Mostra divulga produções artísticas da periferia de São Paulo

Por: Camila Maciel

São Paulo – Cantar, recitar, improvisar, dialogar. É assim, entre uma ação e outra, que trabalhadores, donas de casa, jovens, artistas se fazem poetas, desde 1995, nas noites de Campo Limpo, bairro periférico da zona sul de São Paulo.

A partir desta semana, o Sarau do Binho, como ficou conhecida a experiência, irá percorrer outros bairros, dando uma mostra do que se produz nas periferias paulistanas. A atividade faz parte do Festival Estéticas das Periferias – arte e cultura nas bordas da metrópole, que segue até o próximo dia 30.

Assim como o Sarau do Binho, mais de 100 apresentações em 30 espaços culturais da capital vão divulgar as produções de artistas locais, algumas pouco conhecidas do grande público. A maioria dos espetáculos é de graça. Os que são pagos têm preços populares, que variam entre R$ 4 e R$ 16.

“A gente procurou cobrir todas as linguagens artísticas e a cultura digital. Buscamos também casos exemplares que propusessem experimentações e gerassem diálogos. Mas nós sabemos que a mostra não dá conta de toda diversidade cultural que existe na periferia”, disse Antônio Eleilson Leite, coordenador da área de cultura da organização não governamental Ação Educativa, uma das promotoras do evento.

A estudante Isabella Bispo, de 10 anos, passava, como de costume, pelo Ônibus Biblioteca que estaciona todas as terças-feiras na praça da comunidade Vila da Paz, em Interlagos, quando foi surpreendida pelo Sarau do Binho, que se apresentava no local na tarde de ontem (21). “Eu achei legal. Aqui no bairro, só tem atividade assim na minha escola”, relata. Isabella não só observou o recital dos artistas, como aceitou ler para os amigos trecho de um cordel ao final do encontro.

O articulador do sarau, Binho Poeta, como faz questão de ser chamado, relata que 90% das apresentações feitas nos encontros são de poesias autorais. “Claro que esse percentual foi crescendo ao longo do tempo, mas o número de pessoas que mostravam suas poesias sempre foi maior. A vontade de dizer na periferia é muito forte. O espaço do sarau estimula a produção dessas pessoas. O que se produz tem uma beleza, tem lirismo, mas é uma reflexão que convida a transformar. “.

Eleilson acredita que a mostra é uma oportunidade de aglutinar diversas experiências das periferias e ressaltar os aspectos artísticos dessas produções. “A cultura da periferia é muito valorizada pela função social que exerce, mas pouco vista pela qualidade artística dos trabalhos. Como essa cena cultural ganhou densidade nos últimos anos, há vários trabalhos relevantes que merecem ser avaliados como obras artísticas”, avalia.

O coordenador destaca, na programação da mostra, o show de encerramento, no domingo (30) no auditório do Parque Ibirapuera, com os grupos Samba da Vela e o Berço de Samba de São Mateus. “São duas rodas de samba representativas da periferia de São Paulo, mas que nunca se apresentaram juntas no palco”, convida. Ele informa que, este ano, a mostra será composta também pela Semana da Cultura Motoboy, que será aberta hoje (22), as 18 horas, no Espaço Cultural Periferia no Centro, na Vila Buarque.

A partir do dia 27 de agosto, além das apresentações, haverá um seminário para discussão de temas relacionados à produção artística nas periferias, como espaços culturais, organização em rede, estética, política cultural, entre outros. Para participar, é preciso inscrever-se no site da mostra.

A programação completa e as inscrições podem ser feitas no endereço eletrônico www.esteticasdaperiferia.org.br

 

 

Fonte: Correio do Brasil

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