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‘Mudei minha cor no RG’: mulheres contam como se reconheceram negras

Alice Melo tinha 32 anos quando decidiu atualizar seu RG de parda para preta. O tom de pele da farmacêutica paulistana fazia com que as pessoas a identificassem como branca, mas isso passou a incomodá-la cada vez mais depois de adulta. “Apesar do meu cabelo crespo, diziam que eu não era negra por causa da minha cor mais clara”, conta.

Assim como ela, outras mulheres entrevistadas por Universa passaram a se reconhecer negras só depois de muitos anos lutando para se encaixar em padrões que a sociedade impunha —e ainda impõe— e a própria família acaba reforçando. Como no caso da coordenadora educacional Wilka Carla, que alisava os cabelos desde criança porque era um hábito entre as suas tias.

Em um país em que o racismo estrutural é tão profundo, dizer para uma pessoa que ela era negra há 10 ou 20 anos era visto como uma ofensa. “Meu apelido na escola era morena”, conta a coordenadora de vendas Carolina Messias, que se debruçou sobre o tema com muito estudo e a leitura de livros como “Na minha pele”, do ator Lázaro Ramos, para entender melhor a sua identidade.

A seguir, elas compartilham seus relatos de como se reconheceram negras depois de adultas e contam de que forma isso mudou as suas vidas.

‘Mudar minha cor no RG foi libertador’

‘Mudar meu documento me deu uma sensação tão libertadora que falar sobre isso me emociona’ (Foto: Yasmin Dib/ UOL)

“Passei boa parte da minha vida acreditando que era branca ou parda, porque esse não era um assunto muito discutido alguns anos atrás. Apesar dos meus traços, diziam que eu não era negra por causa da minha pele mais clara. Minha mãe mesmo me chamava de cabra laranja, por causa do meu tom de pele, do cabelo crespo e do nariz de batata. Mas eu não era vista como negra pela sociedade.

Mesmo assim, eu sentia que não me encaixava nos lugares por causa do meu cabelo crespo. Depois de adulta eu despertei e decidi mudar. Com 25 anos eu não queria mais fazer escova progressiva. Não queria mais nada daquilo. E finalmente me entendi como mulher negra.

Detesto o fato de que a minha certidão de nascimento diga que eu sou parda. Mesmo sem saber explicar o motivo, eu não gostava disso, me sentia desconfortável. Quando eu fui atualizar o meu RG, aos 32 anos, me perguntaram qual era a minha cor. Então mudei a minha para mulher preta.

No momento em que virei a chave na minha cabeça, em que realmente me entendi como mulher negra, foi muito libertador. Mudar meu documento me deu uma sensação tão boa e libertadora que falar sobre isso me emociona. É um sentimento muito bom.”

Alice Melo, 41 anos, farmacêutica e bioquímica, de São Paulo (SP)

‘Após a transição capilar, me olhei no espelho e me reconheci’

Wilka: ‘Ouvi pessoas me dizerem: que negra, que nada. Você é morena’ (Foto: Brenda Alcântara/ UOL)

“Sou filha de um homem preto e de uma mulher de ascendência indígena. Fui registrada como uma criança parda, mas tenho todos os traços do meu pai, apesar de não ser tão retinta quanto ele. Quem queria ser reconhecido como uma pessoa negra se isso era visto como algo ruim? A negritude não era uma pauta na minha família. Ser chamada de morena ou parda era uma forma de amenizar a negritude e viabilizar acesso a alguns locais. Mas isso não era conversado como é hoje.

Usar o cabelo natural não era aceitável. Então, comecei muito nova a fazer alisamento. Minha referência mais próxima era minha mãe e eu dizia que queria ter um cabelo como o dela. Uma das minhas tias, mulher negra, era cabeleireira e eu devia ter uns sete ou oito anos quando comecei os alisamentos. Ela também alisava o seu cabelo. Mas era frustrante que, independentemente do processo químico, meu cabelo nunca ficava como o da minha mãe. A estrutura dos nossos fios era muito diferente.

Já na adolescência eu comecei a não me reconhecer com aquele tipo de cabelo. De alguma forma, ele não me satisfazia, mas ainda assim eu continuava com a química. Só que nessa época ela tinha mudado de nome, se chamava ‘permanente afro’. Todas as crianças negras queriam fazer esse tratamento. Porque o nosso crespo não era aceito, era necessário fazer um alisamento, para deixar os fios mais maleáveis e depois cachear. Passei muito tempo com permanente afro e ficava com os cachos mais soltos, porque o crespo natural ainda não era bem visto.

Foi só quando cheguei ao ensino médio, com 16 anos, que comecei a me reconhecer como mulher negra, mas minha fala não era validada. Ouvi pessoas me dizerem: ‘que negra, que nada. Você é morena’. Ou ainda: ‘você nunca foi negra’. Então comecei a me questionar. Imagine o conflito: eu me reconhecia como negra, por causa de meus traços e do cabelo, mas as outras pessoas, não. O peso das falas acabou fazendo com que eu aceitasse que não era negra. Porque toda vez que eu afirmava, vinha um conflito e a negação.

Na fase adulta, aos 20 anos, quando começaram a falar mais sobre a questão racial, retomei minha ideia da adolescência de que era uma mulher negra. E essa identificação foi efetuada a partir da transição capilar, que foi um divisor de águas na minha vida. Foi como renascer, olhar no espelho e se reconhecer. Quando cortei bem curtinho, foi um florescimento. Atualmente uso meu cabelo crespo, como ele é.

Por mais que queiram invalidar minha negritude, hoje tenho voz ativa para dizer que me reconheço como mulher negra.”

Wilka Carla, 32 anos, coordenadora educacional, de Paulista (PE)

‘Entendi minha negritude com estudo e terapia’

Carolina Messias: ‘Pesquisei em livros e com terapia fui me entendendo como mulher preta – e a potência disso’ (Foto: Yasmin Dib/ UOL)

“Tenho 24 anos e passei a adolescência inteira tentando me entender como pessoa em um ambiente de muita gente branca. Estudei em uma escola particular e só eu era negra. Eu alisava o cabelo, tentava entender por que a minha boca e o meu nariz eram grandes. Por que eu era tão diferente do que era considerado normal e bonito.

Na escola, nunca nenhum menino pediu para ficar comigo. E quando alguém me perguntava minha cor, eu dizia que era morena. Esse era, inclusive, o meu apelido na escola. Na época, além de tudo, eu tinha um problema muito grande com meu cabelo e a minha altura —tenho 1,80 m. Frequentemente a diretora fazia um evento para os alunos em que ela cozinhava uma lasanha. Um dia, por eu não estar com o cabelo trançado, nem fui.

Só depois de sair da escola fui buscar entender quem eu era. Pesquisei em livros e com terapia fui me entendendo como mulher preta —e a potência disso. Que não é só dor e sofrimento. Que tem beleza no meu cabelo afro, nos meus lábios carnudos. Foi estudando, e buscando pessoas parecidas comigo, que eu fui conseguindo quebrar os padrões.

Passei a ler muitos artigos —escrevi sobre maternidade negra nas periferias de São Paulo para o TCC da minha faculdade— e livros como “Na minha pele”, do Lázaro Ramos, e o da Michelle Obama. E também sigo influenciadoras como a Gabi Oliveira, a Preta Rara e a Josy Ramos.

A questão racial não era um assunto discutido na minha família. Fui criada para ser a melhor com o que meus pais podiam me dar, mas nunca me disseram que por eu ser negra eu precisava me dedicar mais. Isso era implícito. Depois entendi o motivo pelo qual eu tinha de me destacar.

Descobri que era negra aos 21 anos. Conversei muito com a minha irmã mais nova, que percebeu a sua negritude na mesma época que eu. Para ela, a questão racial é algo muito forte, mas não falávamos sobre isso. Na cabeça da minha mãe e do meu pai, somos todos iguais, não temos diferença, não importa a cor. Mas a gente sabe que não é verdade.

Teve um caso específico que virou a minha chave do pertencimento. Eu trabalhava em um lugar com muitos imigrantes —pessoas do México, da Colômbia, do Chile e do Peru. Um dia um peruano me disse que não receberia ordens de ‘uma mulher de cor’ e mais nova do que ele. Isso doeu bastante. Na época, meu chefe conversou com ele sobre a situação e ele foi desligado. Ninguém nunca tinha olhado no meu olho e falado que eu era preta. Sou preta mesmo e está tudo bem.”

Carolina Messias, 24 anos, coordenadora de vendas, de São Paulo (SP)

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