subjetiva e profissional passo a compreender como indissociáveis esses campos de atuação como designer de moda e acadêmica, percebendo cada vez mais como é desafiadora e necessária essa interlocução ao constatar como são poucas as mulheres negras no Brasil que além de atuar no campo prático da moda – ocupando os espaços de protagonismo como criadoras – na mesma medida o fazem academicamente e assim sigo trabalhando pra quebrar a regra que nos coloca como objetos de estudo por suposição da impossibilidade da nossa autonomia.

Foto: Angeluci Figueiredo

CAROL BARRETO

Mulher Negra, Feminista e como Designer de Moda Autoral elabora produtos e imagens de moda a partir de reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero.  Professora Adjunta do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade – FFCH – UFBA e Doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade – IHAC – UFBA, pesquisa a relação entre Moda e Ativismo Político

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