Monarquia e República na “ginga” de um abolicionista e sua Guarda Negra

José do Patrocínio acabou ficando conhecido, durante sua vida na campanha abolicionista, por ser um homem de furor. Tendo relação conturbada com personagens valorizados, como Joaquim Nabuco, no ano da abolição e no seguinte, sua briga mais ferrenha foi com o movimento republicano. É importante ressaltar que Patrocínio não deixou de ser republicano para isso. Esse furor explicaria, em parte, um episódio atravessado por controvérsias: o suposto envolvimento de Patrocínio com a fundação e o funcionamento da Guarda Negra – um grupo negro criado para fazer valer a Lei Aurea e defender a Princesa Isabel e, consequentemente, a monarquia. Neste artigo procuraremos perceber como as questões de raça, a mudança de caminhar do movimento republicano e a própria forma de pensar de Patrocínio podem ou não justificar o envolvimento deste personagem com a Guarda Negra.

José do Patrocínio. O Malho, 4 de fevereiro de 1905, p. 11. Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Entre 1864 e 1874, a população escravizada nos locais cafeeiros pulou de 645 mil para 809 mil, o que colaborou bastante para que um gigantesco grupo de negros acabasse por morar nas áreas agrícolas e nos núcleos urbanos do território do sudeste do Brasil.

Estadistas da monarquia, inseguros por esse elevado acúmulo de negros na região, enxergavam no movimento o estímulo para motins e evasões no território. Estes estímulos de fato ocorreram com a agitação da ação abolicionista, na década de 1880, mobilizadas por associações como a  Confederação Abolicionista, de André Rebouças e José do Patrocínio.

Abolicionistas como José do Patrocínio procuraram pacificar os anseios acerca das classes sociais ao divulgar artigos louvando as características dos ex-escravizados. Para a Confederação Abolicionista e José do Patrocínio, era indispensável modificar a mente do povo carioca que relacionava os ex-escravizados à violência urbana. Para Patrocínio, a incorporação do negro era pela salvaguarda das entidades políticas ao sustentar o Império no terceiro reinado e ao capacitar os ex-escravizados para o emprego assalariado tanto nas propriedades rurais quanto no ambiente urbano. Pela convicção de conserto dos problemas, ensino e incorporação na política, as pessoas negras ficariam capacitadas para estar na sociedade. José do Patrocínio foi incumbido da disseminação desse conceito na redação da seu jornal, a Cidade do Rio, no ano de 1887 até o início da República, em 1889.

A consolidação do Partido Republicano guiou o gabinete de João Alfredo de Oliveira a dar suporte imediato aos bandos de capoeiristas do território da Lapa e Santana, que fariam a temerosa Guarda Negra. Ela foi fixada por José do Patrocínio, em 25 de setembro de 1888, na redação do jornal Cidade do Rio, como um grupo de salvaguarda da Monarquia em frente das ostensivas manifestações de republicanos nas reuniões nos arredores do centro da cidade.

Patrocínio não julgava que essa incorporação teria de integrar os efeitos dos negros em seu ambiente social, uma vez que essas pessoas tiveram convívio com esta sociedade no dia a dia no momento em que viviam como escravizados. Vale recordar que os negros que eram dos grupos já eram do ambiente urbano como livres ou escravizados. Igualmente possuíram convívio com o ambiente político por predileções variadas em relação aos partidos. Para eles, a abolição iria gerar um partido político para apagar a diferença dos brancos e proporcionar o alcance a terra para os negros. Mesmo com o ponto de vista de alterações advindas com a publicação da Lei Áurea, o estado social e financeiro do negro não se transformou radicalmente com a abolição.

Bando ou malta em roda de capoeira. Fonte: Iracema Santos Medrado. Guarda Negra: Origem e Formação (Rio de Janeiro, de 1888 a 1890).

Existiram muitas explicações em cima da criação de hostes negras no Rio de Janeiro e em diferentes regiões como Maranhão, Amazonas e Bahia. Algumas fontes também indicam para a ligação de conservadores como Ferreira Viana, João Alfredo e abolicionistas como Patrocínio e Emilie Rouéde com associações de capoeiras.

A primeira explicação dada acerca do começo da Guarda Negra foi descrita pelo autor Oswaldo Orico, biógrafo de José do Patrocínio. A Guarda Negra, para Orico, foi formada a partir de um conjunto de negros sustentados por monarquistas que se reuniram para fazer uma fraternidade negra, a Sociedade Recreativa Habitante da Lua, na localidade de Santana – abrigada por Nagóas. Essa fraternidade era feita por negros alforriados e, futuramente, passou a receber negros livres pela Lei Áurea. As informações mais precisas acerca dessa fraternidade apontam que a comunidade dos Nagóas foram os componentes que fizeram a Guarda Negra, por terem no passado dado apoio ao Partido Conservador.

Segundo Magalhães Junior, a criação da primeira versão da Guarda Negra foi decisão não de José do Patrocínio, mas do abolicionista e monarquista Manuel Maria Beauripaire Pinto Peixoto. Magalhães Junior argumenta que os republicanos ficaram revoltados pelo aliciamento de negros para adensar os ajuntamentos monarquistas e sugeriam que a Guarda Negra se encontrava junta ao ministro da Justiça, Ferreira Viana, com completo suporte de João Alfredo.

Para Maria Lucia Rangel Ricci os criadores da Guarda Negra foram os abolicionistas mais ostensivos, como José do Patrocínio, que desejavam lutar contra a influência do Partido Republicano frente ao povo do Rio de Janeiro. Patrocínio desejava que as convicções de salvaguarda à Redentora Isabel, erguida por esse bando, se expandissem para as outras regiões do Império.

Augusto Mattos indica que a Guarda Negra teve sua criação aberta na residência do abolicionista e monarquista Emilio Rouedé, em 10 de julho de 1888, com o completo suporte de José do Patrocínio, que se chamou o inventor e conselheiro do bando.

Patrocínio buscou o suporte da Confederação Abolicionista à Guarda Negra, para que seus conceitos fossem divulgados nas outras regiões do Brasil, para o que tinha igualmente o suporte da imprensa. Os republicanos, por sua vez, não aceitaram a criação de hostes armadas apoiadas por abolicionistas e o Isabelismo de Patrocínio, e em seus jornais como Província de São Paulo, Gazeta da Tarde e O Paiz censuravam o comportamento da Confederação Abolicionista de receber parecido conceito e sustentar a paixão de Patrocínio.

A ascendência do gabinete do Visconde de Ouro Preto, em setembro de 1889, do Partido Liberal e adversário político de Patrocínio, o levou de novo a se associar aos antigos adeptos republicanos. Para se explicar, afirmava-se favorável ao republicanismo numa época em que se encontrava excluído politicamente e objeto de opiniões por todas as pessoas dos jornais cariocas pelos atos da Guarda Negra.

Com o fim do pacto entre Patrocínio e o Partido Conservador, o jornal Cidade do Rio se transforma em alvo contínuo de investida dos republicanos, e inicia um conflito interno. O suporte ao gabinete de João Alfredo foi explicado por Patrocínio como agradecimento pela Abolição. Com a queda deste e diante das transformações sugeridas por D. Pedro II, ao regressar da Europa, em agosto de 1889, não existia causa para seguir seu suporte à Monarquia.

Com a queda do gabinete abolicionista, Patrocínio buscou uma reaproximação com os republicanos, separando-se dos monarquistas. Ele possivelmente entendeu que seu prosseguimento na política e a conservação como escritor na imprensa consistia no suporte dos republicanos, liberais e do novo sistema de governo, já que o estado autocrático dirigido por monarcas, soberanas e altezas encontrava-se arrebentado e condenado ao aniquilamento.

Nossas Histórias na Sala de Aula:

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC):

Ensino Fundamental: EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira); EF09HI04 (9º ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil).

Ensino Médio:EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais  – etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc. – , avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos).

Gustavo Bronze


Bacharel em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professor de História do Governo do Estado de São Paulo; e-mail: gustavobronze16@gmail.com;  Instagram: @gustavoteixeirabronze

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