domingo, janeiro 16, 2022
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MONIQUE ROSA BRASIL: Produzindo pequenos capatazes: racismo, veganismo e luta de classes

 

 

Bem, essa semana que se passou o mundo perdeu o grande líder sul africano e personagem emblemático na luta pela emancipação dos povos negros: Nelson Mandela. O Tata Madiba dos sul africanos também deixa de certa forma órfãos para além das fronteiras da África do Sul, acredito que todos nós que nos reconhecemos enquanto afrodescendentes e que acreditamos na luta dos nossos precursores também nos identificamos com a trajetória ou parte da trajetória política desse homem. Sabemos quem ele representa em nível mundial na luta antirracista. Por mais controversa que seja sua trajetória, por mais que hoje se levante a questão se a mesma mão que abriu as grades para libertação do povo negro sul africano, não conseguiu retirar esse mesmo povo da sua condição de miserável, não há um pensador lúcido que vá negar o que representa a figura de Nelson Mandela para o povo negro. Povo, inclusive que foi trazido da África para o Brasil e outros países, desumanizado, tratado como peça a ser leiloada, marcado como ferro (assim como fazem com o gado), que ainda hoje no nosso país precisa aceitar ser chamado de macaco, povo que sofre um racismo latente que se perpetua pela história da humanidade e de onde ás vezes parece ainda muito difícil emergir.
Mas por que é difícil emergir? Quais são as ferramentas que nos mantém presos a opressão do racismo? O racismo existe e pronto?

Eu acredito que todo sistema de opressão seja racismo, especismo, opressão de uma determinada classe social sobre a outra seja legitimada e perpetuada por diversas ferramentas de alienação da classe oprimida. De acordo com a célebre citação de Paulo Freire “Quando a educação não é libertadora… o sonho do oprimido é ser opressor” e ele acrescenta,

“O oprimido acaba adquirindo os valores dos opressores, e assim o modelo de humanidade que vai procurar realizar é o do opressor. Passa a defender a visão individualista de liberdade, o que lhe impede de lutar pela própria libertação. “Em sua alienação, os oprimidos querem a todo custo parecer-se com o opressor, imitá-lo, segui-lo” (FREIRE, 1980, p. 60).”

Acho que fica claro agora entendermos que introjetar nos oprimidos o sentimento de não pertencer a sua classe, a vontade de ser como o opressor faz parte do processo de manutenção da classe oprimida nessa condição.

O que esse texto tem a ver com veganismo…

Na mesma semana passada circulou no meio vegan em ocasião do falecimento de Madiba uma informação, que até agora não conseguiram me provar verídica, sobre ele ter realizado caça a animais selvagens e ser um entusiasta da prática. Não obstante o meu próprio exercício (também procuro seguir uma dieta e filosofia vegans) de estabelecer uma relação respeitosa com todas as espécies animas e com a vida, muito me surpreendeu que fosse relevante levantar essa questão num momento em que alguém tão importante na história da luta do povo negro morresse. Ao invés de lembrarmos da sua trajetória nesse sentido, preferiu-se levantar uma polêmica sobre o seu suposto entusiasmo pela caça. Veja o meu espanto diante dessa circunstância, já que minha “convivência virtual” se dá em uma esfera muito politizada, em todas as minhas redes sociais as pessoas com quem estabeleço contato geralmente tem certo nível de esclarecimento político, são de esquerda, são vegans, são feministas, etc Mas ainda assim ficaram espantados com essa informação que ninguém sabe exatamente qual é a fonte e o que eu senti foi um certo acuamento “será que podemos mesmo reconhecer essa pessoa como alguém que buscou construir uma sociedade mais justa?”. Aí eu poderia citar aqui uma lista de líderes políticos da esquerda (e da direita também) que também praticavam a caça para mostrar que o comportamento de Mandela não era isolado ou pra provar que “se vocês desconsiderarem este terão que desconsiderar aquele também”. Mas eu prefiro me atentar ao fato de que eu não vejo ativistas em prol da dignidade animal, nem feministas, humanitaristas, anarquistas questionarem se o Che praticava caça, se o Malatesta era vegano, se o Lénin, a Simone de Beauvoir, Fidel Castro, eram fiéis guardiões do bem estar de todas espécies animais. O que só me faz concluir que o primeiro desvio de um negro sempre servirá para que brechas se abram e sua trajetória seja completamente ignorada.

Se todos os outros ativistas e figuras que compõe nosso imaginário na luta por um mundo mais humano e libertário são perdoados por sua não preocupação com esse tema, por que isso seria relevante na ocasião da morte da talvez mais significativa figura na luta anti racista na nossa contemporaneidade?

Se automaticamente o Mandela, por SUPOSTAMENTE participar de caças esportivas deixa de ser importante para vocês veganos e libertários brancos para mim enquanto negra ele não pode deixar de ser. Muito me ofende e surpreende que ele tenha que passar por esse “cânon” para que vocês o continuem considerando de maneira positiva.

Aliás, dentro de certo grupo vegano essa mesma informação seguida de uma imagem do Mandela ao lado de um animal morto abriu brecha para que comentários em apologia ao nazismo fossem postados, seguido de declarações que transformavam Mandela praticamente num Hitler da exploração animal. Que tipo de discurso é esse? Qual é a sua função?

O meu ativismo de mulher negra e periférica nunca vai ser igual ao seu…

Dado o que foi explanado em tópicos anteriores, não resta dúvidas de que certo espaços dito libertários estão povoados de papagaios que repetem palavras de ordem e seguem a cartilha do discurso político libertário, falam o que tem que ser falado, demonstram importância com o que ou quem deveria ser importante, mas são mais rasos do que um pires. São capazes de citar trechos do Capital e explicar todo o conceito da dialética em Marx, ou recitar Bakunin como se fosse “Havia uma pedra no meio do caminho”, conhecer a fundo biologia para que possa sair em defesa da vida de todos os animais, mas quando se trata de dialogar com os mais pobres, com os de fato oprimidos, que sentem a opressão não num texto de internet ou sentada em uma cadeira de faculdade, mas no cerne da sua existência, se tornam incapazes e seria melhor eu discutir com a barata que evitei matar hoje e mais frutífero também.

Não adianta seguir uma cartilha prescrita do ativismo e muito menos vai funcionar tentar empurrá-la “guela” abaixo de quem está tão alienado, cooptado, sugado pelo sistema que não tem tempo de pensar nem em si de maneira digna e humana quanto mais refletir sobre a vida dos outros animais, ainda que humanos. (Lembre-se alienação é uma condição, não uma escolha) Por isso o ativismo vegano, a luta de esquerda protagonizada por pequenos burgueses, o movimento estudantil que advoga ser povo, mas nunca passou dos seus apartamentos medianos na Tijuca (quiçá do Leblon), nunca vai ser libertário para quem realmente precisa de maneira prática e eficiente de libertação.

Eu sou periférica, eu sou vegana, sou feminista, sou anticapitalista, e nessa classe média cultural onde me encontro enxergo plenamente o abismo que separa muitos Movimentos Sociais do povo. Há um abismo que para a classe burguesa, a classe média e os pequenos burgueses parece impossível transpor, que para as pessoas brancas é impossível transpor. Vocês nunca irão de fato entender o que representa o nosso sofrimento e a nossa luta.

Eu não posso me dar ao luxo de desconsiderar a luta de Mandela, nem de nenhum outro ativista negro, nem de nenhuma outra militante feminista negra porque essa pessoa não desenvolveu uma filosofia de respeito a diversidade animal. Eu preciso da imagem, da luta, das conquistas e dos ensinamentos dessas pessoas para sobreviver ao racismo e a luta de classes. Ainda que cada vida me seja preciosa. A vida das pessoas negras e periféricas também me são e se trata da minha própria vida.

Os pequenos capatazes

Como eu citei no primeiro tópico do texto, o trecho de Pedagogia do Oprimido, onde Paulo Freire propõe um novo olhar sobre esse sentimento do oprimido alçar ser o opressor, gostaria de voltar a esse conceito para sugerir uma reflexão sobre quem é o humano que está diretamente envolvido na opressão de outras espécies. Como nós sabemos, no período do regime escravagista brasileiro quem lidava direto com os escravos, quem geralmente os açoitava, quem os vigiava em suas senzalas, quem os comandava durante o trabalho nas lavouras e nas casas não era o homem branco, o dono da propriedade, o senhor de engenho. Existia uma figura intermediária que encarnava o papel do opressor e esse homem era chamado de capataz. Esses homens também eram mestiços, negros e sua sobrevivência dependia do seu senhor. Mas como eles perderam esse sentimento de pertença a classe oprimida e galgaram uma posição de privilégio frente aos seus iguais exerciam com afinco essa função de dilacerar a carne do seu irmão de cor. Ora, quem são os homens e mulheres em condição subalterna nessa sociedade que infingem diretamente a crueldade aos outros pobres e negros e as outras espécies animais? Quem lida com o boi no abate não é o dono da fazenda. Quem bate e mata os meninos negros nas ruas não é a presidente da república ou o governador do estado, assim como o Estado tem uma massa de intermediários sem consciência de classe pronto pra servi-los, a indústria da tortura animal também conta com outros animais, porém humanos, prontos e sem empatia para infligir sofrimento. Sofrimento esse que eles não têm consciência, assim como não tem consciência muitas vezes do seu próprio sofrimento enquanto proletariado, enquanto periféricos, enquanto negros.

Óbvio que não estou classificando aqui um político bem educado, famoso e bem quisto (até por quem não sabe de seu posicionamento à esquerda, nem de sua luta considerada terrorismo) junto com a massa que precisa trabalhar 8, 10, 11 horas por dia e que tem os churrasco sanguinolentos de domingo como diversão. Apenas usei sua figura para introduzir a vocês o tipo de ativismo libertário do qual eu não quero fazer parte.

Nós, pessoas negras periféricas, temos um monte de demandas e uma mão invisível sobre nossas cabeças que nos empurra para baixo, demandas que vocês nunca terão. Por isso talvez não entendam que o nosso processo de libertação e de conscientização e nossa luta por um mundo mais justo trilha caminhos diferentes dos seus, passa pelo caminho do que é urgente.

Um veganismo que não consegue entender que na periferia as mulheres são em sua maioria chefes de família, além de donas de casa e precisam de tempo hábil para preparar a alimentação dos filhos e garantir a renda mensal da família não me interessa. Um veganismo que não conhece a trajetória da luta pela reforma agrária no Brasil não me interessa. Um veganismo que não dialoga com a pobreza, que não dialoga com a cultura da periferia, que sim passa pelo único momento de abstração do trabalhador ao fim de semana em frente a uma churrasqueira cheia de cadáveres não me interessa. E nenhum outro ativismo que esteja mais interessado em acusar as minorias, repetir jargões decorados, ir fazer protesto em Copacabana, mas não consegue enxergar, transpor esse abismo cultural não me interessa.
Nós pobres e periféricas fomos feitos e ensinados a sermos capatazes de nós mesmos. Mulheres reproduzindo machismo sendo capatazes de outras mulheres, pobres torturando animais sendo capatazes de outras espécies e é assim que o opressor vence, é assim que ele nos afasta da nossa classe e tira a nossa empatia com relação ao sofrimento alheio.

Acredito que apenas entendendo como se dá esse processo é possível construir propostas libertárias mais amplas, mais pacientes com as dores dos oprimidos, com maior interesse em trabalhar pela base e que tenha mais eficácia. Não adianta olhar do alto do seu conhecimento e da sua janela da classe média e condenar os pobres por não conseguirem atribuir significado de dignidade a outras espécies e a outros pobres. É preciso abrir a cortina e reconhecer que há uma luta de classes e que você pode estar do lado contrário do meu, ainda que esteja aí paramentado com os símbolos do seu ativismo e com seu discurso pró liberdade de todas as espécies e a favor da emancipação humana.

 

 

Fonte: ANDA

 

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